Seculo

 

Púchkin - poesias escolhidas (parte 3)


17/04/2017 às 23:40
BIOGRAFIA DE PÚCHKIN – PARTE III
 
Natália Púchkina era destaque na corte, mas Púchkin decide retirar-se com ela para o campo, no que temos o poema “É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila ...”, tudo isso em meio a dívidas que complicavam a vida do poeta. No campo Púchkin escreveu mais poesia e planejou publicar uma revista, até que George Dantès, jovem oficial francês emigrado, decide conquistar a mulher de Púchkin, a qual começou a receber cartas anônimas. No meio disso, Púchkin já tinha escrito bons versos como “Um monumento ergui a mim, obra extra-humana ...”, inspirado em Horácio.
Púchkin publica a pequena novela A filha do capitão, mas a situação econômica e sentimental continuam complicadas, até que o poeta recebe um papel anônimo que é um insulto com a inscrição “Diploma da Ordem dos Cornos”. Dantès continuou a assediar Natália Púchkina. Para Púchkin certamente haveria um duelo, e foi quando Dantès o desafiou.  O encontro realizou-se no dia 8 de fevereiro de 1837, e os que estudaram a vida de Púchkin dizem que a trama foi urdida nos círculos palacianos, com o objetivo de dar fim à vida do poeta, devido sobretudo a suas polêmicas contra o czar. Dantès foi o primeiro a atirar, e Púchkin, atingido mortalmente no estômago, conseguiu disparar contra o adversário e Dantès foi ferido na mão.
A notícia do duelo se espalha e no dia 10 de fevereiro de 1837 o poeta morre. Depois disso, a fama de Púchkin começa a crescer, sua obra é vastamente reconhecida. Sua poesia e sua prosa passam a ser reeditadas sempre, influenciando um mundo de escritores e artistas, sendo louvado pelos maiores prosadores e poetas russos. E Gógol nos diz: “Púchkin é um fenômeno extraordinário e, talvez, o único fenômeno do espírito russo.” Turguiênev: “Ele criou nossa língua literária, nossa língua poética, e a nós e a nossos sucessores resta apenas ir pelo caminho aberto pelo gênio dele (...). Sem falar da beleza viril, da força e da clareza de sua linguagem, essa verdade sincera, essa ausência de mentira e de estilo bombástico, essa franqueza e essa probidade de sentimentos (...) a nenhum de nós, seus compatriotas, surpreende que se encontrem nas obras de Púchkin, nem surpreende àqueles estrangeiros aos quais ele se torna acessível.” Dostoiévski: “Púchkin morreu no pleno desenvolvimento de suas forças e indiscutivelmente levou consigo, no ataúde, algum segredo grandioso. E esse segredo, nós, agora sem ele, tentamos adivinhar.” Górki: ‘Suas obras são o testemunho precioso de um homem inteligente, instruído e verídico sobre os usos, os costumes, as concepções de uma época célebre. Todas são ilustrações geniais da história russa.”
 
POEMAS:
 
OS DIABOS

O poema abre com um canto natural: “Nimbos giram, nimbos passam;/A lua, oculta sob véu,/Aclara os flocos que esvoaçam;/Turva, a noite; turvo, o céu./Vou, vou pelo campo aberto;”. E segue: ““Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:/Duro é para os animais;/Nos olhos neve sacode/O ar. Rumo não se vê mais;”. O caminho se torna turvo e já não tem rumo, e o poema segue: “Agora, a agreste égua açula/À brecha, e ela ergue-se assim./Faz-se de marco e se estende/Na estrada, vejo-o acolá;” (...) “As éguas pararam; já/Cala a sineta. “Que vemos?”/“Um cepo? ou lobo será?”/Mais cresce a borrasca, e chora;”. O tempo é duro, na borrasca se chora, o poeta tenta ver, e vem: “E espíritos se amontoam/Na brancura – vejo, enfim.”. A presença dos espíritos, que estão na brancura, e o poeta novamente se funde à visão natural, de turvo clarão e de folhas de outono: “Infinitos, discrepantes,/Da lua ao turvo clarão,/Demos disformes, dançantes,/Quais folhas de outono, vão.”. E o poeta, condoído, finaliza: “Vão eles, bando trás bando,/Na ilimitada amplidão,/Gemendo, pranteando, uivando,/A pungir meu coração.”
 
ELEGIA

O poema tem um ar de dor, uma dose de loucura, o poeta aqui está na ressaca após a primavera da vida, lamenta e está nostálgico : “Dos anos loucos a alegria extinta,/Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta./Mas, como o vinho, é o remorso meu/Que mais forte ficou, se envelheceu./É triste minha estrada. E me anuncia/O mar ruim do porvir dor e agonia.”. Em meio das lamúrias de poeta, ainda busca o gozo, em meio da aflição, quer sentir ainda suas doses de alegria, no que segue: “E sei que há gozos para mim guardados/Entre aflições, desgostos e cuidados;” (...) “E talvez com sorrir de despedida/Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.”. O amor é uma das visões acalentadas, e o poema ainda tem esperança.
 
ARIÃO

O poema navega, é um verso forte, e se guia pelo mar revolto: “Nós éramos, na embarcação,/Muitos. Uns a vela esticavam;/Outros na fundura apoiavam/Remos pesados. Ao timão,/A pender, nosso hábil piloto/Guiava, em silêncio, o amplo batel;”. No que temos um choque: “Morreu o audaz navegador!/Só eu, clandestino cantor,/Na praia, longe da procela,/O hino de antes a cantar,/A casula estou a secar/Ao pé da fraga, à diurna estrela.”. O poeta quer cantar seu hino, na morte do navegador, ele faz versos.
 
