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Púchkin - Poesias Escolhidas (parte 4)


30/04/2017 às 18:36
OBRA DE PÚCHKIN – PARTE I
 
Púchkin simboliza a Rússia como Goethe simboliza a Alemanha, Shakespeare a Inglaterra, Camões Portugal, Dante a Itália ou Cervantes a Espanha. Poeta genial, prosador e dramaturgo, é autor de obras-primas como a novela em verso Evgueny Oneguin, a novela Dama de Espadas, ou a tragédia Boris Godunov, e inspiradas em suas obras, temos também as óperas dos célebres compositores russos Tchaikovsky e Mussorgsky.
Púchkin foi pioneiro no uso da língua vernácula nas suas obras, num estilo que fundia o drama, a sátira e o romance em suas obras, no que temos este caudal estilístico como o que deu a nova orientação para toda a literatura russa que veio após Púchkin e que ficaram lhe devendo todo o tributo. Com Púchkin sendo considerado, portanto, o fundador da modernidade literária da Rússia, lhe dando o molde no qual se abandona, finalmente, a subserviência literária aos franceses e aos seus 'rócócós' de linguagem. Púchkin, por conseguinte, se utiliza da linguagem popular russa para imprimir um estilo simples, lacônico e claro, e que será a nova literatura russa livre dos cacoetes anteriores.
 
POEMAS :
 
A N. IA. PLIUSKOVA: O poema começa com estro sublime, a imagem ideal que o poema louva: “Na lira discreta e sublime/Deuses terrestres não louvei,”. Aqui a louvação é a liberdade: “Só a liberdade louvando,/Só a ela dando o meu fervor,”. E a musa como canto revelado: “Cantei Isabel, em segredo,/De Apolo sob a inspiração.” E o canto da virtude, como eco da Rússia em poema de alma e liberdade em versos: “cantei, alma e calor –Digo: a virtude entronizada/E seu encanto acolhedor./À alma a liberdade invisível/Ditou-me (e o amor) simples canção,/E minha voz incorruptível/Foi eco da russa nação.”
 
LAMENTAÇÕES DE VIAGEM: O poema é um trajeto acidentado, o poeta vê desde sempre o mundo e suas vicissitudes: “Muito inda irei pelo mundo/Em caleça, a cavalgar,” (...) “Não na tenda hereditária/Nem entre os mortos pais meus,/Mas na estrada solitária/Decidiu que eu morra Deus:”. Há um tipo de nêmesis bem consciente por parte do poeta, que segue em sua lira: “Ou me levará peste,/Ou geada me há de transir,/Ou golpe que pau me assente”. A morte é um fenômeno inexorável, e poema e poeta lhe dão vazão, como um dom visionário da sorte e do revés numa mesma vida: “No bosque, adaga sem pena/Far-me-á de flanco tombar,/Ou tédio de quarentena,/Algures, me há de matar.” (...) “Diverso é de rum a taça,/Sono à noite; na alba, o chá;/O lar em que, irmãos, se passa/A vida! Bem, vou-me, e já!”. E ele segue na vida, contemplando a futura morte, qual nêmesis ou libertação dos mortais, nunca se sabe.
 
SEM TÍTULO: O poema, esperançoso e otimista, segue seu rumo: “É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila./Vai-se dia após dia, e cada hora aniquila/Um fragmento da vida. Embora! Os dois, a sós,/Vivamos. De morrer, um dia, havemos nós.”. A meditação da alma poética está à flor da pele, e o poema se ilumina: “Minha alma a boa sorte a meditar procura/Faz muito, e, escravo opresso, idear pude evasão/Ao refúgio em que a faina é sã, e o prazer, são.”. O prazer, este que termina a lamúria nos braços de um poema de luz.
 
SEM TÍTULO: O poema contempla, na sua inocência de amor: “Sua beleza, que é serena/E fugaz, brilha, ai! para quê?/Em sua juventude plena/Ela fenece,” (...) “Com a mocidade,/Breve, não se há de deleitar,”. E também sabe que toda alegria é efêmera: “Breve, alegria inda causar;/Nem com palavra meiga e lesta/Nossas conversas reacender,/E, a alma tranquila e manifesta,/No sofredor gerar prazer./E eu, presa de ideias penosas,/Dissimulando meu pesar,/Dou-me pressa em ouvir-lhe as prosas/E o vulto dela contemplar./Olho-lhe cada movimento,/Presto atenção em sua voz,/E aguardo, pávido, o momento/Em que ela nos deixará sós.”. A tal alma tranquila tem uma inquietação, as agruras da contemplação mole e frouxa do amor e da beleza, como um torpor de fuga e redenção evanescentes.
 
SEM TÍTULO: O poema tem a diurna estrela, o poema é de um tom astral que vai do azul da cerração ao mundo da abóbada celeste em um pulo: “Desvaneceu-se a diurna estrela;/No azul do mar caiu da noite a cerração.”. E a paisagem se faz presença em poema, como um todo harmônico: “Avisto a praia já distante,/Das regiões do sul limite encantador;/Perturbado, angustiado, arrebatado por/Saudade, quero-as neste instante ...”. E a dor irrompe, num choro, e que o poema traduz, prorrompendo, num trecho que me comoveu particularmente, o qual vejo como uma das mais belas passagens de Púchkin, no que temos: “Meus olhos, sei, estão novamente a chorar;/Minha alma, febril, se entibia;/Esvoaça em torno a mim a interior fantasia./Meu louco amor de outrora estive a recordar,/Quanta coisa sofri, quanta coisa achei bela,/Da promessa e da fé a aflitiva traição ...”. E o poema faz seu estribilho, como um lembrete da navegação: “Estruge, estruge, obediente vela,/Agita-te sob mim, oceano resmungão./Barco, leva-me a voar para afastadas raias/Por mais de um mar infiel de capricho fatal,”. E o poema segue em sua conclusão: “O breve riso fez-se, e logo, indiferença, e a/Dor em meu coração – dor crua – introduziu.” (...) “Partícipes do excesso a que, não vos amando,/Licencioso, eu me dei, sacrificando então/Liberdade, lazer, boa fama e afeição -,”. Púchkin em sua bela forma é o poeta russo de todos os tempos.
 
