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William Blake, mais poemas


17/07/2017 às 12:53
AS MUDANÇAS NA POESIA DE WILLIAM BLAKE
 
William Blake tem em suas obras posteriores uma mudança de orientação em relação à composição de seus poemas, a esperança revolucionária concreta de seus primeiros trabalhos, como podemos ver em Revolução Francesa e Canção de Liberdade, dá lugar a um clima mais dominado pela imaginação do que pela luta direta de ideais políticos, este mundo com demandas concretas e reais sai de cena, e temos enfim o ingresso da poesia de William Blake em temas mais metafísicos e imaginativos como a visão profética e o perdão, como uma nova utopia mais profunda que a dos temas políticos, renovação visionária da poesia de William Blake que seria direcionada a abrir as portas da percepção, o leitmotiv mais conhecido de seu legado poético e literário.
 
Essa nova orientação poética e temática estará já presente em seus poemas-profecia como América e Europa. Pois, depois de suas primeiras obras, Blake realiza a confecção de dois grandes ciclos que recebem pela crítica os títulos de Poemas Continentais e Livros de Urizen. Temos no primeiro ciclo poemas como América, uma profecia, seguido de Europa, uma profecia e A Canção de Los, poema este que, por sua vez, se divide em duas partes, que são África e Ásia. Se em América temos um Blake esbanjando otimismo, em Europa o poeta-pintor vai à dúvida e à desilusão, continuando tal estado de espírito em A canção de Los.
A mais que discutida razão do silêncio literário de William Blake a partir de 1795, que só veio a ser rompido uma década mais tarde, pode ser interpretada como efeito da aprovação naquele mesmo ano dos Dois Atos Constitucionais de William Pitt contra discursos e escritos revolucionários, o que foi de encontro às ambições revolucionárias e de propagação de ideais políticos da primeira fase da obra de Blake. E tal silêncio só acaba quando nos aparece a publicação de Milton em 1804, e neste ínterim, com Blake se dedicando antes desta publicação, durante cerca de dez anos, à composição do épico Vala ou Quatro zoas, poema este que não chegou a ser finalizado por Blake.  
 
Depois de uma revolução individual em Milton, o ponto final do projeto de transformação de Blake se dá em seu último poema, Jerusalém, já na fase em que a revolução social e histórica ou ainda política, presentes em sua primeira fase, é agora neste poema a consumação de um projeto espiritual, em sua manifestação poética, com a cidade ideal que daria fim às diferenças sociais, esta cidade sendo a Jerusalém mítica e utópica por excelência, muito diferente da Londres que conhecera e da Paris da qual o poeta tinha uma ideia. O projeto político termina em Blake com a cidade ideal, agora a consumação de um poeta conhecido como vidente e visionário, o poeta das portas da percepção, com a sua poesia da imaginação e que culmina como projeto espiritual.
 
POEMAS
 
À ESTRELA VÉSPER: O poema é um tema dedicado ao vulto estelar, primeiro ser que desponta no céu noturno, Vênus bem conhecida dos poetas delirantes, no que Blake nos diz: “Tu, anjo noturno de alva cabeleira,/Agora, enquanto o sol se inclina sobre a colina, inflama/Teu reluzente lume, coloca a radiante coroa/E sorri sobre o leito da noite!”. A ação estelar sui generis desta estrela planetária ilumina a noite, e o poema segue: “Fala em silêncio com os teus luminosos olhos/Banha de prata o crepúsculo e de repente/Te retiras enquanto enfurece o lobo,”. Bate em retirada, a estrela vésper, e o poema dá enfim um tom espiritual ao tema, com a ideia cara de proteção: “Os velos de nossos rebanhos recobriram-se/Com o teu sagrado orvalho;/Protege-os com os teus sutis sortilégios.”.
 
AO VERÃO: O poema solar se abre com a visão de Blake da tenda dourada, eis o Verão, o sol em que as flamas se arrojam, e as narinas respiram e sopram no poema, que vem: “Ó tu, que percorres nossos vales, com/Tua força, detém teus violentos corcéis, amaina as/flamas,/Que se arrojam por suas imensas narinas! Tu, Ó Verão,/Várias vezes aqui erguestes tua tenda dourada,”. A voz do Verão ecoa, e Blake segue a sua descrição vidente: “Nas paragens mais sombrias, muitas vezes escutamos/Tua voz, quando o sol sobre seu carro abrasador,/Percorre as profundezas do céu;”. Os bardos enfim aparecem, como célebres intérpretes da canção deste verão solar, e a canção é sobretudo de prazer: “Nossos bardos, que tangem a corda de prata, são famosos” (...) “Não nos faltam canções ou instrumentos de prazer,/Nem doces ecos, nem águas claras como o céu/Nem coroas de louros frente teu calor sufocante.”.
 
À PRIMAVERA: A primavera nos encanta, sua imagens são as mais ricas para a poesia e fonte das delícias infinitas para o poeta, a descrição de Blake é perfeita, da estação mais poética em que o poema segue: “Ó tu com anéis úmidos de orvalho, que contemplas/Por entre os claros vitrais da manhã, volve/Teus olhos angélicos à nossa ilha ocidental,/Que repleta de coros saúda tua vinda, ó Primavera!”. O poema saúda a vinda da primavera, e o poema segue: “Descobre as colinas do Leste, e deixa nossos ventos/Beijar tuas perfumadas vestes; Deixa-nos degustar/Teu alento da manhã e da noite; esparge tuas pérolas/Sobre nossa terra carente de amor que por ti chora.”. O amor da primavera vem preencher o vazio da terra, e assim tal terra é coroada com o perfume da primavera, que aqui é alento, lenitivo, e uma suprema alegria: “espalha/Teus ternos beijos sobre seu seio; coloca/Tua coroa dourada sobre sua lânguida cabeça,/Cujos cachos modestos foram feitos para ti!”.
 
