Seculo

 

Contra o legado de Ruschi


04/05/2017 às 08:16
Como diretor, funcionários e pesquisadores puderam se voltar contra a existência do Museu Mello Leitão em prol de um instituto disposto a atropelar os direitos da população capixaba e da Mata Atlântica?
 
Uma possível explicação hipotetiza que o camuflado desmanche do Museu Mello Leitão possa ter sido um golpe para usar seu patrimônio como moeda de negociação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), visando, supostamente, altos cargos. 
 
Independente da hipótese acima ser confirmada, a abordagem da resposta para os questionamentos acima mostra-se mais complexa, pois lida com questões legais, descumprimento de estatutos protetores, passa por questões éticas e pela falta de lealdade ao museu - um completo desrespeito ao legado de Augusto Ruschi 
 
Os pontos a seguir abordam minhas suspeições sobre a criação do instituto à custa da extinção do museu, que vão muito além de uma mera questão de nomenclatura.
 
Destruição da esperança no Museu Mello Leitão
 
O museu teve sua ascensão limitada ao período em que seu fundador esteve à frente da instituição (1949 à 1986). Após a morte de Ruschi veio um período de alternâncias sucessivas na direção (1986 a 2000), deixando o museu estagnado.  Entre 2000 e 2017 o museu esteve sob a direção de Hélio de Queiroz Boudet Fernandes, período que coincide com a fase de decadência institucional do Museu Mello Leitão. 
 
Nesta fase ocorreram inúmeras perdas e desgastes da estrutura patrimonial, incluindo danos às coleções e retração das atividades de pesquisa e educação ambiental, atingindo o fundo do poço com a extinção do Museu Mello Leitão e a alienação de seu patrimônio para o novo instituto do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 
 
Mas, muito antes do desfecho trágico, houve a consolidação do desgaste da expectativa sobre a capacidade da instituição de superar seus problemas, conforme repetido pelo próprio diretor ano após ano, nos eventos de comemoração do aniversário do museu: “o Museu sofre por falta de verba, e não consegue cumprir seus objetivos de pesquisa e educação ambiental”. 
 
Criação de uma nova expectativa sem o Museu Mello Leitão
 
Uma vez bem fixada a ideia de que o Museu Mello Leitão, obra de Augusto Ruschi, seria o fardo que impediria o crescimento da instituição, foi fácil criar uma nova expectativa - neste caso, a expectativa de um Instituto Nacional. Como uma página em branco, essa expectativa foi preenchida com a demanda individual de cada funcionário, pesquisador, estagiário do Museu Mello Leitão, que a essa altura já adotavam o nome do novo instituto muito antes do trâmite sair do papel, como buscando às pressas o orgulho de “ser nacional” ao abandonar a bandeira deixada pelo fundador do museu. 
 
De fato, nenhum pesquisador, e pouquíssimos funcionários e estagiários do museu foram vistos nas comemorações do encerramento do centenário de Augusto Ruschi dentro das dependências do museu, comemorações essas que foram apoiadas pela Associação dos Amigos do Museu de Biologia Mello Leitão (Sambio), a contragosto de sua diretoria majoritária.
 
Movimento em Defesa do Instituto Nacional da Mata Atlântica (MoveINMA)
 
Sempre houve na academia científica do Espírito Santo uma perseguição a Augusto Ruschi. A concessão do título doutor honoris causa pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 2015, mostra que isso vem mudando, e que as novas gerações da Ufes reconhecem o valor do cientista. Mas o fato de alguns desses mesmos professores -membros do MoveINMA, coordenado por Sérgio Lucena Mendes - continuarem a lutar contra a obra de Ruschi para doar o museu ao novo instituto do MCTI mostra que a perseguição continua existindo.
 
Mas, ainda assim, até aí tudo normal, pois a questão não se trata de erradicar a opinião daqueles que não reconhecem a obra de Ruschi, assim como a solução para a febre amarela no Espírito Santo não depende da erradicação do vírus ou dos macacos... O que se esperava é que o corpo institucional do museu fosse imune a esse movimento. Mas, lamentavelmente, não foi, como exponho a seguir.
 
