Seculo


  • Lava Jato no ES

 

Estratégia da insensatez


17/04/2017 às 18:52
Logo que a revista Veja publicou, na tarde da última quarta-feira (12), na sua versão on-line, o nome de Paulo Hartung (PMDB) entre um dos envolvidos no esquema de corrupção da Odebrecht, houve, inicialmente, um momento de silêncio no Palácio Anchieta, como se o governador, ainda estarrecido, estivesse procurando uma resposta convincente para sair do imbróglio. As informações iniciais, naquele momento ainda restritas a um solitário parágrafo, foram suficientes para cravar o essencial: Hartung recebera R$ 1,08 milhão da empreiteira, via caixa dois, em 2010 e 2012.
 
Tentando se refazer do golpe e mostrar força, o governador decidiu tratar a notícia com indignação. Hartung desdenhou das delações de Benedicto Júnior, o BJ, classificando-as como “levianas e mentirosas”. Destacou que tampouco disputara as eleições 2010 e 2012, e acrescentou que as denúncias do delator não “paravam de pé”. 
 
O que acabou não “parando de pé” foi a estratégia de Hartung de desqualificar as denúncias sem analisar mais criteriosamente a proporção dos fatos. Horas depois, o detalhamento da delação exibiria em vídeo BJ relatando os repasses de caixa dois a Hartung. O vídeo acabou demolindo, com certa facilidade, essa primeira linha de defesa do governador. A opinião pública deu credibilidade às delações. Afinal, quem está disposto neste momento a ficar do lado dos delatados?
 
Percebendo que a estratégia havia fracassado, Hartung viu na ampliação da lista envolvendo outros políticos capixabas uma oportunidade para tirar seu nome dos holofotes. O desdobramento das delações também pegou em cheio o ex-governador Renato Casagrande (PSB), que teria recebido, segundo o delator Sérgio Neves, cerca de R$ 1,8 milhão da empreiteira no mesmo esquema de caixa dois de Hartung. 
 
Com a ajuda da imprensa corporativa, a partir de sexta-feira (15) o noticiário foi tirando discretamente o foco de cima de Hartung e transferindo-o a outros envolvidos. Houve também um empenho especial para mostrar que a delação envolvendo Casagrande era muito mais grave se comparada à de Hartung. Passando a sensação de que o ex-governador cometeu de fato um crime grave, já Hartung, não.
 
As edições dominicais dos dois maiores jornais do Estado (Tribuna e Gazeta) confirmaram a estratégia do governo. As capas de ambos os jornais trouxeram assuntos positivos relacionados à área econômica, tentando transmitir otimismo à população, e esfriando o noticiário envolvendo Hartung no esquema da Odebrecht. 
 
A nova estratégia do governador era virar a página e tratar o assunto como um caso já superado. Mostrar que o Estado precisava fazer foco na retomada do crescimento, e contou, mais uma vez, com a ajuda da imprensa corporativista. “Hora da retomada: Petrobras vai investir R$ 32 bi no Estado” (A Gazeta, 16/04/17); “Multinacionais anunciam novos investimentos e seis mil empregos” (A Tribuna, 16/04/17). 
 
A Gazeta ainda trazia, na mesma edição, uma publicidade de página inteira do governo (“Desafio transformado em oportunidades”) - um resumo dos investimentos na área de infraestrutura (a maioria, na verdade, obras do governo federal) para enaltecer o clima de otimismo. 
 
No mesmo jornal, três páginas depois do informe publicitário, um artigo assinado pelo governador seguia na linha “bola pra frente”. No artigo (“Tempo do hoje e do amanhã”), Hartung exalta o ajuste fiscal do seu governo, ignorando solenemente as delações que maculam a sua imagem. 
 
Repleto de frases feitas, como é seu estilo, ele abre o texto citando o escritor Leon Tolstoi: “O lugar que ocupamos é menos importante do que aquele para o qual nos dirigimos”. Sempre olhando pra frente (deixando os problemas para trás), Hartung emenda: “(...) como ignorar que é o amanhã a nossa grande obra”. E seguiu nessa batida, enaltecendo os avanços do seu governo e prometendo “intensificar os passos dessa caminhada”. Sempre olhando pra frente. 
 
A estratégia seria fechada nesta segunda-feira (17), com a convocação da nata do empresariado capixaba. A reunião no Palácio Anchieta é uma resposta do governador para mostrar à população que conta com o apoio irrestrito dos principais empresários do Estado. 
 
A manobra que vem sendo urdida pelos aliados do Palácio Anchieta é uma tentativa de remir o governador junto a opinião pública antes mesmos dos desdobramentos das investigações que vão apurar as denúncias que o envolvem no esquema da Odebrecht. A estratégia revela a desfaçatez do governador em querer se colocar acima do bem e do mal. Ele, porém, é tão suspeito quanto todos os outros investigados que apareceram no esquema da Odebrecht. 
 
Não adianta Hartung recorrer ao apoio da elite empresarial, achando que a ONG Espírito Santo em Ação possa lhe emprestar credibilidade. A propósito, neste momento, a relação de compadrio entre grandes empresários e homens públicos não parece ser a mais indicada. Lembrando que, primeiramente, falta "Baianimho" explicar sua relação com a Odebrecht.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

O antagonista

Além de reinar absoluto no campo de oposição ao governo Hartung, Majeski também nada de braçadas na raia das redes sociais

OPINIÃO
Renata Oliveira
Vai no bolo
As lideranças políticas capixabas devem ficar atentas para não serem atropeladas pelo rolo compressor da indignação
Lídia Caldas
A importância dos probióticos e prebióticos
Se você não se preocupar com isso estará dando passos largos para engrossar as estatísticas de doenças de causas evitáveis
Geraldo Hasse
É preciso equalizar o bem-estar
A crise do capitalismo pode ser resolvida mediante a adoção de um programa comunista de governo
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Nenna – parte II: early years na ilha
Panorama Atual

Roberto Junquilho

A Odebrecht quebrou a "Omertá", e agora?
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Alô, telefonista?
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Bancada capixaba se movimenta para garantir espaços em 2018

Ambientalistas cobram providências para acabar com poluição em praias de Guarapari

Estratégia política palaciana pode favorecer deputados do interior

Desembargador federal mantém suspensão da prisão de condenados por peculato

‘Há uma opção pelo encarceramento, sobretudo dos jovens das periferias’