Seculo

 

Uma viagem muito além do fim do mundo


02/07/2017 às 13:45
Texto: Adilson Vilaça*
Fotos: Tadeu Bianconi
 
O mapa da viagem
 
Prata dos Baianos é desses lugares que a má vontade alheia costuma classificar de fim do mundo. No caso, grosseiro engano – porque ao menos na cartografia musical de Lamartine Babo a vila da Prata fica muito, muito além do fim do mundo. Mas o que poderia tê-lo levado a tal dedução? Se o compositor de Rancho Fundo jamais viajou até a vila da Prata, nunca assistiu ao festejo da Roubada da Bandeira e se tampouco pôde receber convite do Mestre João Miguel para a celebração do dia de São João mais especial que o povo da Prata já comemorou, como Lamartine descobriu que o chão da Prata morava no além-mapa? 
 
Bem, é óbvio que tal achado não brotou de uma conversa entre ele e o Mestre João Miguel. Menino apressado, Lamartine Babo despediu-se em 1963, ainda na beirada de completar 60 anos de idade, enquanto João Miguel Pereira de Sousa, o festeiro da Roubada da Bandeira, completou 100 anos neste São João de 2017. A animação em torno de seu aniversário carreou uma penca de violas, de pandeiros, de caixas, de sanfonas, de parentes e de amigos, mas também reuniu convidados de gerações muito antigas, uma gente que em sua companhia testemunhou o nascimento da ocupação daquela sesmaria de espaço-tempo do Noroeste capixaba.  
 
 
 
Mestre João Miguel viu a Prata dos Baianos nascer chaminé a chaminé, esparramando a ciranda de sua boa gente bem ali no encontro dos córregos Yúma e das Almas. De mãos dadas, as duas águas formam o Córrego da Prata e correm para adensar o curso do rio Dois de Setembro, que atravessa a cidade de Ecoporanga e serpeia até se perder no Braço Norte do Rio São Mateus. Porém é sempre adequado anotar que no território da Prata o curso das águas e dos dias sempre fluiu muito afastado da vida urbana, da existência de vida cortês que, por exemplo, Lamartine Babo tanto desfrutou.
 
João Miguel é típico homem do noroeste capixaba, enquanto Lalá foi carioca dos mais característicos, reconhecido por inúmeras canções de sucesso e por compor os hinos do Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo, além de prestigiar com suas letras vários times ditos pequenos, como Bangu, Olaria, Madureira ou São Cristóvão. Da outra margem do mesmo rio fandangueiro, lá na Prata o Mestre João Miguel é repentista de Calango-Dê, é par rodopiante na Dança dos Nove, é puxador de Quadrilha e é rei versejador do ritual da Roubada da Bandeira. De alguma forma, ambos, Lalá e João Miguel, são eternos brincantes do mesmo escrete cantador.
 
Entretanto, o bacharel em Direito Lamartine de Azeredo Babo nunca pôde assistir a uma partida do time da Prata, cuja arena estende o gramado na vizinhança da casa do Mestre João Miguel – um homem simples, com o pé fincado na roça. Por sua vez, em sua excursão ao interior capixaba, Lalá alcançou apenas mais ou menos a metade do caminho entre Vitória e a vila da Prata, apeando em São Domingos do Norte quando o lugar nem mesmo existia. Aliás, ele nem sequer partiu de Vitória, mas das cercanias de Santa Teresa, depois de se apresentar em show musical em Santa Leopoldina.
 
Bem pra lá do fim do mundo
 
Lamartine e seu violão chegaram aos pandarecos ao Rancho Fundo. Por lá, embora os peões acampados no local testemunhassem durante dias os gemidos do violão estirado na rede, as manchas de sangue que vazavam até o chão eram das feridas do traseiro do compositor. Sem talento para cavalgar tamanha distância, as nádegas do cavaleiro improvisado transformaram-se em chagas. Assim, com os tundás em carne viva, não podendo fazer companhia aos parceiros de caçada, aquele era o jeito de Lalá se recompor: rede e gemidos ao violão, até que sua alma se deixou contagiar por aquela imensa tristeza cabocla. Aquele fervor quase religioso que ele aprendeu com os sitiantes do Rancho Fundo, lá empregados para abrir a estrada de São Domingos do Norte a Colatina.
 
