Seculo

 

Recebe 'caixa 2', mas faz


08/05/2017 às 23:57
O desejo do governador Paulo Hartung (PMDB) era poder apagar, como num passe de mágica, a delação do ex-executivo da Odebrecht Benedicto Júnior, que o envolveu no esquema de “caixa 2” da empreiteira. Esse, aliás, não é um sonho exclusivo de Hartung, mas de pelo menos uma centena de políticos que apareceram na “lista negra” do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). 
 
Faz um mês no próximo dia 11 que o nome do governador capixaba - que vinha sendo festejado pela mídia nacional como exemplo de gestão fiscal de sucesso - caiu na vala comum dos suspeitos de corrupção atingidos pelo rolo compressor da Odebretcht. 
 
A exemplo dos seus iguais, a primeira reação de Hartung foi desqualificar as delações como “mentiras absurdas”. Como a estratégia de fazer as vezes do “injustiçado” não funcionou, o governador se convenceu rapidamente que o melhor a fazer seria virar a página e seguir em frente sem olhar para trás. 
 
Depois de um mergulho estratégico para tentar limpar sua combalida imagem de beneficiário de "caixa 2", o governador parece ter ressurgido revigorado do período de retiro. A ordem agora é “chacoalhar” o Espírito Santo, promessa que fizera ainda na campanha vitoriosa ao governo, em 2014. Depois de ultrapassar a metade do mandato, porém, a população capixaba ainda esperava a prometida “chacoalhada”, que acabou sendo substituída por uma estagnação sem precedentes, justificada pela necessidade de conter gastos e promover um austero ajuste fiscal.
 
A nova estratégia de virar a página foi afinada nesse final de semana nas montanhas capixabas com sua equipe de governo. A ordem agora é abrir o cofre e fazer as entregas que estavam represadas. Nos últimos dias Hartung já vinha criando as condições para implementar seu “pacote de bondades”. Com a ajuda da sempre prestativa Assembleia, aprovou projetos importantes para a nova fase de bonança do governo. 
 
o Projeto de Lei 118/2017, por exemplo, garante o perdão de dívidas tributárias de empresas que cometeram infrações “sem má-fé ou alegado desconhecimento da lei”. Uma contrapartida à altura do apoio incondicional que recebeu da elite empresarial logo após ser alvejado pela delação de Benedicto Júnior.  
 
Na sequência, veio o Projeto de Lei Complementar (PLC) que autoriza o governo a doar bens móveis aos municípios do Estado. A medida vai permitir que o governador transfira em definitivo bens móveis que foram entregues aos municípios em regime de comodato, além de prever novas doações. A expectativa é que o “pacote de bondades” traga novas boas notícias aos prefeitos, que já estavam incrédulos de segurar o pires sempre vazio.  
 
Junto com o “pacote de bondade” o governo também acabou de lançar uma nova campanha publicitária. A narrativa quer mostrar que agora já é possível retomar o crescimento, sempre com “equilíbrio e responsabilidade”. 
 
A estratégia é enaltecer o ajuste fiscal que promoveu o nome de Hartung nos dois primeiros anos de governo, mas que perdeu o brilho com a crise na segurança (greve da PM) e a delação de Benedicto Júnior. Além disso, o governo tenta supervalorizar os programas Escola Viva e Ocupação Social, mostrando que mesmo nos dois primeiros anos de cortes drásticos os investimentos sociais não foram negligenciados. Faltou aproveitar a peça publicitária, porém, para explicar por que o governo do Estado deixou de investir o mínimo (25%) constitucional na educação. Denúncia levada pelo deputado Sérgio Majeski (PSDB) à Procuradoria-Geral da República, que já está na mão do Supremo. 
 
Ainda é cedo para prever se Hartung irá conseguir virar a página. Ele está confiante na estratégia de que as entregas serão capazes de desviar a atenção da população às máculas deixadas pela delação da Odebrecht, o que poderia lhe assegurar a retomado do controle do processo eleitoral de 2018. 
 
Houve um tempo em que o eleitorado paulista prestigiava Paulo Maluf nas urnas, justificando o voto num político suspeito de corrupção com o bordão: “Rouba, mas faz” (frase originalmente atribuída a Adhemar de Barros nos anos 1950). Paulo Hartung parece crer que o eleitorado capixaba pode criar uma variante do bordão adhemarista/malufista: “recebe ‘caixa 2’, mas faz”.

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