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  • Lava Jato no ES

 

Agora é que são eles


12/04/2017 às 16:22
A revelação do conteúdo das delações premiadas de executivos da Odebrecht põe em xeque todo o sistema político. Foram “delatados” mais de uma centena de políticos de todo País, entre eles, quase uma dezena de capixabas, com destaque para o governador Paulo Hartung (PMDB), maior expoente da política local nos últimos anos. Mais do que vinculado a políticos ou partidos, o escândalo ganha contornos de um problema sistêmico. Além disso, não é um fenômeno relativamente novo.

Desde o início das investigações da Operação Lava Jato, o nome da maior empreiteira do País aparece como uma das principais alvos de corrupção – seja na compra de apoio político no Parlamento ou no pagamento de propina em contratos públicos.

A construtora Norberto Odebrecht, cuja origem remete à empresa do grupo fundada na década de 1920, sempre esteve ligada a grandes obras inicialmente no Estado da Bahia. A companhia só ganhou esse nome em 1954, expandindo suas atividades para o Nordeste, e depois, alcançando as principais obras de infraestrutura em todo território brasileiro e até no exterior.

No Espírito Santo, a empresa foi responsável por obras importantes, como a construção da Rodovia Serafim Derenze (na época conhecida como o Contorno de Vitória) e a mais famosa delas – e igualmente polêmica –, a Terceira Ponte. Ao longo do tempo, o grupo expandiu suas atividades em solo capixaba, sendo responsável por obras de saneamento (programa Águas Limpas, na Capital) e a concessão do serviço de água e esgoto do município de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado.

Muito embora não se possa afirmar cabalmente a ocorrência das mesmas práticas ora denunciadas, talvez pela “borracha” do tempo passado, é impensável admitir que todas as grandes empreitadas foram realizadas sem qualquer tipo de desvio. Uma vez que a Lava Jato demonstrou o desvio ético de agentes políticos e empresários envolvidos em contratos públicos.

Com um agravante: a Odebrecht – e seus executivos – mantinha registros precisos, com horários, valores e apelidos (não se esqueçamos do “amigo”) sobre o pagamento de propinas e contribuições para campanha eleitorais.

Em setembro de 2015, o jornal Século Diário publicou uma lista de pagamento da empreiteira a políticos, ainda na década de 1980, reforçando que as afirmativas de que o esquema corrupção era sistêmico e vinha através dos tempos.  

Os documentos da Odebrecht faziam menção a, pelo menos, duas obras no Espírito Santo, a construção das pontes de Colatina e Vitória (Terceira Ponte). Na “lista de parceiros” da empreiteira figuravam agentes políticos, empresários e servidores públicos que teriam sido beneficiados pelo esquema. Nada muito diferente do que se viu agora.

Ainda em março de 2016, um novo vazamento de informações da Lava Jato permitiu que viessem à tona os nomes de vários políticos – da história recente do Espírito Santo – nas listas de pagamentos da Odebrecht. Alguns deles, ressurgiram no atual momento, caso do ex-governador Renato Casagrande (PSB), do ex-prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) e do atual mandatário da Capital, Luciano Rezende (PPS).

Naquela ocasião, a “superplanilha”, como foi batizada, revelou o nível de organização da empreiteira nos repasses para campanhas eleitorais. Na época, todos os envolvidos negaram qualquer irregularidade e atribuíram o pagamento a doações legais.

O mais recente capítulo desta trama veio com o conteúdo da delação dos executivos da empresa, servindo como verdadeiro “arquivo vivo” das maracutaias e outras tramóias, que caso sejam comprovadas, podem causar um efeito devastador no mercado político. Desta vez, surgem os nomes do governador Paulo Hartung e do senador Ricardo Ferraço (PSDB) que tentam, por ora em vão, desacreditar as informações passadas pelos delatores a Lava-Jato.  

Com a proximidade das eleições de 2018, fica cada vez mais difícil acreditar que os dois tenham condição de saírem ilesos. Até porque a Lava Jato segue em marcha, não poupando agora qualquer político ou partidos.

Vale lembrar que o destino de Hartung será decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que aguarda desde o fim do ano passado a autorização da Assembleia Legislativa para processar o governador em outra ação penal por crimes contra a honra. No caso da Lava Jato, a Corte vai investigar o suposto repasse de R$ 1 milhão ao peemedebista nos pleitos de 2010 e 2012. Hartung se defende que não participou das eleições, mas não era ele o “senhor supremo” do destino da política capixaba, resolvendo disputas até dentro do gabinete? Fica a dúvida se isso teve um preço.

No caso de Ricardo, a situação é ainda mais dramática, já que não há de se falar em doações legais ou contas de campanha aprovada. A denúncia é de que o senador teria recebido R$ 400 mil de caixa dois na sua campanha, em 2010, quando ainda estava no PMDB. Pelo menos, Ricardo deu a cara para bater nas redes sociais, gravando vídeos para tentar se defender da acusação. Mas com o pleito de 2018 batendo às portas, é cada vez mais difícil o “Duro” – como foi apelidado pelos executivos da Odebrecht – conseguir se livrar da mácula de ter caído nas teias da Lava Jato.

Assim como ele, todos os demais envolvidos vão depender de um milagre para se livrar do desgaste junto à opinião pública ou até mesmo de sanções pela Justiça. Só o tempo dirá se haverá vida após a Lava Jato.

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