Seculo


  • Lava Jato no ES

 

Livres, leves e soltos


15/05/2017 às 23:27
No Espírito Santo, as delações dos ex-executivos da Odebrecht atingiram em cheio o atual e o ex-governador do Estado. Paulo Hartung (PMDB) e Renato Casagrande (PSB) foram acusados de envolvimento no esquema de “caixa 2” da empreiteira. De quebra, lideranças de relevo da política capixaba também foram arrebatadas pela lista de doações ilegais da Odebrecht. Destaques para o senador Ricardo Ferraço (PSDB) e o prefeito de Vitória Luciano Rezende (PPS). 
 
Abalados pelo impacto das denúncias, a reação dos delatados foi praticamente uníssona: negar, negar e negar. Hartung chegou a dizer que a delação de Benedicto Júnior (BJ), que o acusou de receber R$ 1 milhão no esquema de “caixa 2” da empreiteira, era “delirante e mentirosa”. E acrescentou: “Essa delação não fica de pé”. 
 
E não deve “ficar de pé” mesmo, como antecipou o governador. Não em razão da denúncia ser “delirante e mentirosa”, mas pela certeza de que sairá impune. O caso de Hartung está sendo examinado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que irá se manifestar sobre as acusações de BJ. Portanto, parece muito cedo para tirar o corpo fora. Mas quem liga pra isso?
 
Boa parte dos delatados também aposta na impunidade. Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, publicado nesse domingo (14), tentou ouvir, ao longo da última semana, 84 deputados e senadores investigados no âmbito da Lava Jato. O jornal perguntou se eles temiam ser alvo de processo de cassação. Dos 84, 54 que aceitaram responder a pergunta afirmaram que não serão cassados. A Folha também perguntou se os investigados tentariam a reeleição ou algum outro cargo. Dos 84, 60 responderam, e 50 afirmaram que vão disputar a reeleição ou outro cargo. 
 
Como o levantamento foi feito no Congresso, apenas o senador Ricardo Ferraço foi inquirido pela reportagem. O tucano respondeu que não temia ser cassado e que disputaria a reeleição. 
 
Se o mesmo levantamento feito no Congresso fosse estendido aos políticos do Espírito Santo que apareceram nas delações ou na lista de beneficiários de “caixa 2” da Odebrecht o resultado seria muito semelhante. 
 
A desenvoltura com que os principais denunciados têm encarado as ruas dispensa a necessidade de um levantamento para comprovar que eles apostam na impunidade. Assim como Ricardo Ferraço, Luciano Rezende, Casagrande e outros políticos têm levado suas vidas normalmente. Ninguém tem demonstrado receio em mostrar a cara em locais públicos e correr o risco de ser hostilizado por um cidadão mais indignado. 
 
Para a liderança mais importante do Estado, a delação já é página virada. O governador Paulo Hartung encerrou seu “retiro estratégico” no último dia 4, quando experimentou testar sua popularidade em um evento público em Águia Branca, noroeste do Estado.
 
Depois da receptividade positiva dos aguiabranquenses, Hartung sentiu-se seguro para intensificar suas aparições públicas. Na última sexta-feira (12), um mês depois da primeira notícia sobre seu envolvimento no esquema da Odebrecht, o governador teve a audácia de participar de um evento na Secretaria de Controle e Transparência para falar justamente sobre controle interno dos gastos públicos, a prevenção e o combate à corrupção. 
 
Hartung, que está sendo investigado por crime de “caixa 2”, falou com a naturalidade do mais probo dos homens. Tocar sem cerimônia no assunto corrupção quando se está sendo investigado pela Justiça é uma estratégia do governador para mostrar que as acusações que o envolvem no esquema de “caixa 2” são despropositadas. 
 
A obrigação do governador, porém, se ele se considera acima de qualquer suspeita, seria explicar à população capixaba, independente do desdobramento da denúncia na Justiça, o teor da delação de Benedicto Júnior que o acusa de ter recebido R$ 1 milhão via “caixa 2” da empreiteira. 
 
Paulo Hartung não foi inquirido pela reportagem da Folha, mas se fosse também diria que tem certeza que está imune à cassação e que também se sente livre, leve solto para disputar a reeleição ou qualquer outro cargo eletivo de seu interesse. 
 
A complacência da sociedade, ou de parte dela, é a maior aliada dos suspeitos de envolvimento no esquema da Odebrecht. Ninguém está defendendo aqui o “julgamento” prévio dos investigados sem o devido processo legal. Mas também não se pode concordar que essa mesma sociedade faça a “remissão sumária” dos suspeitos como se nada tivesse acontecido. Muita coisa precisa ser explicada, mas parece que ninguém está preocupado com isso.

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