Seculo

 

A ladainha da 'casa arrumada'


29/05/2017 às 22:47
Para Paulo Hartung (PMDB), a delação do ex-executivo da Odebrecht, Benedicto Júnior (BJ), que o envolve no esquema da empreiteira, já é um episódio mais do que superado. Como se o governador não tivesse mais nada a explicar sobre o repasse de R$ 1 milhão que teria recebido ilicitamente da empresa. Só para refrescar as memórias, Hartung está sendo investigado e seu caso está nas mãos do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
 
Mas, na prática, Hartung tem tratado a denúncia como se tudo não passasse de um terrível equívoco. O tal do BJ parece que não tinha boas histórias a oferecer à Procuradoria e, por acaso, se lembrou de um tal governador do Espírito Santo e resolveu envolvê-lo num esquema milionário de “caixa 2”. 
 
Na palestra que fez a empresários nesta segunda-feira (29), "Apex Meeting 2017", em um hotel de Vitória, o governador adotou um discurso para lá de otimista. O tempo todo, Hartung tentou demonstrar que o momento era de superação, de dar a volta por cima, e queria fazer isso contando com a ajuda dos empresários.
 
Fazendo-se de rogado, ele procurou relativizar a crise política aguda que fende a cada dia o chão sob os pés do presidente Temer. Hartung deixou claro que pertence ao grupo que defende a reforma a todo custo, mesmo que para isso Temer tenha que ser mantido na Presidência, mesmo com todas as evidências já apresentadas pelos irmãos Joesley e Wesley, da JBS. "No atual cenário nacional minha preocupação não é com pessoas [no caso, Temer] ou partido [o PMDB, seu partido e o do presidente], mas saber se vamos ter capacidade de tocar a agenda reformista que o país precisa”. Aliás, esse é um raciocínio pragmático que também se encaixa muito bem no caso do governador. O recado subliminar para o empresariado seria mais ou menos assim: “É melhor me apoiar incondicionalmente para que eu possa empreender as reformas de que vocês precisam ou vai tudo para o brejo”.
 
No embalo “bola pra frente”, ele também voltou a exaltar sua política de austeridade como um caso de sucesso a ser seguido pelo País. Havia tempo que Hartung não falava com tanto entusiasmo sobre o “milagre econômico capixaba”. Tentou transmitir aos empresários que o Espírito Santo tem a fórmula que deu certo para superar a crise. A fala positiva tenta convencer os empresários que a delação da Odebrecht não arranhou seus méritos de gestor. “Quero prescrever para todos o exercício de liderança responsável e compartilhada”. Em seguida, exagerou na dose de presunção ao alçar o Estado como exemplo perfeito de gestão fiscal. “Se conseguirmos fazer isso, o país vai para frente e existe uma unidade federada que sairá ainda mais na frente e será o Espírito Santo". Quanta modéstia!
 
O discurso ufanista de Hartung deve ter constrangido até mesmo o mais otimista dos empresários. "Em plena crise estamos com a casa organizada, sem dívidas, resolvendo problemas de infraestrutura, o que traz competitividade”. E acrescentou: “Em pleno momento difícil estamos avançando. A intercorrência é fiscal, mas estamos avançando", disse.
 
A 17 meses de encerrar seu terceiro mandato, Hartung tenta apagar o fato de ser hoje um dos nove governadores denunciados no esquema da Odebrecht. Ele também procura ignorar a baixa popularidade que amarga nas ruas, devido às denúncias que o jogaram na vala comum da corrupção. 
 
A estratégia é jogar a parte “suja” para debaixo do tapete e enaltecer que, para todos os efeitos, a “casa está arrumada”. 

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Comentários

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Com um olho em 2018 e outro em 2020, Luciano Rezende antecipou o processo eleitoral, mas esqueceu a Lava Jato. Aí mora o problema.

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Renata Oliveira
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O ajuste fiscal de Paulo Hartung precisa do exemplo do Rio de Janeiro tanto para cortar quanto para supervalorizar a liberação de recursos
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