Seculo

 

‘Senhor, como chego ao Museu Roubado?’


26/07/2017 às 14:44
Em Santa Teresa é comum ser parado por visitantes que buscam chegar a lugares turísticos. Geralmente eles seguem para lá às pressas assim que terminam de ouvir o caminho. Mas um dia desses uma senhorita reagiu sem pressa. Ela falava calmamente, fazia perguntas, parecia que também morava no interior. Daquela conversa casual me veio a percepção de que dezenas de milhares de pessoas vêm à Santa Teresa todos os anos, ansiosas para conhecer o Museu criado por Augusto Ruschi, e voltam para seus lares decepcionadas ou iludidas por acreditarem ter visitado o presente que A. Ruschi concebeu para a sociedade.
 
- Srta: Com licença, como chego ao Museu?
- Eu: Você quer dizer o INMA?
- Srta: Não, me refiro ao Museu do Ruschi.
- Eu: Bem, o Museu dele é o Museu Mello Leitão.
- Srta: Isso! Esse mesmo!
- Eu: Mas essa instituição foi desmanchada. Hoje o patrimônio dele pertence a outra instituição, o INMA. 
- Srta: (cara de espanto) Eu não sabia disso!
- Eu: Os detalhes estão no Jornal Século Diário.
- Srta: (cara de decepção) E ainda tem como visitar a varanda da casa dele? Ver os beija-flores?
- Eu: Sim, o local continua aberto ao público. Seguindo por essa rua, passando toda a praça, vire à primeira esquerda e a portaria estará adiante, à sua direita. 
 
A senhorita agradeceu pela informação e seguiu andando. E eu voltei para casa pensando em qual seria a impressão dela ao fim da visita. Será que ficaria convencida de que aquele é o Museu que A. Ruschi vislumbrou para a sociedade em sua querida terra natal? Ou será que aquela senhorita calma perceberia que muitas pedras daquele Museu estão fora do lugar?
 
O Museu Mello Leitão foi a obra de arte material deixada por Augusto Ruschi para a sociedade. Cada milímetro quadrado daquele museu representa uma mensagem à sociedade minuciosamente planejada por seu criador ao nível da sensibilidade com que estudou seus beija-flores e orquídeas. Foi com essa sensibilidade arquitetônica e funcional que A. Ruschi comunicou, sem mesmo falar, o seu sentimento pessoal de respeito pela natureza e o sofrimento da própria natureza desrespeitada pelo homem.  Lamentavelmente essa experiência sensorial da obra de A. Ruschi vem sendo mutilada desde o falecimento do cientista, tanto por falta de entendimento quanto por falta de respeito, e quem perde com isso é a sociedade. Não é por menos que ouço de diversas pessoas que conheceram meu pai e o Museu Mello Leitão de seu tempo, que evitam visitá-lo, pois sentem tristeza em ver o descaso com sua obra.
 
Por exemplo, as orquídeas e os colibris eram os organismos favoritos de A. Ruschi, os quais chamava de joias aladas. Mas será que o visitante de hoje entende essa mensagem ao chegar ao pavilhão ornitológico e dar de cara com o mosaico de pedras sem polimento e faltando partes? Mesmo as pedras grandes, com mais de 80 quilos, não estão mais lá. 
 
Eu me lembro de quando era criança e chegava ao pavilhão. Não tinha como ir lá sem ficar encantado com o fato de estar andando sobre aquelas pedras transparentes, e depois vê-las formando mosaicos de aves e orquídeas nas paredes! Nada transmite que eles são as joias da natureza melhor que aquela sensação! E quanto à visita ao pavilhão de madeiras, um autêntico cemitério ecológico, com troncos de madeiras de lei da Mata Atlântica distribuídos pelo salão, como se fossem lápides de túmulos. Bastava entrar naquele salão para entender a dor da narrativa de A. Ruschi em seus discursos sobre o desrespeito à natureza e a derrubada de florestas nativas.
 
Em 2010 tive a oportunidade de trabalhar na restauração da exposição do pavilhão ornitológico do Museu. Na ocasião encontrei o que sobrou da exposição de beija-flores original jogado pelos cantos do Setor de Zoologia. Aquela exposição era um sonho! Tinha iluminação individual para cada região das penas que refletiam. Alguns exemplares giravam devagar com ajuda de um motor sem ruído algum, revelando cores das aves que dificilmente se consegue observar mesmo na natureza. Provavelmente nunca existiu nada igual em termos de exposição de beija-flores! Eu mesmo não vi nada parecido nos Museus de História Natural de Londres, e das Universidades de Harvard e Berkeley, no EUA. 
 
O visitante que vai ao museu hoje mal sabe que os beija-flores pendurados na exposição são originais que restaram da famosa exposição de A. Ruschi! Ele certamente também não sabe que muitas orquídeas do viveiro de exposição foram retiradas do Museu por ordem do próprio diretor após o falecimento de seu fundador; ou que o jardim rupestre é uma obra muito aquém do projeto original vislumbrado por A. Ruschi, a qual deveria transmitir ao visitante a sensação da visitar áreas rupestres similares à Chapada Diamantina. 
 
E quanto ao visitante que se depara com uma pilha de jabutis se espremendo em busca do calor de uma lâmpada no inverno teresense? Ele não faz ideia do capricho dos viveiros de animais daquela época. E a placa com a famosa frase “essas árvores valem mais que minha própria vida”, dita ao defender que a rua de acesso ao bairro da Vila Nova não tomasse parte do parque do Museu? Será que o visitante percebe que logo em seguida existe uma parte do terreno do museu que deixou de possuir vegetação e foi transformada em área urbana por iniciativa do próprio diretor?
 
A lista de exemplos é prolongada, mas acredito que o leitor tenha entendido a tristeza que muitos amigos de A. Ruschi sentem ao visitar o Museu nos dias de hoje. São detalhes grotescos, médios e pequenos, que fazem toda diferença. 
 
Qualquer dia desses vão me parar na rua para perguntar por direções, mais ou menos assim:
 
- Turista: Com licença, pode me informar com chego ao “Museu Roubado”?
- Eu: Você quer dizer o Museu do Ruschi?
- Turista: Não, esse não existe há décadas.
- Eu: Então, o Museu Mello Leitão? 
- Turista: Não, esse foi alienado.
- Eu: o INMA? 
- Turista: Não, não, foi esse que alienou! Me refiro às sobras do Museu do Ruschi, e que depois foi tomado.  
- Eu: Ah sim, o “Museu Roubado”... siga as placas “Museu Mello Leitão” naquela direção, e quando encontrar a placa “INMA” você terá chegado no “Museu Roubado”.

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