Seculo

 

A rodovia que mata


28/07/2017 às 17:11
Não bastasse a violência causada pelos altos índices de homicídios que há mais de uma década mantêm o Espírito Santo no topo do ranking nacional, as mortes no trânsito estão assustando os capixabas, sobretudo as registradas na BR 101. Há pouco mais de quatro semanas um único acidente deixou 22 mortos e 21 feridos no km 343 da “rodovia assassina”, na altura de Guarapari. 
 
Nessas últimas semanas, indignação tem sido a palavra mais usada por políticos e autoridades, que agora cobram soluções da concessionária Eco 101 para reduzir o número de acidentes. Toda essa indignação, porém, que parte de vereadores, passa por deputados e senadores e já mobiliza o governador Paulo Hartung, não tem surtido efeitos práticos. Após a tragédia ocorrida nas primeiras horas da manhã do dia 22 de junho, outros graves acidentes já foram registrados na BR 101. Alguns deles fatais. 
 
O mais recente aconteceu nessa quinta-feira (27), na altura do km 246, em Chapada Grande, na Serra. Quatro pessoas da mesma família perderam as vidas numa colisão frontal com um caminhão — acidente que costuma não poupar vidas. Com as mortes de ontem, sobe para 102 o número de vítimas fatais, só neste ano, na BR 101. Esse dado significa a média impressionante de uma morte a cada dois dias.
 
Os números chocam, como não poderia ser diferente, mas, infelizmente, as mortes na rodovia que corta o Estado do sul ao norte já viraram rotina. Fez quatro anos em abril último que o grupo EcoRodovias assumiu a concessão no trecho capixaba da BR 101. Desde então, a Eco 101 passou a administrar os 475,9 km da rodovia (17,5 deles na Bahia). 
 
Depois de fazer uma “maquiagem” rápida na estrada — colocando olhos de gatos em alguns trechos, fazendo pinturas de faixas e instalando novas placas de sinalização — para impressionar o usuário e comunicar que a BR estava sob nova gestão, a primeira grande obra da concessionária foi a construção das praças de pedágio: sete, ao todo. Afinal, são elas que garantem a arrecadação da Eco 101. 
 
Se a expectativa era de que o dinheiro arrecadado com a cobrança de pedágio fosse imediatamente revertido em obras de melhorias da rodovia, o usuário ficou frustrado. A obra mais esperada pelos motoristas que arriscam a vida da 101 ainda não saiu do papel. A duplicação da rodovia, ao menos dos trechos com altos índices de acidentes, vem sendo adiada pela concessionária. 
 
O responsáveis pela Eco 101 transferiram a culpa pelo atraso no cronograma de obras à crise econômica nacional e capixaba. Destacaram o problema da estiagem de 2016, que afetou a agricultura; o fim do Fundap e a paralisação da Samarco. Fatores que contribuíram, segundo a concessionária, para a queda de 18% no tráfego da rodovia entre 2014 e 2016. Na lógica da empresa para se manter lucrativa, se o faturamento caiu, os investimentos devem ser suspensos
 
Desculpas à parte, se as mortes na BR 101 seguirem a média desses sete primeiros meses, até o final de 2017 teremos 180 vítimas fatais. Se mantidas as médias, as mortes superariam, por exemplo, as estatísticas registradas nos anos de 2007 (171), 2008 (148) e 2009 (158), de acordo com dados do Departamento da Polícia Rodoviária Federal. Nesses anos, quando a rodovia estava sob gestão do governo federal, ou seja, entregue à própria sorte, os índices ficaram abaixo das projeções para este ano. 
 
A Eco 101, para tentar mostrar a efetividade de sua gestão, aponta que reduziu o número de mortes no comparativo entre 2014 e 2015, de 211 para 125. O resultado foi tratado pela rodovia como entusiasmo. Dois anos depois, porém, a Eco 101 “mata” em sete meses quase a mesma quantidade de pessoas de 2015.
 
Ora, a Eco 101 sabe desde o primeiro dia de sua gestão quais são os trechos da rodovia mais vulneráveis a acidentes. Esses trechos que mais matam deveriam ser os primeiros a receber obras de melhorias. Isso se o compromisso do grupo fosse com as vidas e não com o caixa da empresa.

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