Seculo

 

Ecomemória: lembranças da destruição ambiental no ES


28/06/2017 às 13:25
Nunca fui chegado em jogos, nem quando menino. Mas guardo em casa um jogo da memória bastante curioso: trata-se do Ecomemória, um jogo divertido para todas as idades desenvolvido pelo próprio Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, em que os cartões possuem fotos de animais e plantas da Mata Atlântica com informações biológicas. 
 
Brincar de memorizar com aqueles cartões repletos de imagens e conhecimento é bem legal. Mas o que mais chama a minha atenção no Ecomemória é que ele me traz memórias sobre a verdadeira destruição da Mata Atlântica capixaba. 
 
Acontece que, na capa desse jogo, estão lado a lado os nomes do Museu Mello Leitão e da indústria Aracruz Celulose - uma atroz incoerência lógica. Isso porque as denúncias mais ferrenhas de devastação do Estado se referem exatamente ao histórico desmatamento para plantio de eucaliptais, que fazem parte de extensas publicações do boletim do Museu Mello Leitão, ou seja, é inquestionável o fato de que Augusto Ruschi jamais associaria o Museu Mello Leitão a uma das indústrias que mais destruiu o meio ambiente capixaba.
 
Outro fato “curioso” do jogo é a percepção de que ele relembra exuberâncias da natureza, muitas delas raras, ao passo que foi financiado por uma indústria que tanto destruiu inescrupulosamente aquela mesma exuberância.
 
É óbvio que empresas podem e devem empenhar fundos para conservação e educação ambiental...mas a incoerência do caso acima vai além da contraditória associação do Museu criado por Augusto Ruschi com uma das indústrias opressoras do meio ambiente mais ojerizadas pelo Patrono da Ecologia no Brasil. 
 
Ela se deve também à distorcida regra “dois pesos duas medidas”, tão comumente aplicada em casos de danos ambientais. Por exemplo: no caso do Ecomemória, o jogador descobre a riqueza das florestas, valorizando seu conceito ambiental, o que pode refletir em conservação. Mas quanto à empresa Aracruz Celulose, será que ela mesma aplicou esse conceito? E quanto aos moradores das regiões capixabas onde não mais existem matas nativas, eles vão conservar pardal pensando em araponga? Não seria mais conveniente financiar a criação de parques naturais municipais com plantio de espécies nativas, para que esses moradores pudessem usufruir de ambientes ecológicos através da prática da conservação?
 
Hoje, empresas conhecidas por gerar grande impacto ambiental, como a Aracruz Celulose e a Vale, possuem reservas florestais administradas exemplarmente e que contribuem para conservação florestal no Estado. Porém, quando se trata de recuperar danos, as estatísticas despencam ao fundo do poço. Dois pesos duas medidas, uma matemática que infratores de crimes ambientais conhecem bem.
 
Mitigar sim, recuperar não.  
 
É justamente esse paradigma que todos esperamos superar no Espírito Santo. Será possível que nem mesmo o rompimento da barragem de Mariana, o maior desastre ambiental do Brasil, conseguirá quebrá-lo? No Espírito Santo a lavoura de eucalipto ganhou nome de floresta. O minério no ar adoece mais pessoas em Vitória que canários pelas minas do mundo afora. A moqueca capixaba já está sendo servida com camarões contaminados. Os peixes já morreram... o Rio Doce inteiro morreu! Até a afetividade das famílias está sendo contaminada! 
 
Não é mais apenas pela natureza. É pelo povo também. Misericórdia ao Espírito Santo.

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