Seculo

 

Fim de feira


01/06/2017 às 21:12
Em uma de suas últimas entrevistas antes de trocar o IBGE pelo BNDES, dias atrás, o economista Paulo Rabello de Castro, uma das grandes cabeças pensantes do Brasil, com assento antigo na Fundação Getúlio Vargas, no Rio, disse que a economia brasileira não melhorou, ao contrário do que andou espalhando o ministro da Fazenda Henrique Meirelles em seu afã de “agradar o Mercado”.   
 
Como sabe qualquer vivente, a economia não dá saltos. No mundo dos negócios há ciclos de alta e baixa, assim como as pessoas passam por períodos de bom e mau humor, o que afeta o índice de energia vital, a disposição para consumir, a vontade de produzir etc.
 
A natureza tem seus ciclos, frio e calor, chuva e seca.
 
A agricultura: safra e entressafra.
 
Até times de futebol passam por isso.  Mesmo clubes grandes são obrigados a passar uma temporada na série B para um ajuste nas suas crenças e capacitações.
 
Agora lembremos os fatores que determinaram ou influenciaram a recessão econômica vigente no Brasil nos últimos três anos. Primeiro e mais importante: o colapso financeiro de 2008 que afetou inicialmente os EUA e a Europa, gerando impactos que foram se propagando de país para país.
 
No Brasil, o impacto começou em 2011, mas o governo tomou medidas anticíclicas para atenuar ou retardar o revés.
 
Nas eleições de 2014, o desemprego já estava cortando vagas, mas o governo manteve as desonerações fiscais para setores-chave como a indústria automobilística. De certa forma as medidas anticíclicas deram uma freada no desenlace.
 
O consumo se manteve em alta, gerando inflação de demanda e, também, inflação de custos – o índice chegou a dois dígitos.
 
Além disso, em nome do aquecimento da economia e da manutenção dos níveis de emprego, o primeiro governo Dilma manteve os investimentos em petróleo, usinas hidrelétricas, ferrovias, rodovias e no setor habitacional, sem, entretanto, reduzir o pagamento de amortizações e juros da dívida pública, que constitui o grande sumidouro de recursos – mais de 10% do PIB. Se tivesse ousado dar um corte aí, mediante uma renegociação dos débitos ou uma auditoria como propõe a ex-auditora fiscal Maria Lucia Fatorelli, o revés não seria tão grande. No entanto, foram garantidos os ganhos dos bancos, rentistas e “investidores” em títulos do Tesouro.    
 
Com a recessão dos últimos 30 meses, a inflação recupou para 4% ao ano, o que significa que o dinheiro sofre uma desvalorização de 0,3% ao mês ou 1% por trimestre. Se o governo paga aos bancos e seus credores do mercado financeiro uma taxa de 10% a 11% ao ano, podemos ver que os “investidores” estão tendo um ganho de 7% ao ano. De graça. Sem esforço nenhum. Sem risco. Dolce far niente.
 
Outra coisa que teve influência na crise foi a redução do crescimento econômico da China, que deu uma cortada nas importações, provocando uma queda nas cotações de commodities agrícolas e minerais, ou seja, minério de ferro, soja e carnes – trio dominante das exportações brasileiras. Ainda assim, o setor agrícola brasileiro continua produzindo bem (este ano, safra recorde) e exportando bastante, a ponto de gerar excedentes de divisas cambiais.
 
Voltando ao Paulo Rabello de Castro, pena que somente agora ele tenha chegado ao comando do BNDES, o banco que mais fomenta o desenvolvimento da economia brasileira. Infelizmente, Rabello é o homem certo no governo errado. Com o fim do mandato-tampão de Michel Temer, vai ser obrigado a voltar a dar aulas. Ou a escrever livros.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Nós temos que encontrar uma maneira de começar a destravar essas três coisas: o excesso de tributos e burocracia, o custo financeiro elevadíssimo e uma falta de infraestrutura crônica. Esse é o desafio. O Brasil é dos poucos países que podem surpreender extraordinariamente a si mesmo e ao mundo.”
 
Paulo Rabello de Castro em entrevista ao jornal El Pais  

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Fazendo escola

Temer em Brasília, Hartung e Luciano Rezende no Espírito Santo: retaliações a quem anda “fora da linha” nunca estiveram tão na moda como agora

OPINIÃO
Editorial
Em causa própria
Promotor Marcelo Zenkner usa cargo público para promover projeto pessoal
Piero Ruschi
Festa de fachada
Comemoração da Sambio evidencia que o Museu Mello Leitão segue precisando de verdadeiros amigos
Renata Oliveira
Pela emoção
Magno Malta sempre tem uma carta na manga para a disputa eleitoral. Mas desta vez o cenário é diferente
JR Mignone
O repórter e a polícia
A vítima não foi repórter, foi a professora
Caetano Roque
Inversão de papéis
O movimento sindical foi dar uma de direita e agora perdeu o caminho da rua
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Sizino, o pioneiro
Panorama Atual

Roberto Junquilho

O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

O tempo entre as vírgulas
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Família busca indenização por morte de jovem em unidade prisional

Grupo de Luciano tenta sufocar oposição com corte de cargos

PP classifica como 'desproporcional' críticas de vereador contra Hartung

Hartung e Casagrande seguem disputando espaço no interior

Fazendo escola