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A saúde que mata


16/05/2017 às 23:53
Quando deu início ao seu terceiro mandato, o governador Paulo Hartung (PMDB) afirmou, de boca cheia, ao anunciar sua nova equipe, que tinha um “craque” no time. Hartung disse que Ricardo de Oliveira era o seu “Neymar”, que seria capaz de dar um jeito na Saúde. O governador garantiu que o problema da Saúde não era falta de recursos, mas de gestão. 
 
Passados mais de dois anos, o único Ricardo Oliveira (esse sem o “de”) que pode ser chamado de craque é o centroavante do Santos. O Ricardo de Oliveira de Hartung tem se mostrado um tremendo “perna de pau” na gestão da saúde estadual, que a cada dia está mais caótica. 
 
Nas últimas semanas, a imprensa tem noticiado casos flagrantes que evidenciam o descaso na saúde pública. As imagens exibidas há uma semana pela TV Gazeta do setor de oncologia do Hospital Infantil de Vitória chocaram muita gente. Em visita ao hospital, no início deste mês, a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, Teresa Cristina Fonseca, resumiu a situação do setor numa palavra: "calamidade".
 
A “calamidade” constatada pela especialista não é uma exclusividade do Infantil, mas praticamente de toda a rede pública. No Hospital Infantil faltam leitos e as crianças são submetidas a tratamentos quimioterápicos em locais inadequados, que além de desconfortáveis, expõem os pacientes a infecções e reduzem as chances de cura.
 
Quando Hartung disse que Ricardo de Oliveira era um “craque em gestão”, ele se referia à capacidade do secretário de segurar os gastos com mão de ferro. O que importa para Hartung são os números, e disso ele não pode se queixar. Oliveira tem enfrentando os secretários municipais de saúde que reclamam da falta de apoio do Estado como um leão. Ele tem se recusado a acolher pacientes que precisam de recurso especializado, como internação em UTI, atendimento que não pode ser suprido pela rede municipal.
 
No início de abril, o secretário de Saúde de Vila Velha, Jarbas de Assis, sentiu o desamparo do Estado na pele. Ele travou um embate, via imprensa, com o Ricardo de Oliveira. Com o PA da Glória superlotado, Assis se queixara que a Sesa estava se recusando a receber crianças que necessitavam de cuidados especializados na rede estadual. Oliveira reagiu mal, classificando as queixas de Assis como “irresponsáveis” e “demagógicas”, insinuando que o secretário de Vila Velha estaria querendo criar fatos políticos e ainda disse que a má gestão era do município. 
 
Assis, que é médico, diferentemente de Ricardo, que é engenheiro, estava preocupado com a vida dos pacientes, que dependiam de atendimento especializado. A “carta-desabafo” denunciando o problema foi uma forma do secretário municipal documentar a intransigência da Sesa, que punha a vida dos pacientes em risco. 
 
Nessa segunda-feira (15), o temor de Jarbas Assis se confirmou, mas em outro PA, o da Enseada do Suá, na vizinha Vitória. Kamila Maria Loureiro, de apenas 29 anos, morreu na madrugada dessa segunda-feira (15), à espera de uma vaga de UTI. 
 
O caso da jovem vendedora infelizmente tem sido recorrente. É o drama diário daqueles que dependem da saúde pública para viver ou morrer. Kamila fez o périplo que muitos pacientes fazem todos os dias. Recorreu ao Pronto Atendimento, recebeu o atendimento básico e, pela gravidade do caso, ficou aguardando, registre-se, em péssimas condições, uma vaga na UTI. 
 
A partir desse momento começa a roleta-russa da saúde. O paciente e a família ficam nas mãos da Central de Regulação de Vagas da Sesa, esperando ansiosos uma vaga que muitas vezes chega, quando chega, tarde demais. 
 
Foi o caso de Kamila, que não resistiu à espera. Quando a vaga surgiu, a jovem mãe de uma menina de quatro anos já havia partido. 
 
Em meio a mais uma tragédia na colapsada saúde pública, a família procura agora os culpados pela morte prematura de Kamila. No “jogo de empurra” entre as secretarias estadual e municipal, que já começou, os gestores vão brigar agora para se safar das responsabilidades. 
 
Mas quando se empenha a vida das pessoas no giro aleatório do tambor do revólver, nesse macabro jogo de roleta-russa, no qual se transformou a saúde pública deste Estado, a responsabilidade pela bala que para inclemente na agulha, de alguma maneira, é de todos nós. Afinal, somos nós que escolhemos aqueles que nos representam no Poder Público.

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