Seculo

 

Breviário da roubalheira


09/06/2017 às 18:49
Paraibano de Catolé da Rocha, com parentesco com os Maia da Paraíba, o ministro Herman Benjamin brilhou no TSE como relator da ação de impugnação da chapa Dilma-Temer nas eleições presidenciais de 2014. Restou provado, como soem dizer os causídicos, que houve abuso de poder econômico, especialmente com recursos da Construtora Odebrecht, a principal empreiteira contratada pela Petrobras.
 
A pergunta que não quer calar: onde não houve abuso de poder econômico em alguma eleição na história deste país? Qual estatal não caiu na rede de corrupção manejada por fornecedores? Qual político não contou com dinheiro de caixa dois?
 
Sim, podemos dizer que foi enfim desvendado um dos esquemas mais comuns da vida política brasileira. Ninguém deveria se espantar ao saber que a multinacional baiana Odebrecht distribuía dinheiro a todos os políticos que podiam lhe prestar ajuda nos meandros do poder. Não deu só para a chapa Dilma-Temer, mas para as outras, especialmente para a liderada por Aecio Neves.
 
Enfim, quanto mais alto o cargo, maior o volume de dinheiro.
 
É claro que um ou outro receptor de dinheiro desviou uma parte para si mesmo, colocando-a num paraíso fiscal ou comprando imóveis. As  mulheres dos cariocas Cabral e Cunha fizeram farras em lojas de Paris. Mas não há dúvida de que o grosso desse dinheiro sujo foi usado para pagar serviços a assessores, consultores, portadores de bandeiras em esquinas democráticas, redatores, cinegrafistas, fotógrafos, motoristas, secretárias, scort girls, cabos eleitorais e até eleitores sequiosos de presentinhos eleitorais.
 
Esse é um jogo conhecido por qualquer brasileiro. Todo mundo tem um conhecido que ganhou algum numa campanha política. Os marqueteiros-chefes manipulam milhares, milhões de reais, ficando em condições de comprar sítios, carros e depositar dinheiro no exterior. Um bom redator de campanha ganha em quatro meses mais do que um editor de revista num ano de serviço. Um fotógrafo diligente fica em condições de comprar um carro novo à vista no final da temporada eleitoral. A verdade é que ele trabalha intensamente naquele período de correria eleitoral.
 
Mas numa campanha política a verdade é multifacetada. Uma modalidade de patrocínio em Ribeirão Preto era o franqueamento do bar da Cervejaria Antarctica aos amigos do candidato apoiado pelo presidente Bob Gusman. Mas era na empresa, não no comitê de campanha. Jogada simpática nas altas esferas do poder.
 
Enquanto isso, nas baixas esferas, a senhora que faz o café e cuida da faxina num comitê de campanha recebe promessas milionárias e depois fica penando meses para receber o que lhe devem.
 
Dinheiro de campanha escoa pelo ralo. Acumulam-se dívidas. As maiores envolvem cifras milionárias e interesses majoritários. Nesse aspecto e nesse sentido, o relatório do ministro Herman Benjamin ao egrégio e colendo e superior tribunal eleitoral é uma peça histórica, um breviário da roubalheira em nome da democracia em anos eleitorais.
 
Nos outros anos e em outros campos da pugna empresarial e política, nada consta nos autos.  
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“O governo mudou, mas eu não mudo. Fico com o governo”
 
Manuel Inacio, coronel do sertão pernambucano (in Faoro, Raymundo, “Os Donos do Poder”

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