Seculo

 

A saúde está doente


25/05/2017 às 23:56
O Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes) decidiu radicalizar. Uma campanha, no mínimo polêmica, alerta os médicos sobre os riscos de trabalhar na Serra. “A Serra tem o maior número de violência contra médicos do Estado. O Simes não recomenda que médicos trabalhem na Serra”. 

A campanha exibe a imagem de um médico, apavorado, sendo rendido por um bandido; outra imagem supõe um paciente enfurecido quebrando um vidro e ameaçando o médico. No texto, o sindicato faz ataques à gestão do prefeito Audifax Barcelos (Rede). “A Prefeitura da Serra assume e atesta sua incompetência em todos os níveis que se possa imaginar em termos de gestão pública”. Em seguida, o Simes apresenta números sobre os casos de violência registrados entre janeiro e abril deste ano nas unidades de saúde. “A unidade de saúde de Novo Horizonte já sofreu mais de 15 invasões, com furtos e arrombamentos registrados. Agressões a médicos também foram registradas na unidade”.
 
Mas os médicos, segundo o Simes, não são vítimas apenas da bandidagem, eles se queixam também dos xingamentos e agressões físicas que sofrem dos próprios pacientes e de seus familiares. Alguns médicos falam até em ameaça de morte. 
 
O Simes admite que a violência ocorre em todos os municípios da Grande Vitória, mas destaca a Serra como um caso excepcional. “O Sindicato dos Médicos do Espírito Santo considera o município impróprio para o trabalho médico e sugere que os médicos não prestem serviço através do município. Não existe segurança para o servidor público na Serra”, alerta o sindicato. 
 
Se os médicos seguirem a recomendação do sindicato, e a própria Secretaria de Saúde do município admite que a rotatividade tem sido grande, a tendência é que a situação se agrave para a população, que já sofre com a precarização do atendimento no município mais populoso do Estado. 
 
Mesmos com os quadros completos, o atendimento na rede pública de saúde já é caótico: a oferta do serviço é sempre aquém da demanda - uma realidade da saúde pública. Os problemas são os mesmos: superlotação, longas esperas, funcionários estressados e pacientes e familiares revoltados com a péssima qualidade do atendimento. 
 
Essa combinação explosiva tende a piorar caso os médicos sigam a recomendação do Simes. O sindicato sugeriu o “abandono do emprego” como uma “solução” para proteger seus associados, mas não disse como ficam os moradores da Serra que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). E os paciente? Devem adoecer resignados esperando a morte chegar?
 
Ora, o Simes está vendo apenas o lado dos médicos, usando a campanha para encostar o prefeito contra a parede. É preciso esclarecer que esse “boicote” ao município não passa apenas pela violência da bandidagem ou de pacientes enfurecidos que não toleram mais um sistema de saúde caótico. 
 
Por trás do “desabado” do Simes há uma reivindicação financeira. O sindicato se “rebelou” com o projeto de lei do prefeito Audifax, aprovado pela Câmara, que reduz a remuneração para médicos. O mesmo texto que critica a falta de segurança, também registra o descontentamento com os salários. “Recentemente, o prefeito Audifax aprovou, junto à sua Câmara de Vereadores, uma lei que corta os salários de seus funcionários públicos”. É notório que a violência é uma realidade não só na Serra mas em todos os municípios da Grande Vitória, mas a redução dos salários tem um peso muito grande nesse descontentamento. Fica a sensação de que o Simes também usa a violência para pressionar a prefeitura e recuperar as perdas impostas pela nova lei. 
 
A pauta trabalhista de luta é uma reivindicação legítima de todas as categorias. O sindicato deve ponderar, porém, que o profissional da saúde trabalha como uma população vulnerável, que depende exclusivamente do serviço público. É injusto usar essa sofrida população como “moeda de negociação”. Chega a ser covarde fazer campanha para que seus associados abandonem seus postos de trabalho e deixem a população entregue ao deus-dará.

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