Seculo

 

‘Baianinho arretado' e 'Centroavante pipoqueiro’


14/04/2017 às 19:17
O epicentro do terremoto que irrompeu no Planalto Central na última quarta-feira (12), com a “delação do fim do mundo”, segue provocando sismos Brasil afora. Os vídeos dos delatores narrando o pagamento de dinheiro de Caixa 2 (prática ilegal) a mais de uma centenas de políticos chocaram o País. Mas uma coisa é a informação descrevendo os fatos, outra é ver e ouvir da boca dos delatores os episódios de corrupção com riquezas de detalhes. 
 
Desde que as delações foram abertas, a missão dos jornalistas de todo o País tem sido identificar cada um dos investigados, decupar as informações e tratar o escândalo, que até então estava restrito a Brasília, no âmbito da realidade de cada um dos Estados brasileiros. 
 
No Espírito Santo não é diferente. O Estado é pequeno, mas a relação de nomes que aparecem na lista do Departamento de Propinas da Odebrecht e as delações de seus ex-executivos são proporcionalmente representativos. Arrebatou a pirâmide política do Espírito Santo de baixo a cima: de deputado estadual a governador, passando por parlamentares das duas casas federais (Câmara e Senado) e, de quebra, alcançando aqueles que, neste momento, estão na planície, mas que já exerceram, recentemente, cargos importantes. 
 
Duas das principais lideranças capixabas ainda sentem os efeitos dos sismos e veem o chão se fendendo sob seus pés: “Baianinho”, codinome que a Odebrecht deu ao governador Paulo Hartung (PMDB), e Renato Casagrande (PSB), o Centroavante - alcunha que a empreiteira atribuiu ao ex-governador, fazendo analogia ao craque Walter Casagrande Júnior (hoje comentarista esportivo) -, estão no olho do furacão, e não adianta pôr panos quentes para tentar reduzir o tamanho do estrago às imagens de ambos.
 
Os dois foram alvejados no peito, em cheio, pelas informações que vieram à tona, esta semana, após o ministro do Supremo, Edson Fachin, quebrar o sigilo das delações. Tanto “Baianinho” quanto “Centroavante”, ainda grogues, estão à procura desesperada de um pedacinho de solo firme para se aprumar - se é que é possível se manter de pé depois de um abalo dessa magnitude, sem referência na escala Richter.
 
Cada um, à sua maneira, tentou explicar que as delações não têm pé nem cabeça. Em poucas palavras, ambos repetiram o “discurso padrão” que tem sido usado pelos investigados da Lava Jato. Sempre em tom de indignação, eles juram de pés juntos que os delatores sofrem de delirium tremens. Até aí, nenhuma novidade. Os primeiros alvos da Lava Jato, que hoje estão vendo o sol nascer quadrado, também mostraram a mesma indignação. Lembram do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha? 
 
É claro que os conteúdos das delações ainda não são conclusivos. O caminho para condenar ou remir cada um dos investigados é longo. Mas uma coisa é comum para todos: quem apareceu nas delações fica com o carimbo da Lava Jato na testa e, consequentemente, já estão condenados pela opinião pública.
 
Esse é o caso de Hartung e Casagrande. Os dois passam a ter chances remotas de disputar qualquer cargo eletivo em 2018. Dependendo do andamento das investigações, se forem condenados por um colegiado, se tornariam fichas sujas e não poderiam obter registro na Justiça Eleitoral. Até a participação como cabo eleitoral estaria comprometida. Afinal, quem gostaria de subir no palanque ao lado de um alvo da Lava Jato?
 
De maneira mais direta, a “delação do fim do mundo” pode significar a aposentadoria política compulsória para Hartung e Casagrande. O socialista teria que pendurar as chuteiras precocemente, e entrar para a história como um “Centroavante” que pipocou na hora H, mais especificamente no momento em que aceitou fazer um governo de continuidade com Hartung, quando venceu as eleições de 2010 como candidato do peemedebista.
 
Já “Baianinho” ficaria arretado (fazendo jus à alcunha) ao se dar conta que o terceiro mandato maculou os dois anteriores, enterrando de vez seu sonho de entrar para a história como o mais notável governador do Espírito Santo. 

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Comentários

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Com um olho em 2018 e outro em 2020, Luciano Rezende antecipou o processo eleitoral, mas esqueceu a Lava Jato. Aí mora o problema.

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