POEMAS:
 
A N. IA. PLIUSKOVA
 
Na lira discreta e sublime
Deuses terrestres não louvei,
E a força que a soberba exprime
Com lisonja não incensei.
Só a liberdade louvando,
Só a ela dando o meu fervor,
A recrear czares não ando,
Nem da musa o deixa o pudor.
Mas frente a fonte, entre o arvoredo,
Confessá-lo-ei, lá no Helicão,
Cantei Isabel, em segredo,
De Apolo sob a inspiração.
O que é de esfera arquielevada,
Térreo, cantei, alma e calor –
Digo: a virtude entronizada
E seu encanto acolhedor.
À alma a liberdade invisível
Ditou-me (e o amor) simples canção,
E minha voz incorruptível
Foi eco da russa nação.
(1818)
(N. Ia. Pliuskova era dama de honra da imperatriz Elizaveta Alekseiêvna).
 
LAMENTAÇÕES DE VIAGEM
 
Muito inda irei pelo mundo
Em caleça, a cavalgar,
Em cupê, trenó rotundo,
Em coche ou, ainda, a andar?
 
Não na tenda hereditária
Nem entre os mortos pais meus,
Mas na estrada solitária
Decidiu que eu morra Deus:
 
Nas pedras, de casco diante,
No monte, roda a encarar,
No fosso, que a água fez hiante,
Sob ponte que a desabar
 
Veio. Ou me levará peste,
Ou geada me há de transir,
Ou golpe que pau me assente
Me há de a imoto reduzir.
 
No bosque, adaga sem pena
Far-me-á de flanco tombar,
Ou tédio de quarentena,
Algures, me há de matar.
 
Muito inda, triste e esfomeado,
Jejum terei de guardar
E, vitelo enregelado,
Certas turfas recordar?
 
Diverso é ter estação,
Na Miasnítskaia passear,
Sobre a noiva e a povoação
Com descanso meditar!
 
Diverso é de rum a taça,
Sono à noite; na alba, o chá;
O lar em que, irmãos, se passa
A vida! Bem, vou-me, e já!
(1829)
 
SEM TÍTULO
 
É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila.
Vai-se dia após dia, e cada hora aniquila
Um fragmento da vida. Embora! Os dois, a sós,
Vivamos. De morrer, um dia, havemos nós.
Independência e paz no mundo há, não ventura.
Minha alma a boa sorte a meditar procura
Faz muito, e, escravo opresso, idear pude evasão
Ao refúgio em que a faina é sã, e o prazer, são.
(1834)
 
SEM TÍTULO
 
Sua beleza, que é serena
E fugaz, brilha, ai! para quê?
Em sua juventude plena
Ela fenece, e o mundo o vê ...
Fanar-se-á! Com a mocidade,
Breve, não se há de deleitar,
Nem da família ao grupo há de,
Breve, alegria inda causar;
Nem com palavra meiga e lesta
Nossas conversas reacender,
E, a alma tranquila e manifesta,
No sofredor gerar prazer.
E eu, presa de ideias penosas,
Dissimulando meu pesar,
Dou-me pressa em ouvir-lhe as prosas
E o vulto dela contemplar.
Olho-lhe cada movimento,
Presto atenção em sua voz,
E aguardo, pávido, o momento
Em que ela nos deixará sós.
(1820)
 
SEM TÍTULO
 
Desvaneceu-se a diurna estrela;
No azul do mar caiu da noite a cerração.
Estruge, estruge, obediente vela;
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
Avisto a praia já distante,
Das regiões do sul limite encantador;
Perturbado, angustiado, arrebatado por
Saudade, quero-as neste instante ...
Meus olhos, sei, estão novamente a chorar;
Minha alma, febril, se entibia;
Esvoaça em torno a mim a interior fantasia.
Meu louco amor de outrora estive a recordar,
Quanta coisa sofri, quanta coisa achei bela,
Da promessa e da fé a aflitiva traição ...
Estruge, estruge, obediente vela,
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
Barco, leva-me a voar para afastadas raias
Por mais de um mar infiel de capricho fatal,
Somente, não às tristes praias
Brumais de meu país natal,
Em que a comoção inicial
Senti de cada amor ardente,
em que a musa sorriu-me, oculta, ternamente,
Em que, nas procelas, floriu
Minha perplexa adolescência,
O breve riso fez-se, e logo, indiferença, e a
Dor em meu coração – dor crua – introduziu.
Impressões novas já buscando,
Deixei a terra em que meu avô jaz,
Deixei as alegrias do educando,
Assembleia fugaz de uma idade fugaz;
Partícipes do excesso a que, não vos amando,
Licencioso, eu me dei, sacrificando então
Liberdade, lazer, boa fama e afeição -,
Também vos esqueci ... Mas no meu coração
Chagas de amor de então, fundas, nada debela ...
Estruge, estruge, obediente vela;
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
(1820)
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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