Seculo

 

De Fleury a Moro


04/08/2017 às 13:00
Não parece mas, guardadas as distâncias funcionais e os contextos políticos, há algumas semelhanças entre os dois agentes mais atuantes no sistema policial-judiciário brasileiro, um na ditadura 64-85, outro na democracia pós-88, ambos se excedendo no uso dos aparatos legais.  
 
Nascido em Niterói, o delegado policial Sergio Fleury (1933-1979) entrou para o DOPS paulista em 1968, destacando-se imediatamente na perseguição a dissidentes da ditadura militar. Protegido pelo AI-5 (editado em 13/12/68), teve carta branca para prender, torturar e ocultar cadáveres de presos políticos. Tornou-se assim um criminoso impune e perigoso para o próprio sistema a que servia.
 
Nunca houve em qualquer DOPS dos estados brasileiros um delegado tão poderoso. Excedeu-se como chefão da banda podre da polícia política. Como um dos líderes do Esquadrão da Morte, envolveu-se no achaque a empresários e na proteção de traficantes. Temido por todos e endeusado pela imprensa, morreu de forma suspeita aos 45 anos.  
 
A versão oficial é de que, num fim-de-semana em Ilhabela, no litoral paulista, escorregou  ao tentar entrar – embriagado – na lancha recém-comprada por dois milhões de cruzeiros; era de noite; bateu a cabeça e caiu n’água, não sendo socorrido por ninguém que estivesse por perto, embora sempre andasse cercado por colegas da polícia. Afogou-se, disse o atestado de óbito, dispensada a autópsia.  
 
A versão real só veio à tona muito tempo depois, exposta pelo ex-delegado Claudio Guerra no livro Memórias de Uma Guerra Suja (Topbooks, 2012, 290 páginas), organizado pelos repórteres  Rogério Medeiros e Marcelo Netto. “O delegado Fleury tinha de morrer”, disse Guerra, admitindo ter participado da própria decisão unânime da ‘comunidade das informações’ (Exército, Marinha e Aeronáutica) de, como se diz na gíria, “queimar o arquivo”.  
 
Vale lembrar que, segundo Guerra, a reunião que selou a morte de Fleury contou com a presença do coronel do Exército Ênio Pimentel da Silveira (o “Doutor Ney”); o coronel-aviador Juarez de Deus Gomes da Silva, da Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça; o delegado da Polícia Civil de São Paulo Aparecido Laertes Calandra; o coronel de Exército Freddie Perdigão, do Serviço Nacional de Informações (SNI); o comandante Antônio Vieira, do Cenimar; e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do Departamento de Operações de Informações do 2º Exército (DOI-Codi). A sentença foi dada num jantar no Restaurante Baby Beef em São Paulo.
 
 “Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava”, diz Cláudio Guerra, apontando também o vício em cocaína de Fleury. O “acidente” final teria ficado a cargo do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Não há registro de desmentidos ao fim de Fleury e a outras mortes. Segundo Guerra, uma das formas de eliminar indícios de assassinatos políticos era jogar os corpos na fornalha de uma usina açucareira em Campos, RJ.
 
Idolatrado pela classe média, o juiz Sergio Moro, nascido em Ponta Grossa em 1972, vem trilhando um caminho pontilhado de luzes e sombras, no qual vem deixando rastros controversos e suspeitos, inclusive o de agir conscientemente para atender a interesses dos EUA.
 
Dias atrás, blogs diversos publicaram o artigo do professor de física Marcos César Danhoni Neves, da Universidade Estadual de Maringá, revelando que Moro concluiu mestrado e doutorado em três anos, uma irregularidade à luz das normas do ensino superior, que exige dois anos para o mestrado e quatro para o doutorado.  
 