Nesse afã vagaroso, remoído, é que nasceram letra e canção de Rancho Fundo. Quem poderia adivinhar que de um modo assim ligeiro o rapaz tão citadino pudesse se deixar beliscar pelo espírito caipora? Ora, daí é fácil deduzir que Lamartine Babo nunca tratou de maneira pejorativa aquele entrecho de chão em meio ao nada ao situá-lo em limites “bem pra lá do fim do mundo”. Porque naquela ocasião Lamartine Babo vestiu a casaca e pegou vínculo de umbigo com os sentimentos regionais tal qual o Mestre João Miguel ou qualquer dos bons parceiros do festejo da Roubada da Bandeira. Lamartine deixou a encargo de a emoção roceira tanger o arranjo e a melodia que deram asas sonoras a seus versos, aqui cantarolados neste excerto:
 
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e saudade
Cantam coisas da cidade...
 
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as “mágua”
Tendo os olhos rasos d’água...
 
...
Sem um aceno
Ele pega da viola
E a lua por esmola
Vem pro quintal
Deste moreno...
 
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia...
 
...
Porque o moreno 
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade...
 
Ele que era
O cantor da primavera
E que fez do rancho fundo
O céu melhor
Que há no mundo...
 
A linha do fim do mundo
 
Embora fosse dia de São João, na saída de Vitória o patriarca São Pedro não contemporizou contra seu camarada de altar. Deixamos Vitória sob a ameaça de céu nublado e avançamos na alvorada reticente sempre escoltados por aguaceiros esparsos, até o limite entre Serra e Fundão. A pouco e pouco a raridade do inverno tropical chuvoso amanheceu uma cintilação intensa na vegetação e nos derradeiros picos da Serra do Mar. Agasalhados por sol aberto, alcançamos o rio Doce, atravessamos a segunda ponte de Colatina e, certamente, ali cruzávamos também o marco geográfico que nos separava do fim do mundo – ou seja, que separava o Espírito Santo colonizado do território dos botocudos. 
 
A ponte inaugurada em 1928 para domar a passagem do rio Doce marcou o reinício da conquista territorial interrompida pela resistência indígena. Por conseguinte, a obra do governo Florentino Avidos também assinalou o começo dos últimos dias de krenaks, pojichás, pojiruns, krakatans, aranás e outros povos acantonados na região agreste. Com o farnel desta reflexão, seguimos rememorando o rastro dos dias que se foram e logo adiante bifurcamos o percurso rumo ao coração do Noroeste capixaba. Rumo à primeira parada do roteiro, em São Domingos do Norte. 
 
 
Depois do rio Doce, que demarcou o norte e o noroeste capixabas como chão das últimas reservas da resistência nativa, uma guinada à esquerda freou brevemente a animada conversa dos viajantes para conceder ligeira atenção à trilha sonora da aventura, em audição tocada por orquestra da recordação sintonizada em Lamartine Babo. Chegávamos ao Rancho Fundo. A inequívoca bússola da reminiscência da expedição havia guiado nossa chegada a um sítio “bem pra lá do fim do mundo”.
 
Esta primeira parada da viagem foi defronte a uma capelinha de torre central pontiaguda, enfeitada com demãos de azul-celeste e frisos coloridos de intensa brancura. O diário da conversa de bordo anotou que estávamos no dito Rancho Fundo, em São Domingos do Norte, cuja povoação de origem nasceu somente no século 20, portanto cidade muito além do alcance do braço do governo provincial. Todavia o mapa do itinerário ainda esticava longo caminho à nossa frente, certamente o dobro do trajeto já percorrido até a saudação da bandeira na Prata dos Baianos, distrito de Ecoporanga.
 
