Seculo

 

Mestre Gororoba: o capoeirista de notório saber que começou a jogar nas ruas


07/08/2017 às 16:40
Fotos: Rogério Medeiros


Mestre Gororoba, um negro de 52 anos, descendente de escravos, que começou a jogar capoeira nas ruas e praças de Porto Alegre 40 anos atrás e, em seguida, precisou faxinar a academia distante 50 minutos de ônibus de casa para pagar as aulas de capoeira, andava arfante de um lado para o outro no meio da roda. Rosto para baixo, mão na boca e os olhos pensativos fixos no chão. A fronte retinta gotejava de suor.
 
Não era possível saber se ele ouvia as palavras que Mestre Capixaba, com um par de cordas nas mãos, proferia a dois passos dele. “Dizem que tem sempre uma primeira vez. Depois acostuma. Eu faço 45 anos de capoeira ano que vem e é a primeira corda vermelha e branca que eu entrego e é o primeiro mestre que eu consagro”, começou Capixaba, para, logo, exaltar a caminhada, a batalha, a vida do homem que, no entanto, permanecia dominado por uma inquietude indizível.
 
A cerimônia de formatura realizada sábado (5) no IX Encontro Internacional da A.C.A.P.O.E.I.R.A., realizado até domingo (6), em Bento Ferreira, causou comoção. Mestre Gororoba foi reverenciado desde o instante em que, às 10h30, colocou os pés no ginásio Jayme Navarro de Carvalho, até as 14h, ao final da cerimônia, envergando terno branco e exibindo uma alegria reluzente.
 
Homens, mulheres e crianças capoeiristas se espalhavam pela quadra e arquibancada. Os instrumentos - atabaques, berimbaus, caxixis, pandeiros e reco-recos - ainda repousavam à margem da quadra. O clima era de descontração, conversas aqui, risos ali, um alongamento acolá. 
 


De repente, alguém pegou o atabaque, um outro empunhou o berimbau, vieram o caxixi, o pandeiro e o reco-reco, outro atabaque e outro berimbau e a malemolência de Paranauê, paranauê, Paraná começou a arrebanhar os capoeiristas. Sentadas no chão, 30 crianças de um projeto social de Cariacica da formanda Baixinha e de Mestre Jefinho acompanhavam atentamente as duplas revezando-se no meio do círculo.  
 
Minutos depois, a roda de 100 capoeiristas explodia em vigor e delírio com Tim, tim, tim, lá vai viola; brandindo os braços, os punhos cerrados, um capoeirista bradava no meio da roda por mais energia. Música, melodia, vozes e palmas tomaram o ginásio por 40 minutos. 
 
O jogo foi interrompido para o início das cerimônias. Mestre Capixaba convocou Espiga (Nova Venécia), Sapi (São Paulo) e João de Barro (Suíça) para a troca de cordas. “Aqui cada um tem seu valor e não apenas o mestre”, começou, para exaltar os atributos de monitores, professores e mestres da A.C.A.P.O.E.I.R.A., grupo do qual é fundador. O exemplo resume o espírito do grupo do qual é fundador. “É um grupo pequeno porque prezo pela qualidade. Aqui tenho tudo que preciso. Pesquisadores, estudiosos, bom tocadores, bons cantores, bons compositores”. 
 
Cada troca de corda foi acompanhada por palmas e rufar de atabaques e berimbaus. Os três celebraram a troca de cordas revezando-se com companheiros na roda ao som do ritmo alucinante de Ser Mestre (Lá  Lauê Lauê Lauê Lauá).
 
A música cessou e os três, então, se reintegraram à roda. E Mestre Capixaba começou: “Dizem que tem sempre uma primeira vez. Depois acostuma”. Mestre Gororoba deixou o berimbau que até então tocara inexaurivelmente.
 
Filho de um jogador de futebol com uma costureira, Gororoba nasceu em Porto Alegre e cresceu em Teresópolis, bairro na zona sul da capital gaúcha; o tronco materno registra uma bisavó escrava e uma avó nascida liberta graças à Lei do Ventre Live (1871). Descobriu a capoeira na rua aos 10 anos quando foi apresentado por um amigo ao Baiano, um homem que jogava solitariamente numa praça de Porto Alegre. Gostou e aprendeu com Baiano a primeira bananeira, o primeiro Aú.
 
