Seculo

 

#SomosTodosBaianinho


19/04/2017 às 19:22
Imagine um Estado cuja principal figura política é acusada de corrupção após receber uma bolada em dinheiro vivo, sem motivo plausível aparente. Agora imagine que o “caixa dois” foi oriundo da maior empreiteira do País. Pense ainda que tudo acabou sendo descoberto pela investigação que desnudou a relação promíscua entre políticos e empresários.  Após imaginar tudo isso, tente entender a lógica de um encontro entre o principal suspeito e um grupo de empresários, exatamente após todos os fatos virem à tona.

Esse foi o “senso de oportunidade” da reunião privada na última segunda-feira (19) entre o governador Paulo Hartung (PMDB), alvo da delação de um ex-executivo da Odebrecht, e a “aristocracia empresarial capixaba” – como relatou, com o brilhantismo de sempre, o jornalista Henrique Alves deste Século Diário. Em mais de uma hora e meia de encontro a portas fechadas, no Palácio Anchieta, “Baianinho” – alcunha que identifica o governador nas planilhas da Odebrecht – ouviu palavras de apoio e recebeu a solidariedade de parte do empresariado local.

Uma iniciativa dessas causaria espécie em qualquer pessoa mais sensata, justamente por trazer à tona um dos conflitos de interesses mais evidenciados pela Operação Lava-Jato. Mas fica ainda pior se considerarmos que, nesta mesma semana, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto de lei que perdoa dívida de empresários em até 100% das multas. Bastando para isso a alegação de bom comportamento (ou boa-fé) ou desconhecimento por parte dos sonegadores.

Tal como o encontro na sede do Executivo Estadual, solicitado pelo Fórum de Entidades e Federações (FEF), a matéria aprovada também partiu do empresariado em grupo de trabalho formado junto com a equipe econômica do governo. Tudo isso demonstra relações tão explícitas, quanto promiscuas entre “Doutor Paulo” e o mercado. Justamente, em um momento em que não se sabe onde termina o público e começa o privado. Ou pior, não há distinção entre os dois, apesar das regras do jogo para cada um serem totalmente diferentes.

Maior espanto causa a naturalidade dessas relações para a classe política capixaba, que permanece atônita diante dos últimos acontecimentos. Na Assembleia Legislativa, apenas um deputado se voltou contra a aprovação do texto, de autoria de Hartung: o tucano Sérgio Majeski. Muito pouco para um Parlamento com 30 integrantes que deveria, em tese, representar os reais interesses da sociedade.

Figuras tão divorciadas da realidade, quanto a claque de empresários que se fez presença no encontro privado com Hartung no Palácio governamental. Enquanto isso, a sociedade abismada vê todos os dias nos jornais fatos novos relacionados às delações da Odebrecht. Cada vez mais devastadoras contra os políticos citados, que agora sequer buscam se explicar. Pelo contrário, recorreram ao silêncio e às sombras de seus gabinetes – pois evitam (e fazem bem!) as aparições públicas.

Lembrando que estamos apenas no início do processo investigatório. Ou seja, a partir das delações, as autoridades judiciárias devem começar a juntar mais provas, além de convocar os envolvidos para prestar esclarecimentos – agora não mais à opinião pública, mas à Justiça. E como toda investigação, somente o ponto de partida é conhecida. Já o destino final é uma total incógnita. Talvez isso explique o comportamento de alguns participantes da reunião privada com Hartung que preferiram não ser vistos, tampouco falaram algo.

É bem possível que tudo isso que já foi revelado, seja a ponta do iceberg de um processo que, em âmbito nacional, levou centenas de políticos, agentes públicos e empresários à prisão ao longo dos três anos de Lava Jato – completados no mês passado. A operação só chegou agora em solo capixaba e ameaça produzir efeitos devastadores na política local. Já foi dito à exaustão que o Brasil não é para amadores, mas o Espírito Santo, diante de tudo que aconteceu, é certamente um caso a ser estudado.

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