“Meu pai, Ciro Medeiros, acampou aqui e deu nome ao lugar de Rancho Fundo”, relembrou o jornalista e fotógrafo Rogério Medeiros. “Ele partiu de Santa Teresa, cavalgou por 11 horas e se assentou neste local para dar início à empreitada de abrir uma estrada de São Domingos do Norte a Colatina”. Então a conversa entre mim e Rogério Medeiros, silenciosamente registrada pelo olhar do fotógrafo Tadeu Bianconi, estendeu-se ao simpático casal que agora toca o Rancho Fundo, uma parada de beira de estrada ornada de relíquias do passado campestre: máquinas, ferramentas e primorosas receitas da casa. Benjamin Zon, o proprietário, encantou-se com a novidade de saber que tão antiga composição de Lamartine Babo foi inspirada por aquele sítio. E ali dedilhada pela primeira vez.
 
Onde tudo começou
 
A cidade de Ecoporanga reteve nossa segunda parada programada. Ali, no dia 5 de maio, eu havia recebido o convite para cortejar os 100 anos do Mestre João Miguel. Foi na noite do lançamento de meu romance Carminda, quando a cidade que me deu a fantasia da infância se mobilizou para me acolher. “Olha, o vovô vai fazer 100 anos nesta Roubada da Bandeira. Por isso ele quer muito que o senhor esteja lá”, me intimou a professora Eliana Quintino de Oliveira. Daí a ajuntar a tripulação para a viagem foi um passo, aquele pequeno passo que desencadeou quilômetros de boa prosa triangular entre mim, Tadeu Bianconi e Rogério Medeiros.
 
Em Ecoporanga estava programado avigorar o combustível da expedição: depois de breve freada numa bomba de gasolina, fizemos o melhor reabastecimento na residência de dona Orlandina Ormezinda Silva, viúva do lendário Zé da Cruz. Assassinado em dezembro de 1960, Zé da Cruz (José Francisco da Fonseca) era candidato a prefeito com eleição quase assegurada. Ele era também a última linha de defesa contra o mau presságio que se cumpriu: a transformação daquelas cercanias em latifúndio, onde agora somente viceja o aboio ressequido da pecuária. 
 
 
A partir da casa de dona Orlandina, se aliaram às vozes da viagem as pontuações do casal Angélica Maria e Julmar Cruz da Fonseca, filho do Zé da Cruz. Tínhamos 23 quilômetros de Ecoporanga à Prata, para que tudo fosse palmo a palmo relembrado. Quase nada se perdeu na orquestração daquele quinteto de vozes afinadas com o noroeste: um casal nativo; Rogério Medeiros, que incursiona o olhar na região desde a década de 1950; eu, que por lá vivi a infância e assinei árdua pesquisa sobre o noroeste; e Tadeu Bianconi, que me acompanha documentando a feição daquela paragem desde a fase final da pesquisa para o romance Cotaxé.
 
Conheci o Mestre João Miguel também na época em que fiz a pesquisa para o romance Cotaxé. Fui à Prata dos Baianos no rastro do tropeiro Jovelino Cordeiro da Silva, “seo” Jove, que havia convivido com Udelino Alves de Matos, o fundador do Estado de União de Jeovah – um estado tampão no Território Contestado entre o nordeste de Minas Gerais e o noroeste do Espírito Santo, no efêmero tempo de 1950 a 54. Hospedei-me na pensão de dona Mercina Alexandrina Gomes, que me indicou a morada do tropeiro Jovelino e ainda apontou outro morador antigo, o Mestre João Miguel.
 
