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É fogo, cidadãos brasileiros


12/05/2017 às 12:28
Assim caminha a humanidade: muitas pessoas se apiedam de um cão magro perdido na rua mas não levantam um dedo em favor de um ser humano faminto.
 
Desse jeito, sem solidariedade humana ou com um senso de piedade distorcido, será difícil melhorar um mundo em que muitos não têm nada e poucos têm demais. De 7 bilhões de habitantes do planeta, 2 bilhões estão abaixo da linha da pobreza ou, seja, são miseráveis. Sem contar outras mazelas ambientais, econômicas, morais e políticas, isso precisa ser catalogado como crime.    
 
Esse lembrete vem a calhar no momento em que o Judiciário brasileiro desvenda segredos da corrupção no universo das verbas públicas manipuladas por empreiteiros, administradores de estatais e políticos. Nunca a roubalheira (assaz conhecida por todos) foi exposta de forma tão clara.
 
Propinas de 1% admitidas por alguns expoentes do Petrolão são surpreendentemente modestas num circuito de ricos operadores de grandes contratos acostumados a comissões de 10% a 20% vigentes em alguns setores da economia de serviços no Brasil, país que figura com destaque entre os mais corruptos e desiguais do mundo.
 
É desolador verificar que vigora entre nós a Lei de Gerson, sofisma hipócrita criado por publicitários em favor de um cigarro propagandeado pelo “cérebro” da Seleção Brasileira de Futebol, campeã do mundo no México em 1970. “É preciso levar vantagem, certo?”, dizia no anúncio o “papagaio” Gerson, sugerindo que, ao fumar o barato Vila Rica, os brasileiros estariam economizando alguns centavos.   
 
Em plena ditadura militar, era completamente insensato um atleta fazer propaganda de um cigarro, mas seguiu o baile: ainda que aquela marca de cigarro tenha sumido do mercado, o reclame gersiano permanece na memória popular, sinal de que vivemos num mundo completamente fora de ordem. Ou, seja, tornou-se consensual que, se não levar “vantagem”, qualquer pessoa não vai pra frente, perde o jogo.
 
Eis que, na primeira quinzena de maio, um artigo do advogado Fabio Konder Comparato publicado no site GGN, do jornalista Luis Nassif, traz um assombroso relato sobre o estágio da civilização humana sob o comando do capitalismo financeiro.
 
Em síntese, 737 megabancos controlam 80% das 43 mil multinacionais existentes no mundo.
 
O mercado de derivativos financeiros (aquele que provocou a “marolinha” de 2008, fazendo sucumbir a Aracruz Celulose e a Sadia) soma 555 trilhões de dólares, cinco vezes mais do que o valor da produção mundial de um ano.
 
Os bancos e seus satélites não produzem, especulam. Declarando-se iluminados pela luz própria que orna os vitoriosos, navegam titanicamente no escuro. Até quando?  
 
Nesse circuito diabólico, já não se sabe mais quem é lenha, quem é brasa, quem é chama, quem é fumaça e quem é cinza.
 
A economia crepita na pira capitalista que consome almas, corpos e matérias-primas.
 
O capitalismo tal como vem funcionando pode ser comparado a uma fornalha acesa, a uma caldeira fumegante e, no limite da sobrevivência, a uma bomba atômica engatilhada nas mãos de quadrilhas fora de controle. Isso vale para os EUA, a Coréia do Norte e até para o Brasil, que há um ano caiu nas mãos de uma gangue disposta a escorraçar os pobres das benesses da civilização.  Como dizia o jornalista mineiro Geraldo Mayrink, “não há limites para a insânia”.   
 
Diante disso, o que fazer?  
 
É bastante simples: se a administração da economia pelo Estado deixa a desejar e a gestão capitalista-mercantil não consegue distribuir de forma equânime tudo o que se produz, só resta construir uma forma de governo com foco na solidariedade.
 
Pode-se denominá-la coletivista, comunista, cooperativa, socialista ou o que seja. Desde que se preservem os direitos inerentes à democracia, é fundamental erradicar os aspectos nefastos do individualismo.
 
O que importa é que a nova forma de gestão tenha os selos da generosidade e da misericórdia.   
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Para um homem pobre, a oportunidade de trabalho é a maior de todas as necessidades, e até um emprego mal remunerado e relativamente improdutivo é melhor do que a ociosidade.”
 
E. F. Schumacher (1911-1977), economista inglês autor do livro “Small is Beautiful”, editado no Brasil como “O Negócio é Ser Pequeno”

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