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Por que engordamos?


21/04/2017 às 13:12
A nova pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, só vem comprovar o que nós, profissionais da saúde, especialistas em nutrição, temos falado: apesar de se movimentarem mais; apesar de tomarem menos refrigerantes e sucos em caixa; apesar de não estarem bebendo mais álcool do que antes; na média, as pessoas, no Brasil, continuam aumentando de peso.
 
Se existem algumas mudanças positivas, então, por que engordamos? A resposta é direta: porque continuamos comendo errado. Estamos ingerindo muito carboidrato de má qualidade. Fomos viciados pela indústria de alimentos em gordura saturada, açúcar e sal. 
 
Há três fatores principais: porque ingerimos mais calorias do que o nosso organismo necessita (a vida moderna diminui nosso gasto calórico médio diário); balanço equivocado de macronutrientes nas refeições, com excesso de carboidratos, principalmente simples, e pouca proteína (magra); deficiência de micronutrientes, gerando a chamada fome oculta, que leva a pessoa a beliscar nos intervalos.
 
A base da pirâmide alimentar praticada na maioria dos casos ainda considera os carboidratos como principal grupo alimentar, mas Harvard já comprovou que isso precisa mudar. A tradição coloca mais de 50% das refeições com carboidratos, 30% de gorduras e 15% de proteínas. 
 
A consequência dessa orientação é que o excesso de carboidrato provoca secreção excessiva do hormônio insulina, que, além de aumentar a produção de reserva de energia em forma de gordura corporal, ainda leva as pessoas a sentirem fome mais rápido.
 
Mas será que apenas reduzindo a ingestão calórica terei sucesso na redução de peso? As prateleiras dos supermercados estão repletas de alimentos “sem gordura” ou “fat free”, mas a população continua engordando. Por que?
 
Porque apenas uma dieta hipocalórica não é suficiente para reduzir peso. Altos níveis de insulina “trancam” a gordura, tornando-a indisponível como fonte de energia. Assim, mesmo com a balança calórica negativa (menos caloria do que consome no dia) o corpo não consegue mobilizar a reserva de gordura para perda de peso.
 
Na década de 90, o esforço governamental era nos advertir sobre os perigos do excesso de gordura e incentivar o consumo de carboidratos. Hoje se sabe que a nova indústria dos alimentos não saudáveis, que começou a nascer nos Estados Unidos há 50 anos, como fruto da migração do capital investido na indústria de tabaco para o novo meio de sua reprodução, “comprou” cientistas para atacarem a gordura e a incentivar o consumo de novos alimentos “viciantes”.
 
Isso aconteceu na formulação da pirâmide alimentar americana do final dos anos 70 e meados de 80, induzindo ao consumo de carboidratos, com repercussão em todo o mundo sob influência dos Estados Unidos. 
 
A nova abordagem valoriza os grãos integrais, as boas gorduras, o consumo de frutas e verduras e das proteínas magras, deixando no topo da pirâmide, portanto, em menores quantidades, as carnes vermelhas e farinhas refinadas. Além de apontarem para a validade da suplementação de micronutrientes e do consumo moderado de vinho tinto. Isso, certamente, vai revolucionar os costumes a médio e longo prazo.
 
Se quiser ser saudável, portanto, diminua a ingestão de carboidratos, amidos e açúcares refinados e valorize os integrais, as frutas, as verduras e as proteínas magras. Qualquer programa de controle de peso deve, sobretudo, salientar quatro pontos: o aumento na oferta de nutrientes essenciais, diminuir o excesso de líquidos  retidos, reduzir a taxa de gordura corporal, sem afetar a integridade do tecido muscular, hepático, colágeno e massa óssea. Isso se faz com alimentação equilibrada, em menores quantidades e menores intervalos, e mais água ao longo do dia.
 
A pesquisa Vigitel traz um dado que parece perverso, mas que deve provocar reflexão: os mais pobres e com menos anos de estudos escolares (parece que as duas coisas estão, diretamente, associadas) estão engordando mais do que os de maior poder aquisitivo e com mais anos de escolaridade (fatores também que parecem associados).
Ou seja, pessoas que estudam mais têm chances de ganhar mais e podem fazer melhores escolhas alimentares. Quem estuda menos, ganha menos e acaba recorrendo a carboidratos mais baratos (e de pior qualidade) e a fontes protéicas menos saudáveis (carnes mais baratas são fontes de proteína mais gorda), além de não diversificarem suas refeições.
 
Está na hora de o poder público pensar numa equação: investir na educação faz bem para a saúde. Da população e do sistema público de atendimento.
 

Lídia Caldas é nutricionista pela Faculdade Católica de Vitória, especialista em Nutrição Esportiva pela Universidade Gama Filho (RJ) e gestora de Unidade de Alimentação e Nutrição. Fale com a nutri: lidiarncaldas@gmail.com

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