Rápido no gatilho, Moro tornou-se o “enfant terrible” da democracia brasileira graças a um conjunto de circunstâncias históricas – internas e externas – que levaram à demonização dos governos petistas, “condenados” pelas elites por praticar a inclusão social dos pobres mediante a distribuição de bolsas familiares, estudantis, financiamento à moradia, apoio à agricultura familiar e outras medidas que ajudaram a manter a economia em expansão contínua -- o sonho dourado da burguesia nacional.
 
Fato antigo, a forte presença do Estado na economia brasileira gerou um duplo tabu: por um lado, viciou o empresariado em esquemas de financiamentos a toda sorte de projetos fundamentais para a estruturação econômica e o alargamento do mercado de consumo; por outro, favoreceu a formação de quadrilhas de agentes que desviam dinheiro de contratos de empresas com o governo federal e as estatais, Petrobras à frente. A novidade é que tais práticas tenham sido atribuídas ao PT, como se os petistas e seus aliados tivessem sido os inventores da roubalheira já proverbial nos nossos meios públicos-privados (isso sem falar que a corrupção está em todos os lugares).
 
A roubalheira vive na boca do povo, que discorda apenas quanto ao marco zero de tais práticas. É costume dizer que tudo começou durante a construção de Brasilia (1957-1961), após o que vieram as pontes superfaturadas, as rodovias aditivadas, os superportos, as hidrelétricas megadimensionadas e assim por diante, numa sucessão de fatos encadeados que colocaram as construtoras brasileiras nas listas das maiores empresas nacionais, ao lado das indústrias de aço, cimento e equipamentos.
 
Agora, no século XXI, o moralismo emergente redescobriu oportunisticamente a “corrupção sistêmica” usada ardilosamente como cunha para alavancar o impedimento da presidente eleita, que não teve jogo de cintura para se defender e acabou derrubada por um golpe sem fim.
 
Consagrou-se assim a figura de Moro, que estudou profundamente a Operação Mãos Limpas (antimáfia) e teve a rara oportunidade de aplicar as mesmas lições na Operação Lava Jato, dirigida contra a corrupção nas relações de políticos e executivos públicos e privados.    
 
Incumbido de punir corruptores e corruptos nunca antes alcançados pela Justiça, Moro usou metodicamente a mídia como instrumento de projeção pessoal e destruição da reputação de suspeitos. Com a notoriedade alcançada, aproveitou-se das facilidades oferecidas pelo clima político e pela legislação para extrapolar os limites do Direito, sendo por isso cada vez mais criticado por advogados e juristas, inclusive fora do Brasil.
 
Moro é o primeiro magistrado brasileiro a abusar, abusar mesmo do instituto da prisão temporária, colocando figurões em celas bem vigiadas e forçando indiciados a fazer acordos de delação para voltar para casa com tornozeleira eletrônica. Tudo isso com o beneplácito do Supremo Tribunal Federal.
 
Sintonizado com procuradores do Ministério Público, que também abusam do “direito” de vazar informações de inquéritos sigilosos, Moro perseguiu particularmente os membros do PT, ajudando no golpe do impeachment de Dilma Rousseff e atuando com o objetivo de condenar Lula, aliás, já sentenciado com 9,5 anos de prisão. Lula recorreu e a bola está com o TRF de Porto Alegre.
 
Como a corrupção é sistêmica, a Operação Lava Jato está chegando a políticos em geral e a empresários de grosso calibre, mas três anos depois de centralizar os processos em sua vara de Curitiba, Moro já não desfruta da aura de juiz imparcial  e isento. Um dos seus pontos mais vulneráveis é o vínculo com os Estados Unidos, país considerado o principal interessado nos despojos resultantes do desmanche empresarial praticado pela Operação Lava Jato. Quanto a isso, não pode restar dúvida de que, no devido tempo, a História fará justiça ao juiz brasileiro mais poderoso dos tempos recentes.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Agora que os bacanas estão indo para a cadeia, pode ser que eles resolvam o problema do sistema penitenciário em proveito próprio”
 
Frase atribuída pelo repórter Carlos Wagner a um policial brasileiro

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