Fogo “amigo” da Sambio ao invés da defesa do Museu Mello Leitão
 
Por mais dura que tenha sido a era da decadência do museu (2000 a 2017), e por pior que fosse o retrocesso trazido pelos que conspiram contra o legado de Ruschi, seria de se esperar que a Associação dos Amigos do Museu de Biologia Mello Leitão (Sambio) se posicionasse quando necessário, pois trata-se de uma obrigação legal – no caso, respaldada pelo estatuto da Sociedade de Amigos do Museu Mello Leitão para “proteger o Museu de Biologia Professor Mello Leitão e o patrimônio científico cultural a ele pertencente, bem como a sua área física”. 
 
A ineficiência da Sambio em defender o museu deve-se ao fato da ex-presidente Margareth Cancian Roldi e do atual, Arlindo Serpa, serem também pesquisadores associados ao museu. Ou seja, assim como outros funcionários-pesquisadores, fazem parte da “bolha” de expectativa no instituto, que é descrente no Museu Mello Leitão. 
 
Um aspecto interessante da Sambio é que ela tem sido usada para a promoção do Simbioma – um tipo de minicongresso para pesquisadores e estudantes. Mas isto apenas comprova que os pesquisadores envolvidos em sua direção, como Arlindo Serpa, a usam unicamente para os assuntos que abrangem suas expectativas individuais junto ao novo instituto. 
 
Mesmo o valor da anuidade dos sócios da Sambio foi recalculado com base unicamente na taxa de inscrição dos eventos do Simbioma, deixando de fora da projeção todos os associados não pesquisadores. Quando questionado sobre os outros deveres da Sambio, como o dever de defender o patrimônio do museu que estava sendo alienado, o presidente teria respondido que tratar-se apenas de um “detalhe burocrático”, ignorando o fato de que sua gestão nada fez para defender o Mello Leitão. 
 
Corações vazios
 
O longo regime de decadência do museu esvaziou os corações de pesquisadores e aprendizes, tornando o ambiente institucional propício a grupos imbuídos em desmanchar a obra de Augusto Ruschi. Com os corações desprovidos do espírito ecológico do cientista, e com a mente contaminada por oportunistas que se alimentam de seu legado, os pesquisadores e aprendizes, famintos por “novas” expectativas, passaram a se convencer da tese de que o Museu Mello Leitão estaria apenas trocando de nome para Instituto Nacional da Mata Atlântica. A essa altura, sob a crença de que o fim do museu seria a solução, não hesitaram em abrir fogo “amigo” contra o próprio Mello Leitão, usando de sua maior arma de defesa, a Sambio. 
 
O Museu Mello Leitão foi extinto (desnecessariamente) para custear a criação de um instituto, mas a opção de lutar pelo Museu Mello Leitão nunca deixou de existir. 
 
Mensagem final
“Pessoas que cometem ações más o fazem por ignorância a respeito do que é bom, mas nem por isso suas ações deixam de ser voluntárias. “
( Aristóteles)

Piero Ruschi é Biólogo, doutor em zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ, atuante nas áreas de Biodiversidade Genética, Evolução, Conservação da Natureza e Responsabilidade Socioambiental

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Tabuleiro de 2018

Ele já negou intenção de deixar o PT ou mudanças de planos, mas movimentações de Givaldo continuam chamando atenção do mercado político

OPINIÃO
Editorial
Fosso social
No Espírito Santo, população negra é mais vulnerável à violência, é maioria no sistema carcerário e nas filas de desempregados
Renata Oliveira
Solidão sem fim
A oposição de Majeski na Assembleia não encontra coro entre os pares, nem no grupo arredio
JR Mignone
Rádio bandeira
A trajetória deste segmento de rádio em capitais é grande
Geraldo Hasse
Os golpes se sucedem
Em plena era do GPS, a reforma trabalhista sugere multiplicar os ''chapas''
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

Quem me ensinou a nadar
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Fuga do Paraíso
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

'Orgânico não tem que ser caro'

Seminário debate formas de erradicar o trabalho infantil

Tabuleiro de 2018

Eleição da nacional alimenta divisão no PSDB capixaba

Cariacica pode ter redistribuição de votos para disputa eleitoral de 2018