O PROFETA

O poema tem um tom místico, e está cheio de vida, e o poeta está com sede de espírito, no que se arrasta e tenta a liberdade alcançar: “Cheio de sede espiritual,/No ermo sombrio eu me arrastava,/E um serafim, ou ser igual,/Na encruzilhada me esperava.”. E o poema segue: “Ouço dos céus o movimento,/De anjos do empíreo o adejar,/Do que há sob a água o rastejar/E da videira o crescimento.”. A visão dos anjos agora tem também a luta interior no coração do poeta, que segue: “Meu peito com gládio fendeu,/Sacou-me o coração convulso,/E um carvão em brasa meteu/No lugar do órgão avulso./Qual morto nesse ermo a jazer,/Ouvi a voz de deus dizer:/“Levanta, vate, acorre a atende,/Dá ao que quero execução,/E, indo por mar e terra, acende/Com fogo cada coração.””. O fogo e a brasa que acendem no coração também podem ser poesia.
 
A TCHAADÁEV

O poema se abre diante da doce ilusão dos sentimentos nobres: “Amor, glória quieta e esperança/Foram nossa breve ilusão;”. E o coração convulsionado, está impaciente: “Nosso impaciente coração/Da pátria sob autoridade/Fatal ouve a convocação.” (...) “Enquanto o ardente coração/Incitam honra e liberdade,/Do íntimo a nobre agitação/Demos à pátria, amigo, e à idade.” (...) “Do sono a Rússia acordará/E na aversão da autocracia/Teu nome e o meu escreverá.”. E a crítica política fecha este poema em que o coração do poeta está cheio e ardente, com a esperança da Rússia acordar.
 
POEMAS:
 
OS DIABOS
Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vou, vou pelo campo aberto;
A sineta faz tlim-tlim ...
No plaino estranho, decerto,
Medo involuntário há, sim!
 
“Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:
Duro é para os animais;
Nos olhos neve sacode
O ar. Rumo não se vê mais;
Nem de morto avisto traço;
Perdemo-nos. Que fazer?
O Cão nos trouxe a este passo
E está em volta a correr.
 
Olhe: ele lá brinca e pula,
Soprando, a zombar de mim;
Agora, a agreste égua açula
À brecha, e ela ergue-se assim.
Faz-se de marco e se estende
Na estrada, vejo-o acolá;
E ei-lo adiante, apaga-acende,
Antes que à treva erma vá.”
 
Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob o véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Para mais, força não temos;
As éguas pararam; já
Cala a sineta. “Que vemos?”
“Um cepo? ou lobo será?”
 
Mais cresce a borrasca, e chora;
Cada égua, arisca, a fungar;
Ei-lo, aos saltos, longe, agora;
Olhos, na névoa, a brilhar;
As éguas outra vez voam.
A sineta faz tlim-tlim ...
E espíritos se amontoam
Na brancura – vejo, enfim.
 
Infinitos, discrepantes,
Da lua ao turvo clarão,
Demos disformes, dançantes,
Quais folhas de outono, vão.
Quantos! Que meta os atende?
Que vão, queixosos, a entoar?
Vão enterrar um duende?
Vão uma bruxa casar?
 
Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vão eles, bando trás bando,
Na ilimitada amplidão,
Gemendo, pranteando, uivando,
A pungir meu coração.
(1830)
 
ELEGIA
 
Dos anos loucos a alegria extinta,
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.
É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.
 
Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.
E sei que há gozos para mim guardados
Entre aflições, desgostos e cuidados;
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,
E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.
(1830)
 
ARIÃO
 
Nós éramos, na embarcação,
Muitos. Uns a vela esticavam;
Outros na fundura apoiavam
Remos pesados. Ao timão,
A pender, nosso hábil piloto
Guiava, em silêncio, o amplo batel;
E eu – descuidado menestrel –
A cantar-lhes ... Mas tufão cruel
Da onda torna o seio roto ...
Morreu o audaz navegador!
Só eu, clandestino cantor,
Na praia, longe da procela,
O hino de antes a cantar,
A casula estou a secar
Ao pé da fraga, à diurna estrela.
(1827)
 
O PROFETA
 
Cheio de sede espiritual,
No ermo sombrio eu me arrastava,
E um serafim, ou ser igual,
Na encruzilhada me esperava.
Minhas pupilas tocou com
Dedos leves qual sonho bom:
Para prever fê-las bastantes
E às da águia arisca semelhantes.
As mãos nestas ouças apor
Quis, e ei-las plenas de rumor:
Ouço dos céus o movimento,
De anjos do empíreo o adejar,
Do que há sob a água o rastejar
E da videira o crescimento.
Para meus lábios se inclinou
E a língua insana me arrancou
Que era astuciosa e maldizente,
E da sábia serpe o aguilhão,
Com sua ensanguentada mão
Pôs-me entre glaciais dente e dente.
Meu peito com gládio fendeu,
Sacou-me o coração convulso,
E um carvão em brasa meteu
No lugar do órgão avulso.
Qual morto nesse ermo a jazer,
Ouvi a voz de deus dizer:
“Levanta, vate, acorre a atende,
Dá ao que quero execução,
E, indo por mar e terra, acende
Com fogo cada coração.”
(1826)
 
A TCHAADÁEV
 
Amor, glória quieta e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou dessa quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade o soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.
(1818)
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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