Seculo

 

'Baianinho' é ficção?


08/08/2017 às 12:50
Parte da sociedade capixaba deve ter se indignado com a decisão da Justiça conhecida nessa segunda-feira (7). O ministro Felix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), decidiu arquivar a investigação de crime de “caixa 2” supostamente cometido pelo governador Paulo Hartung (PMDB) nas campanhas eleitorais de 2010 e 2012. 
 
Havia uma grande expectativa de que os supostos crimes fossem rigorosamente apurados e os culpados punidos. Isso explica a indignação daqueles que ainda tentam entender a decisão da Justiça. Aliás, essa não é a primeira e nem será a última decisão a causar furor popular O que dizer da decisão, também dessa segunda-feira, que suspendeu a ação criminal contra a Samarco-Vale-BHP?
 
No caso de Hartung, o inconformismo aumenta porque as pessoas puderam assistir ao vídeo da delação em que o ex-executivo da Odebrecht, Benedicto Júnior, o BJ, narra os detalhes das negociações feitas com o governador. Não fosse a delação consistente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não teria encaminhado os autos para o Supremo Tribunal Federal (STF) que, por questão de competência, os reenviou para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), que acabou decidindo pelo arquivamento. Mais curioso é que o STJ tomou a decisão a partir do parecer do Ministério Público Federal, que pedia o arquivamento da investigação. 
 
Quer dizer então que a delação foi mal-conduzida? BJ teria mentido deliberadamente sobre o seu envolvimento estreito com Hartung com a intenção de negociar um bom acordo de delação? Seria o “Baianinho” então um mero personagem de ficção criado pela mente “delirante” do delator?
 
O conteúdo da delação não parece tão “delirante” como sempre sugeriu Hartung. BJ contou que Hartung nomeou Neivaldo Bragato como seu portador para buscar quatro malas com R$ 250 mil (em espécie) cada em um hotel no Rio de Janeiro. Para comprovar as denúncias, BJ apresentou durante a delação alguns documentos sobre os fatos relatados. 
 
A primeira prova foi o extrato fiel do Outlook com os emails trocados entre ele e o governador. Ele também entregou documentos que comprovam que os pagamentos saíram da empresa. “Aqui tem um resumo dos pagamentos, mas tem planilhas com e-mails, demonstrando pagamentos, planejamento e programação de pagamentos para o codinome ‘Baianinho’, que era o codinome que adotamos, por ser um Estado próximo à Bahia, que era o codinome que usávamos para o doutor Paulo Hartung”, afirmou durante a delação.
 
Ao ser perguntado se o governador sabia que o dinheiro seria repassado via “caixa 2”, o delator disse acreditar que sim. Quando ele pediu o dinheiro nós dois não discutimos. Depois, quando o Sérgio [diretor-superintendente da Odebrecht, que cuidava de Minas e Espírito Santo] conversou com o Neivaldo eles detalharam como seria. Como o Neivaldo era uma pessoa de confiança do doutor Paulo, por isso eu pressuponho que o doutor Paulo sabia que iríamos fazer caixa 2”. 
 
Essa parece ter sido justamente a brecha usada pela defesa do governador para desqualificar a delação. Pelo menos, o parecer do MPF acatado pelo STJ vai nessa direção. No documento que pede o arquivamento, o MPF admite que se trata “de doação de campanha não contabilizada”, mas pondera, porém, que não se pode falar em corrupção. E acrescenta: “além de referidas doações terem sido destinadas a terceiros, não houve solicitação de vantagem indevida em contrapartida [por parte de Hartung]”. 
 
Na verdade, o entendimento do MPF é que “a doação não contabilizada”, mais conhecida como “caixa 2”, que configura crime eleitoral, não foi de responsabilidade do governador. Para o MPF, caberia à Odebrecht e não a Hartung (solicitante) o dever de declarar oficialmente a doação. Por esse entendimento, Hartung não poderia ser “responsabilizado criminalmente por eventual omissão dos beneficiários [no caso os candidatos que receberam recursos oriundos da doação da empreiteira] e de suas ingerências políticas”.
 
O parecer do MPF acatado pelo STJ admite que Hartung recebeu o dinheiro, mas não sabia que se tratava de “caixa 2”. Como não disputou as eleições e não usou as doações em benefício próprio, mas as repassou a terceiros (candidatos), a Justiça entende que ele não poderia ser responsabilizado sobre o eventual mau uso desse dinheiro por parte dos beneficiários. 
 
Para Hartung, o desfecho da história não poderia ser melhor. Ele espera agora que o episódio envolvendo “Baianinho” fique restrito à imprensa alternativa e às mesas de botecos até perder força e ser completamente esquecido pelo eleitor. 

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

De demolidor a demolido

Até outro dia, o MDB era o partido mais importante do Estado, mas entrou em agonia com a interferência de PH

OPINIÃO
Piero Ruschi
O Governo do ES e seu amor antigo ao desamparo ambiental
Mais um ''Dia Mundial do Meio Ambiente'' se passou. Foi um dia de ''comemoração'' (política)
Bruno Toledo
Estado sem PIEDADE!
As tragédias que se sucedem no Morro da Piedade sintetizam as contradições mais evidentes e brutais do modelo de sociedade e de Estado que estamos mergulhados
Geraldo Hasse
Mundo velho sem catraca
Cinquenta anos depois, é possível fazer um curso técnico por correspondência via internet
Roberto Junquilho
Hartung, o suspense
O governador Paulo Hartung mantém o suspense e pode até não disputar a reeleição em 2018
BLOGS
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Uma revoada de colibris
MAIS LIDAS

Visita de interlocutores de Hartung a Rodrigo Maia sinaliza mudança de cenário

Contrato do governo do Estado com a Cetesb sobre poluição do ar continua sigiloso

Juiz Leopoldo mais próximo de ir a Júri Popular por assassinato de Alexandre Martins

LDO será votada na próxima segunda-feira na Assembleia

Hartung, o suspense