Ali, no entanto, a capoeira ainda era mais uma diversão entre tantas - como a vadiagem infantil pelas ruas ou o futebol em qualquer esquina. Até que um amigo que de vez em quando aparecia na mesma praça pela capoeira o levou a academia do primeiro mestre de Gororoba e figura fundamental em sua vida. O jovem capoeirista acabara de perder o pai, referência fundamental a quem devotava afeto e respeito, e Mestre Nino Alves ajudou a preencher o vazio.
 
Como não tinha condições de pagar as aulas de capoeira, Gororoba se dispôs fazer o trabalho de limpeza da academia. Varria e esfregava chão, corredores e banheiros do local. Alguns meses depois, Nino dispensou-o daquela faina diária em retribuição ao afinco e dedicação que o jovem demonstrava nas aulas. 
 


A força nefasta do preconceito ele sentiu primeiro dentro da própria casa. Por 10 anos, o bisneto de escravos escondeu da mãe que se envolvera com um fruto das senzalas. A colonização de predominância ítalo-germânica do Rio Grande do Sul explica por que uma neta de escravos não reconhecia - e nem conhecia, sublinha o filho - as próprias manifestações culturais. Era coisa de vagabundo. “Minha mãe mudou toda a sua concepção da capoeira depois que eu levei ela para conhecer uma roda”, orgulha-se.
 
Gororoba experimentou as turbulências típicas da juventude. Reconhece, por exemplo, que era muito brigão, motivo pelo qual começou a fazer aulas de boxe, que manteve por 12 anos. Sofisticou o perfil valentão após apanhar muito - da vida. Encontrou no esporte um ponto de equilíbrio e sentiu, lenta porém inabalável, a capoeira fixar-lhe raízes cada vez mais profundas. 
 
Iniciou um curso superior de Ciências Sociais, que não concluiu, tem curso de Enfermagem, trabalhou em hospital, trabalhou em banco. A capoeira permaneceu. Por ela, planeja voltar à universidade para estudar História ou Geografia e ir mais fundo nas próprias raízes.
 
Mestre Capixaba evocava toda essa trajetória para aquela centena de capoeiristas que assimilava cada frase com um silêncio reverente. Por fim, finalizou: “Ele sabe o que passou para ser capoeirista. Enfrentou um processo de embranquecimento pela cultura europeia de seu estado”. Cordas nas mãos, Capixaba virou-se para o amigo de três décadas, ainda inquieto, absorto, suado, mão na boca, rosto para o chão, e o convocou: “Vem cá, meu criolo”.
 
Gororoba afundou os dreadlocks presos e a barba grisalha entre os braços do mestre e entregou-se a um choro morno e calado por 10 minutos. Uma mão ainda tapava a boca; uma gota de suor brilhava na ponta do nariz. Um capoeirista grande e careca abaixou o rosto para secar as lágrimas.
 
O gaúcho demorou a se desvencilhar do abraço de Capixaba; respirava a custo, os olhos ainda no chão. Parecia reunir forças para dizer alguma coisa. “Queria agradecer a todos, a agradecer ao...”. Novamente vencido pela emoção, desistiu. Vieram as palmas, o rufar de instrumentos e Mestre Capixaba puxando a toada Quem vem lá sou eu.... Alguém estendeu uma garrafa d’água a Gororoba. Ele bebeu, respirou fundo mais uma vez e, recomposto, virou-se para o círculo e foi cumprimentar um a um com um abraço forte e afetuoso.
 


“Agora, sou um mestre de notório saber”, diria Gororoba, mais tarde, com leveza, a respeito da corda vermelha e branca.
 
A roda se desfez para a cerimônia final da formatura, em que homens, de terno branco e gravata branca ou vermelha, e mulheres de saia branca, recepcionam o formando. Mestre Gororoba reapareceu envergando o terno branco e, ainda, um colete branco que o destacava entre os demais. A roda se refez e, novamente dentro dela, Gororoba sorria com facilidade, jogando com os companheiros sob o terno branco. Coisa boa é treinar, é rever os amigos da academia, é saber que meu mestre está ali todos os dias, cantavam homens e mulheres.

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