Seculo

 

Le voyage secret de 'Baianinho'


24/05/2017 às 23:58
Quando decidiu disputar o governo do Espírito Santo pela terceira vez, Paulo Hartung (PMDB) tinha plena consciência de que, caso vencesse, voltaria a ser a liderança política mais importante do Estado. Se a posição de chefe do Executivo é sinônimo de poder e prestígio, traz também os inconvenientes inerentes à função de homem público, como a exposição excessiva, para o bem e para o mal. Quem quer levar uma vida reservada ou quase “secreta”, especialmente nos dias de hoje, sob o controle inclemente das redes sociais, não deve nem pensar em ingressar na política. 
 
Há uma semana (16/05), quando passou o comando do Estado para o vice-governador César Colnago (PSDB), a imprensa entendeu que Hartung estava entrando em licença médica para dar prosseguimento ao tratamento complementar à cirurgia à qual foi submetido no início de fevereiro, em São Paulo, para extirpar um câncer na bexiga. 
 
Esse entendimento era quase unânime para a imprensa capixaba. Tanto que o portal G1, por exemplo, publicou na terça-feira (16) que o governador havia tirado “licença médica”. Dois dias depois, na quinta-feira (18), fez uma errata para corrigir a notícia. Informou que o governador não se afastara por motivo de “licença médica”, e sim por “recomendação” médica para descansar e se preparar para a sequência do tratamento. 
 
A errata foi necessária porque naquela mesma quinta-feira, a coluna Victor Hugo, do jornal A Gazeta, informara que um leitor da coluna vira Paulo Hartung e sua mulher, Cristina, na  terça-feira (16), no voo da Latam JJ 8108 de Guarulhos (SP) com destino a Paris. A mesma coluna inquiriu a superintendente estadual de Comunicação, Andréia Lopes, sobre a viagem. Lacônica, ela nem confirmou, nem desmentiu a informação.
 
Ora, esse enredo deixou claro que o governador esperava viajar para Paris com a primeira-dama sem ser notado. O “furo” da coluna Victor Hugo, porém, quebrou o sigilo da viagem. Mesmo assim, a orientação do governador para a assessoria foi manter a dúvida no ar, mas já se precavendo para deixar claro que não se tratava de “licença médica” e sim “recomendação” médica. Mesmo porque, ninguém se afasta do trabalho por imposição médica para fazer turismo. A “recomendação” abria margem para Hartung aproveitar o descanso sugerido como bem entendesse. 
 
O que Hartung não contava, porém, é que um “paparazzi anônimo” o flagrasse flanando pelas ruas da Cidade Luz. Uma probabilidade remotíssima, mas que acabou pegando Hartung de surpresa. Só na parte intramuros de Paris, a mais badalada pelos turistas, há mais de 2,3 milhões de habitantes. Sem contar os visitantes, que praticamente dobram a população parisiense. 
 
O inverossímil aconteceu. Alguém, não se sabe como, achou Hartung em Paris. A foto, imediatamente, desde a noite de segunda-feira (23), viralizou nas redes sociais. Os memes foram inevitáveis. 
 
A repercussão da imagem circulando nas redes sociais e virando notícia nos jornais obrigou a assessoria do governador a trabalhar duro novamente. Uma nota do Palácio Anchieta avisava: “Hartung reassume nesta quinta (25)”. O texto é aberto com a seguinte frase: “Após tirar oito dias de férias , o governador licenciado Paulo Hartung reassume, nesta quinta-feira (25), o comando do Poder Executivo Estadual. Na próxima sexta-feira (26), ele será internado no hospital Meridional para iniciar a aplicação de BCG, que faz parte da imunoterapia após a cirurgia a que foi submetido para retirada de um câncer na bexiga”. 
 
Com o flagrante, que tornou o passeio a Paris público, a estratégia mudou. A assessoria passou a dar conotação de férias ao período de afastamento e, ao mesmo tempo, para prevenir críticas, reforçou que a condição de saúde do governador ainda requer cuidados e o tratamento será retomado no Espírito Santo. Aproveitaram também para traçar todo o histórico da doença em detalhes, para deixar claro que o governador, está bem, mas luta contra o seu segundo câncer.
 
À medida que a nota avança, as justificativas ganham conotação de culpa prévia. Num trecho, o texto enfatiza: “ Hartung viajou de férias para o exterior nos últimos dias com a família e com recursos próprios”. Havia uma preocupação flagrante de admitir que ele foi mesmo para o exterior e que os gastos com a viagem foram bancados com recursos próprios. Na nota enviada ao portal Gazeta Online, a assessoria foi além, chegou a justificar que a viagem era um direito legítimo. “Como todo trabalhador, ele tem direito a férias. Qualquer outra informação é maldosa e só tem o objetivo de confundir as pessoas”.
 
Mas por que toda essa preocupação para tentar convencer a opinião pública de que a viagem foi legítima? Ora, a resposta é fácil. O governador não queria encarar o núcleo de oposição da Assembleia, especialmente o deputado Sérgio Majeski (PSDB), que prometia “encostar” Hartung na parede, cobrando explicações sobre o não investimento do mínimo constitucional destinada à Educação e, de quebra, poderia cutucar “Baianinho” sobre a delação de Benedicto Júnior,  que revelou ter passado R$ 1 milhão via “caixa 2” ao peemedebista. 
 
Ele não queria, porém, que seu afastamento fosse associada a uma viagem de turismo a Paris. Deixar de cumprir seu dever constitucional de prestar contas para passear pela Europa não pegaria muito bem, além de demonstrar fraqueza política. Era sabido que Hartung se sentia politicamente vulnerável para suportar a pressão de três ou quatro deputados dispostos a apertá-lo na Assembleia. Por isso, era mais cômodo por a doença na frente como justificativa inquestionável para se ausentar da prestação de contas. Ninguém questiona quando o caso é de saúde. 
 
O plano falhou, primeiro, com a vazamento da viagem e, em seguida, com a foto irrefutável que comprova o passeio a Paris. Em pensar que toda essa estratégia desastrosa foi montado para livrar Hartung de um encontro infortúnio com o líder da oposição. Não seria mais sensato Hartung encarar a prestação de contas e depois gozar suas férias onde e como bem entendesse? Fosse assim, tudo aberto, transparente, poderia convidar até o paparazzi para uma simpática selfie usando Paris como cenário.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Fazendo escola

Temer em Brasília, Hartung e Luciano Rezende no Espírito Santo: retaliações a quem anda “fora da linha” nunca estiveram tão na moda como agora

OPINIÃO
Editorial
Em causa própria
Promotor Marcelo Zenkner usa cargo público para promover projeto pessoal
Piero Ruschi
Festa de fachada
Comemoração da Sambio evidencia que o Museu Mello Leitão segue precisando de verdadeiros amigos
Renata Oliveira
Pela emoção
Magno Malta sempre tem uma carta na manga para a disputa eleitoral. Mas desta vez o cenário é diferente
JR Mignone
O repórter e a polícia
A vítima não foi repórter, foi a professora
Caetano Roque
Inversão de papéis
O movimento sindical foi dar uma de direita e agora perdeu o caminho da rua
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Sizino, o pioneiro
Panorama Atual

Roberto Junquilho

O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

O tempo entre as vírgulas
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Promotor com trabalho atrasado está prestes a ser premiado para passar um ano nos Estados Unidos

Grupo de Luciano tenta sufocar oposição com corte de cargos

Fazendo escola

PP classifica como 'desproporcional' críticas de vereador contra Hartung

Hartung e Casagrande seguem disputando espaço no interior