Seculo

 

Alimentação é um ato político


13/08/2017 às 19:30
A produção de alimentos básicos – arroz, feijão, milho e mandioca, especialmente – tem tido sua área reduzida ano após ano no Espírito Santo. A população, ao contrário, só aumenta. Isso significa que, cada vez mais, perdemos nossa soberania alimentar, passando a depender do que é produzido a distâncias cada vez maiores daqui.
Os dados mais recentes do Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural (Incaper), sobre o ano de 2015, informam que 35.258 hectares foram dedicados à produção de alimentos básicos para o capixaba, o que corresponde a apenas 1,49% das terras agricultáveis do estado.
 
Essas terras consideradas propícias à produção agropecuária correspondem a pouco mais da metade da área total do Espírito Santo (2,26 milhões de hectares, de um total de 4,60 milhões ha). A maior parte delas (56% ou 1,32 milhão ha) são ocupadas com pastagens. O café vem em segundo lugar em extensão, ocupando 21% ou cerca de 500 mil ha. E o eucalipto já é o terceiro maior produto, em área ocupada, cobrindo 12% (280 mil ha) das terras agricultáveis capixabas.
 
Em municípios como Conceição da Barra e Aracruz, no entanto, onde o esforço das papeleiras – Aracruz Celulose (Fibria) e Suzano – tem sido maior, tanto na grilagem de terras quanto na  “aproximação” com as forças políticas locais, as monoculturas de eucalipto chegam a ocupar mais de 60% das terras agricultáveis.
 
E onde há expansão do eucalipto, há maior degradação do solo e das águas, maior concentração fundiária e maior desemprego rural. No estudo sobre áreas degradadas feito pelo Centro de Desenvolvimento do Agronegócio (Cedagro), a região noroeste capixaba é responsável por mais de um terço do total de áreas degradadas do Espírito Santo, que hoje estão em torno de 393 mil hectares (16% da área agricultável).
 
30 pra 1 ou 1 pra 30?
 
O extensionista e presidente da Associação dos Servidores do Incaper (Assin), Edegar Formentini, cita um estudo realizado por ele em 2007 em Santa Maria de Jetibá, mostrando que enquanto a cultura do morango gera 30 empregos por hectare, a silvicultura de eucalipto gera um emprego a cada 30 hectares. “Essa situação não mudou muito nos últimos dez anos”, avalia.
 
O governo estadual, no entanto, segundo consta o último Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (Pedeag), tem por meta reduzir a área de pastagens, substituindo-a por plantios de eucalipto. “ A tendência é de reduzir ainda mais a área de produção de alimentos”, alerta Adelso Rocha Lima, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
 
Um exemplo do que está por vir foi a perda do espaço destinado à produção capixaba de alimentos entre os anos de 2014 e 2015, em virtude da crise hídrica: mais de 26%. De todos os setores de produção rural, esse foi o que apresentou maior redução, enquanto a produção de alguns itens animais obteve até aumento de produção e rentabilidade.
 
Crédito rural
 
“O crédito para produção de alimentos é o mais difícil de conseguir”, informa o coordenador do MST. Para o agronegócio – pecuária, café e eucalipto –, complementa, o apoio do Estado é muito maior, sendo isso o que, no final das contas, garante sua expansão.
 
Por que, então, o Estado não apoia, da mesma forma, com o mesmo volume de incentivos, isenções e financiamentos com boas condições, a produção de alimentos saudáveis por meio da agricultura camponesa e da Reforma Agrária?
 
Talvez a resposta só seja encontrada nas reuniões fechadas de gabinetes, entre os médios e grandes empresários do agronegócio e os políticos. Mas, na prática, mesmo com o tratamento monstruosamente discriminatório e marginal, a agricultura familiar é responsável por 70% do alimento que chega às mesas dos brasileiros, por cerca de 80% dos empregos gerados no campo e pela maior parte dos territórios agrícolas que mais conservam matas e recursos hídricos.
 
E isso tudo com menos de 10% do volume de crédito agrícola concedido pelos governos. A maior fatia do bolo de financiamentos, portanto, vai para o insustentável – do ponto de vista econômico, social, ambiental e cultural – agronegócio de commodities voltadas à exportação.
 
Êxodo rural e aquecimento global
 
A conscientização da população é fundamental para mudar esse quadro de injustiça social, oportunizando melhores condições de vida para as famílias camponesas, reduzindo o terrível êxodo rural, que ainda sangra o campo e incha as cidades. “Alimentação é um ato político”, afirma o líder camponês.
 
Apoiar a agricultura familiar também é a forma mais eficiente de frear o desmatamento, incentivar a recuperação das florestas e dos mananciais, e reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Nesse último caso, de três formas: pelo próprio aumento da cobertura florestal, pela redução do uso de defensivos tóxicos derivados do petróleo e pela redução do consumo de combustíveis fósseis no transporte de alimentos entre a zona produtora e a consumidora.
 
“A agricultura camponesa trabalha com circuitos curtos, geralmente dentro do próprio município ou no máximo da região”, explica o coordenador do MST. O agronegócio, ao contrário, trabalha com circuitos longos, entre estados e entre países.
 
Por isso, quando um estado como o Espírito Santo reduz drasticamente sua produção de feijão, arroz, milho, mandioca e outros itens essenciais, a ponto do abastecimento precisar ser feito por outras unidades da federação, significa que não só o agricultor familiar capixaba está sendo desprestigiado, mas o agricultor familiar do próprio estado que “exporta” o alimento para cá, pois em nenhum lugar desse país, a agricultura familiar suporta distâncias tão longas na comercialização. Quanto mais longo o caminho percorrido pelo alimento que você adquire no mercado, mais enfraquecida então ficam a agricultura familiar capixaba e brasileira.
 
Feiras livres
 
Adquirir produtos da agricultura camponesa é possível a partir das feiras livres, especialmente as agroecológicas. Para além da movimentação financeira de qualidade que esses espaços proporcionam, há também a relação política, na melhor acepção que o termo possa ter.
 
“Diferentemente do comércio dos grandes mercados, impessoais, a relação entre produtores e consumidores nas feiras permite, a quem compra, saber a origem do produto, como foi produzido. É uma relação de troca não só comercial, mas de informação, de confiança, de relações, relações políticas”, descreve Adelso.
 
No Espírito Santo, já funcionam regularmente pelo menos 33 feiras agroecológicas e orgânicas, de norte a sul do estado, todos os dias da semana. Vinte e quatro delas, na região metropolitana. Mas em quase todas as feiras livres de bairros, é possível identificar agricultores familiares que vendem seus próprios produtos, mesmo em meio à avalanche de reprodução de itens adquiridos nas grandes centrais de abastecimento. Vale a pena garimpar. 

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