Seculo

 

Gestão mambembe


10/07/2017 às 16:41
Quem passa pela Enseada do Suá, margeando a Baía de Vitória, avista, inevitavelmente, um cubo de concreto inacabado, com ferragens expostas e corroídas pela maresia — denunciando a ação do tempo sobre os materiais. A sensação, como não podia ser diferente, é de que se trata de um “elefante branco” que empacou.
 
Dias atrás, o deputado estadual Sergio Majeski (PSDB) gravou um vídeo in loco mostrando as obras inacabadas do Cais das Artes. O vídeo deixa evidente o descaso com o dinheiro público. Majeski afirma que a obra já dragou mais de R$ 200 milhões e deve consumir outros R$ 100 milhões para ser concluída. Isso se não aparecerem outros contratempos pelo caminho.
 
O projeto começou a ser desenhado em 2007 por um dos mais renomados arquitetos no mundo. O capixaba Paulo Mendes da Rocha quis deixar um legado para sua terra natal. Não imaginava o genial arquiteto que sua obra de arte seria negligenciada a tal ponto que os mais incautos a considerariam “uma caixa de concreto e ferros retorcidos de mau gosto”. 
 
Se a obra é prioritária ou não são outros quinhentos, mas não se pode cometer a heresia de jogar a culpa da ineficiência da gestão pública no projeto espetacular de Mendes. Não seria de se estranhar que o arquiteto também tenha se arrependido de ter empenhado sua grife numa obra mal gerida e que é alvo de revolta da população.
 
Em abril de 2010, último ano do segundo mandato de Paulo Hartung, o Cais das Artes ganhou cara de canteiro de obras. Com o governo de continuidade selado com Renato Casagrande (PSB), o sucessor de Hartung se comprometera em dar continuidade às obras do Cais das Artes na sua gestão.
 
Casagrande tentou honrar o compromisso, mas os contratos precisaram ser revistos por irregularidades. A empreiteira mineira Santa Bárbara, que assumiu o projeto, “quebrou”, e as obras foram paralisadas. Obra parada, dinheiro público escorrendo pelo ralo. O consórcio Andrade Valladares - Topus venceu o certame de R$ 118 milhões para concluir as obras em 2013. Mas a empreiteira, depois de receber adiantamento do governo, também acabou paralisando as obras novamente em meados de 2015 por suspeitas de irregularidades. 
 
Deixando a qualidade do projeto arquitetônico de Paulo Mendes de lado, que é impecável, a questão que chama a atenção é o quanto a obra era ou não prioritária para o Estado naquele momento. No vídeo postado pelo deputado Sergio Majeski nas redes sociais, há centenas de comentários questionando justamente se os recursos não deveriam ser aplicados em obras mais urgentes. Os internautas mencionaram investimentos em saúde, segurança e educação, áreas que vem sendo sacrificadas pela política de austeridade do governo estadual. 
 
Desde os primeiros “rabiscos” de Paulo Mendes, em 2007, dez longos anos se passaram. E o “elefante branco” continua inerte, sem previsão de avançar. Um dinheiro empatado numa obra nababesca, considerando a realidade do Estado, que parece mais um capricho de Hartung do que uma prioridade para os capixabas. O Cais das Artes parece ter ficado muito além da capacidade de gestão do governador Paulo Hartung, que se mostrou mambembe para um projeto dessa dimensão.

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