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Contaminação pela lama da Samarco/Vale-BHP entra em fase crônica e preocupa pesquisadores


05/07/2017 às 19:08
Uma fase crônica já se estabeleceu no processo de contaminação da zona estuarina e costeira do rio Doce, provocado pelo rompimento da barragem de rejeitos de mineração da barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP, no dia 5 de novembro de 2015.
Apesar da queda na concentração de vários contaminantes – que se mostraram elevadíssima na fase aguda, nos primeiros meses após o crime – alguns, típicos de mineração, continuam crescendo, com destaque para o ferro.
 
“É preciso ter muito cuidado”, alerta o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e especialista em ecotoxicologia Adalto Bianchini, com relação aos riscos de consumo da água e do pescado contaminados. Apesar da melhoria na qualidade, os riscos de danos à saúde persistem e precisam ser investigados pelos órgãos de vigilância sanitária. “Água e pescado continuam com níveis de contaminação”, adverte o oceanólogo.
 
Essas e outras conclusões foram alcançadas por meio da sistematização dos dados levantados em três expedições feitas para avaliação dos impactos da lama na região da Foz do Rio Doce, realizadas em janeiro, abril e dezembro de 2016. O diagnóstico foi feito em conjunto com outros dois pesquisadores: Heitor Evangelista, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), e Alex Bastos, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
 
O estudo, já apresentado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), foi levado ao conhecimento do público capixaba nesta quinta-feira (6), no auditório do Centro Tecnológico da Ufes, como parte de um ciclo de palestras promovidas pelo Núcleo de Estudos da Qualidade do Ar, do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade, e pela ONG Juntos SOS ES Ambiental.
 
Estresse oxidativo e indução ao câncer
 
Adalto afirma que os dados levantados por ele e seus colegas, até o momento, respaldam a reivindicação das comunidades atingidas pela lama ao norte e ao sul da Foz do Rio Doce, relativas ao fornecimento de água potável e de estudos médicos sobre os vários problemas de saúde que pescadores e ribeirinhos passaram a apresentar após o crime. Respaldam também a necessidade de se estender a área de proibição de pesca, hoje restrita a uma área de 77 km ao longo do litoral, entre Barra do Riacho-Aracruz e Degredo-Linhares.
 
Na sua última palestra sobre o assunto no Espírito Santo – no plenário da Assembleia Legislativa, no dia 30 de novembro passado – Adalto explicou que os níveis excessivos de metais essenciais como ferro, cobre e zinco nos tecidos de organismos aquáticos podem causar danos oxidativos às proteínas, lipídios e ao material genético (DNA) associados, além de uma situação de estresse oxidativo. “As consequências podem ser alterações nas funções fisiológicas, alterações morfológicas, carcinogênese (indução do câncer) e até mesmo a morte”, disse.
 
No caso dos metais não essenciais à vida, tais como chumbo, cádmio e arsênio, mesmo em concentrações reduzidas, o especialista afirmou ser possível haver absorção pelo organismo e indução dos mesmos danos biológicos, inclusive no ser humano, cujos processos de absorção, acumulação e metabolização dos metais são semelhantes àqueles observados nos organismos aquáticos.

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