INTRODUÇÃO DE CANÇÕES DA EXPERIÊNCIA: O poema é curto e direto, e o bardo ecoa a sua voz, que é bem delineada neste poema, no que temos: “Ouça a voz do Bardo!/Que vislumbra as Imagens;/E cujos ouvidos têm escutado/O Verbo Sagrado/Pelas remotas paragens,”. O poema segue, e finaliza, com o romper do dia, no que vem: “O chão estrelado/A imensa costa/São seus até romper o dia.”.
 
CANÇÃO LOUCA: O poema é um lamento de Blake, ecoa o vento, ele quer este sopro e a agonia aparece também, no que temos: “O vento selvagem chora,/E a noite é tão fria;/Ó sono, vem sem demora,/E abraça minha agonia;”. A desventura também eclode, e o poema segue seu rumo: “Cheias de desventuras/Minhas notas são levadas:/Batem nos ouvidos das noites escuras,/Os olhos dos dias lacrimejam/Enlouquecem os ventos que rugem,/E com as tormentas pelejam.” (...) “Persigo a noite neste instante,/E com a noite vou embora;”. Enfim, o poeta, todo angustiado, segue a noite como seu instante poético, sua canção louca que se encerra aqui.
 
POEMAS
 
À ESTRELA VÉSPER
 
Tu, anjo noturno de alva cabeleira,
Agora, enquanto o sol se inclina sobre a colina, inflama
Teu reluzente lume, coloca a radiante coroa
E sorri sobre o leito da noite!
Sorri sobre nossos encantos enquanto recolhes
As cortinas azuis do céu, esparge teu argênteo orvalho
Sobre cada flor que cerra ao sono seus doces olhos,
Deixa que o vento do oeste adormeça sobre o lago
Fala em silêncio com os teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo e de repente
Te retiras enquanto enfurece o lobo,
E o leão o escuro bosque espreita:
Os velos de nossos rebanhos recobriram-se
Com o teu sagrado orvalho;
Protege-os com os teus sutis sortilégios.
 
AO VERÃO
 
Ó tu, que percorres nossos vales, com
Tua força, detém teus violentos corcéis, amaina as
flamas,
Que se arrojam por suas imensas narinas! Tu, Ó Verão,
Várias vezes aqui erguestes tua tenda dourada, pois
muito
Temos dormido sob nossos carvalhos, contemplando
Com alegria teus rubros membros e tua opulenta
cabeleira.
 
Nas paragens mais sombrias, muitas vezes escutamos
Tua voz, quando o sol sobre seu carro abrasador,
Percorre as profundezas do céu; Na beira de nossas fontes
de um cristalino regato, despe tua túnica de
Seda e lança-te à corrente:
Nossos vales veneram o Verão em sua glória.
 
Nossos bardos, que tangem a corda de prata, são famosos
Nossa juventude é mais audaz que a do sul
Nossas donzelas são mais vivazes nas danças alegres
Não nos faltam canções ou instrumentos de prazer,
Nem doces ecos, nem águas claras como o céu
Nem coroas de louros frente teu calor sufocante.
 
À PRIMAVERA
 
Ó tu com anéis úmidos de orvalho, que contemplas
Por entre os claros vitrais da manhã, volve
Teus olhos angélicos à nossa ilha ocidental,
Que repleta de coros saúda tua vinda, ó Primavera!
 
As colinas contam umas às outras, os atentos
Vales escutam, nossos olhos ardentes elevam-se
A teus resplandecentes pavilhões: Vem,
Deixa teus pés sagrados percorrerem nossa terra.
 
Descobre as colinas do Leste, e deixa nossos ventos
Beijar tuas perfumadas vestes; Deixa-nos degustar
Teu alento da manhã e da noite; esparge tuas pérolas
Sobre nossa terra carente de amor que por ti chora.
 
Ó, veste-a com teus dedos encantados; espalha
Teus ternos beijos sobre seu seio; coloca
Tua coroa dourada sobre sua lânguida cabeça,
Cujos cachos modestos foram feitos para ti!
 
INTRODUÇÃO DE CANÇÕES DA EXPERIÊNCIA
 
(fragmento)
 
Ouça a voz do Bardo!
Que vislumbra as Imagens;
E cujos ouvidos têm escutado
O Verbo Sagrado
Pelas remotas paragens,
 
“Não mais se afasta;
E por que se afastaria?
O chão estrelado
A imensa costa
São seus até romper o dia.”
 
CANÇÃO LOUCA
 
O vento selvagem chora,
E a noite é tão fria;
Ó sono, vem sem demora,
E abraça minha agonia;
Mas olha! Chega a manhã
Ao leste sobre a montanha,
E os pássaros cantores da aurora
A terra desdenham agora.
 
Olha! Pelas alturas
Do céu azuladas,
Cheias de desventuras
Minhas notas são levadas:
Batem nos ouvidos das noites escuras,
Os olhos dos dias lacrimejam
Enlouquecem os ventos que rugem,
E com as tormentas pelejam.
 
Qual demônio esvoaçante
Que na nuvem, uiva e chora,
Persigo a noite neste instante,
E com a noite vou embora;
Darei as costas ao nascente,
Onde o consolo é crescente;
Pois a luz agarra minha mente
Com uma dor lancinante.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor 
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 

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