Seculo

 

A Vitória que Luciano não conhece


24/07/2017 às 16:21
O processo de ocupação e desocupação do antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), no Centro de Vitória, é o decalque fiel da crise social que afeta os segmentos mais vulneráveis da população brasileira. Sem trabalho, renda e consequentemente moradia — e muitas outras coisas mais — as famílias que resistiam no prédio do governo federal até esse fim de semana queriam apenas um teto para morar, condição, aliás, primordial para que as pessoas possam, aos poucos, reconstruir suas vidas. 
 
O movimento desse grupo de excluídos sociais, no início de abril, reunia cerca de 700 pessoas. Sem-teto, as famílias demarcaram lotes em uma área acidentada entre os bairros Grande Vitória e Universitário, conhecido como Fazendinha, na Grande São Pedro. Expulsos, os sem-teto migraram, ainda no final de abril, para o pátio da Casa do Cidadão, em Maruípe, também na capital. Permaneceram ali na expectativa de que as autoridades municipais e estaduais encontrassem uma alternativa para o problema de moradia.
 
Esquecidos na área externa da Casa do Cidadão, eles decidiram buscar uma solução para o problema que não interessava o Poder Público. Em maio, cerca de 400 pessoas passaram ocupar o Edifício Getúlio Vargas, o antigo IAPI, no coração de Vitória. 
 
Com impressionante poder de organização, motivadas pela necessidade de sobrevivência, as famílias rapidamente se distribuíram nos 11 andares da colossal edificação, que em poucos dias, ante a limitação do espaço, foi ficando com cara de lar. 
 
Neste fim de semana, como se esperava há mais de dois meses — ocasião em que a Justiça Federal determinou a reintegração de posse em favor da União —, as famílias foram deixando, pacificamente, o “elefante ocre” de propriedade do governo federal, que há anos não tem serventia para a União, mas que, em razão da burocracia, não pode ser destinado, mesmo que provisoriamente, aos sem-teto.
 
Não bastasse a tragédia social, chamou atenção o fato de a Prefeitura de Vitória ter se mostrado insensível ao processo de desocupação. Como registrou a reportagem de Século Diário, houve uma força-tarefa planejada entre órgão da União, Estado e Prefeitura para tornar a desocupação menos traumática — se é que isso é possível quando se sabe que muitas daquelas famílias terão como destino as ruas. 
 
À União estava incumbida de fornecer os caminhões que fariam a remoção dos pertences, ainda no sábado (22), que seriam transportados para um espaço da prefeitura. Ao Estado, por meio da Polícia Militar, caberia dar suporte ao cumprimento da ordem judicial de desocupação, caso houvesse resistência por parte dos “moradores”. Pelo comportamento dos policiais da Companhia de Missões Especiais (Cimesp), testemunhou a reportagem, todos queriam uma solução pacífica para que a desocupação não tivesse um desfecho violento. Afinal, havia entre os sem-teto um número considerável de idoso e crianças. 
 
A União e o Estado cumpriram o acordo previamente formalizado, mas a prefeitura, covardemente, se omitiu. Durante todo o sábado (22), oficiais de justiça, representantes da Superintendência do Patrimônio da União no Espírito Santo (SPU-ES) e do Comando de Polícia Ostensiva Especializada (CPO-E) tentaram fazer contato com os representantes da Prefeitura de Vitória, que ficou de fornecer o local para abrigar os pertences. Foram todos solenemente ignorados. O descaso da Prefeitura irritou os representantes dos órgãos estadual e federal.
 
Fronzio Calheira Mota, Marcos Delmaestro, a secretária municipal de Assistência Social, Iohana Kroehling, e a secretária municipal de Cidadania e Direitos Humanos, Nara Borgo Cypriano Machado, não responderam ligações, nem mensagens de texto por celular. O vereador Roberto Martins (PTB) ligou para Nara e enviou mensagens de texto ao prefeito Luciano Rezende (PPS). Nada.
 
Embasbacados, os integrantes da ação tentavam entender a omissão da Prefeitura de Vitória. Conhecendo o perfil centralizador do prefeito Luciano Rezende, é óbvio que os secretários não tramaram uma rebelião para boicotar o processo de desocupação. Os fatos permitem deduzir que os secretários se mantiveram inertes porque receberam ordens superiores para ficarem de fora da desocupação, que podia ter acabado em tragédia. 
 
Luciano quis descolar a administração municipal de qualquer responsabilidade sobre o episódio, que não tinha como ter desfecho positivo. Deve ter pensado: “O prédio é da união, a decisão é federal e o apoio para cumprimento da ordem de desocupação é obrigação da Polícia Militar. Por que a prefeitura tem de enfiar a mão nessa casa de marimbondo?”
 
Faltou alguém lembrar o prefeito que as famílias perambulavam pelas ruas da capital e é obrigação sim da prefeitura dar suporte social à operação. Onde estão os premiados programas do prefeito que sempre aparecem em primeiro lugar nas pesquisas que medem a qualidade de vida das capitais? 
No site da PMV, o Serviço de Acolhimento de Adultos e Famílias informa que dispõe de sete retaguardas de abrigo na cidade. Por que nenhuma equipe de assistência social esteve na desocupação oferecendo às famílias que não tinham para onde ir uma opção ao menos provisória de acolhimento? Não seria obrigação da PMV cadastrar todas as pessoas, fazer um estudo social dos casos e buscar o encaminhamento mais adequado para cada uma das famílias? 
 
A omissão da prefeitura mostra que Luciano não conhece a “Vitória feia”. Essa cidade de tons mais acinzentados, com pessoas sem-teto perambulando pelas ruas sem destino, em situação de pobreza extrema, ocupando prédios abandonados para transformá-los em cortiços verticais que insistem em chamar de lar. 
 
Essa cidade não faz parte da “Vitória linda” que o prefeito replica nas redes sociais. Aquela Vitória perfeita, onde tudo funciona, onde o céu é sempre azul e as famílias pedalam felizes suas bikes sob uma manhã ensolarada de domingo.

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