“Seo” Jove sabia quase um tudo sobre o efêmero Estado de União de Jeovah, enquanto João Miguel me disse outro tudo sobre a Roubada da Bandeira. O folguedo é evento joanino, que originalmente começa no Santo Antônio (13/06), percorre o São João (24/06) e arremata no São Pedro (29/06). Em síntese, um ladrão rouba a bandeira de São João hasteada no quintal do festeiro, ano depois ele aparece para fazer a devolução. Há o encontro entre o bando do ladrão e o bando do festeiro, há o julgamento teatralizado do ladrão, que se defende com a alegação de cometimento do roubo para que a tradição não morra. Arrependido e salvador da cultura popular, ele é perdoado e tem até mesmo o direito de ser o festeiro do ano seguinte.
 
 
Mas naquele período a brincadeira estava minguando, reduzida apenas ao dia de São João e com cortejo cada vez mais ralo. Com o livro Cotaxé publicado em 1997, dois anos depois iniciamos um documentário longa-metragem sobre o tema: Cotaxé – O efêmero estado de União de Jeovah. Então incluímos no roteiro uma apresentação da Roubada da Bandeira, estrelando Mestre João Miguel; e um novo tempo se anunciou para o folguedo. Até mesmo outras tradições, como a do Calango-Dê da Serra do Militão, ganharam vigor. De maneira que também o Mestre Militão – civilmente batizado Geraldo Paulo da Silva – estava presente no aniversário de 100 anos do Mestre João Miguel. Igualmente fazia-se presente a artesã Rosalina da Silva, a dona Rosa, irmã do Mestre Militão, que faz esteiras de taboa numa técnica quase em desuso e algo semelhante a rendas de bilro.
 
Quanto a “seo” Jove, ele somente compareceu de entre as estrelas, porque aos 101 anos ele foi chamado para morar na vizinhança imaginária do Cruzeiro do Sul, mas muito, muito abaixo da linha do Equador. Agora ele é condômino daquele céu sem o pecado da poluição que iluminou a límpida noite da Roubada da Bandeira da festa do amigo João Miguel. Também não esteve na festa dona Mercina, que depois de se despedir largou a pensão aos cuidados da filha Lucineide Alexandrina Gomes. Mas a menina Lu virou professora, casou-se, tem três filhas – mesmo assim disse que não nos deixaria ao relento sob aquele firmamento de Lua Nova.
 
 
Contudo não foi preciso que ela nos abrigasse. O professor Célio Ferreira convidou o trio de Vitória para a casa de seus pais – enquanto o casal Julmar e Angélica, encerrada a noite de festa, deu meia-volta para Ecoporanga. 
 
Entrementes, eles também participariam de animada conversa com nossos anfitriões, o comerciante aposentado José Alves Ferreira e dona Iracilda de Souza Ferreira, que segundo o testemunho de seus mais antigos vizinhos foi na juventude mulher tão bonita a ponto de encantar espelhos. Como também nos encantou, com sua hospitalidade e riso afável.
 
No cardápio de vaivém desta meta-reportagem, cabe salientar que a passagem do dia foi cozinhada em panelões de vaca atolada, de pela-égua, de feijão tropeiro, de cantoria, de quentão, de orações, de canjica e de arrozal cozido à farta para atender ao batalhão enfileirado na mesa campal do Mestre João Miguel. Não houve desafino naquele concerto entre o sagrado e o profano. Somente houve o desafio conciliador entre o bando do ladrão e o bando do festeiro. 
 
Eu acompanhei o cortejo do bando do ladrão, rua a rua. Sem bloco de notas nem caneta – o pouco do muito que ainda havia para ser anotado somente exigia olfato, tato, orelhas, faro e olhar. Depois, no pé redondo da estrada, foi só conferir com as demais testemunhas o jeito de arrematar esta crônica cabocla de uma viagem em vaivém que nos levou muito, muito além do fim do mundo. E ao começo de tudo: da vida simples, como a vida é. Ou deveria ser.
 
* Adilson Vilaça é jornalista e escritor

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