Seculo

 

'Delação do fim do mundo' bateu no ES


12/04/2017 às 01:00
A aguardada “delação do fim do mundo” cumpriu a promessa que não deixaria pedra sobre pedra. O epicentro detonado nesta terça-feira (11) em Brasília, com a lista do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Eduardo Fachin, causou abalos sísmicos País afora. A tal lista de Fachin foi demolidora. Foram arrebatados pela Lava Jato oito ministros do governo Temer, três governadores, 24 senadores, 39 deputados federais. Ao todo, foram 108 alvos dos 83 inquéritos que a Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao STF com base nas delações dos 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht.
 
A temida “delação do fim do mundo” também bateu no Espírito Santo e pegou em cheio o governador Paulo Hartung (PMDB). A informação inicialmente publicada pelo site da Revista Veja, e mais tarde por outros veículos, causou perplexidade nos meios políticos. Afinal, até janeiro Hartung vivia uma lua de mel com a imprensa nacional e com os formadores de opinião, especialmente os ligados ao mercado financeiro. 
 
Depois de trabalhar arduamente sua imagem para fora do Estado durante os dois primeiros anos de mandato, Hartung conseguiu construir a referência do governador que enfrentou a crise com uma receita de ajuste fiscal corajosa e infalível. Até outro dia, só se falava no Espírito Santo de Paulo Hartung. 
 
A derrocada improvável viria em meados de fevereiro, com a crise na segurança pública. A paralisação da Polícia Militar durou intermináveis 22 dias, deixando  profundos arranhões na imagem do governador, tanto internamente como para fora do Estado. Depois disso, Hartung passou a colecionar desgastes políticos na Assembleia, no processo de eleição da Amunes e mais recentemente com a ameaça do prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), de tirar a concessão do sistema de água e esgoto da Capital das mãos da Cesan, minando o plano do governador de negociar a companhia com a iniciativa privada. 
 
A delação do ex-executivo da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, que sustenta ter dado ao peemedebista R$ 1 milhão para as campanhas eleitorais de 2010 e 2012, às quais Hartung não disputou, é um golpe duríssimo, justamente no momento de maior fragilidade política do governador. 
 
Adotando a estratégia da maioria dos políticos que apareceram na lista do ministro Fachin, Hartung também recorreu ao discurso da indignação. “Leviana, mentirosa e delirante” foram algumas das palavras encontradas por Hartung para refutar as acusações. O governador também tentou desqualificar as acusações do delator, alegando que não disputou as eleições de 2010 e 2012. 
 
O argumento, em tese, não o isenta de absolutamente nada. O fato de não ter disputado não significa que Hartung não possa ter recebido o dinheiro. Afinal, mesmo fora da disputa, ele continuava sendo a principal liderança política do Estado, com amplo protagonismo nas duas eleições. Há outros investigados que também não disputaram eleições, mas que tiveram papel estratégico na articulação dos recursos para campanhas de aliados.
 
O governador Paulo Hartung e outros investigados precisam entender o contexto da chamada “delação do fim do mundo”, o momento tumultuado que o País atravessa em meio a tantas denúncias de corrupção e a intolerância da população com a classe política. A sociedade contava os dias à espera dessa delação que alimenta uma esperança, mesmo que remota, de que o País possa promover a tão desejada faxina ética e moral. 
 
As justificativas prontas da maioria dos políticos investigados, incluindo Hartung, que se dizem vítimas de uma conspiração irresponsável dos delatores, soam como um acinte à opinião pública. Ora, ninguém aparece numa delação por acaso. E se o ministro Fachin avaliou que as informações colhidas até aqui são suficientemente consistentes para dar prosseguimento às investigações, não há justificativa para os investigados reagirem com indignação.
 
O que a população capixaba exige, no caso do governador do Espírito Santo, é a apuração rigorosa dos fatos. Hartung precisa entender que não está acima do bem e do mal. A fama de “governador da moda” já faz parte do passado. Neste momento, Hartung jaz na vala comum ao lado de quase uma centena de políticos que teriam recebido dinheiro ilegal da Odebrecht. 

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