Seculo

 

O rural que nos habita


14/08/2017 às 14:08
Pesquisa do Sebrae entre 4467 produtores rurais brasileiros ouvidos na primeira quinzena de abril passado indica que 96% deles usam telefones celulares, sendo que 71% dos donos de microempresas rurais e 85% dos proprietários de empresas de pequeno porte no campo usam smartphones para acessar a web.
 
É uma surpresa se se considerar que apenas 62% da população brasileira usam celular para acessar a Internet.
 
Apesar da forte presença do celular no meio rural, os produtores usam pouco a Internet por causa da dificuldade de acesso ou da má qualidade da conexão: apenas 16% dos empreendimentos rurais possuem página na Internet ou perfil nas redes sociais. Segundo a pesquisa, 58% dos empresários rurais não utilizam a conexão de internet móvel porque não há provedor/sinal em sua região.
 
Como perna mais nova do Sistema 4S, que inclui os veteranos Sesc, Senai e Senar, o Sebrae acaba de mostrar com sua inédita pesquisa que o mundo rural não é tão atrasado quanto supõe a cultura urbana, geralmente eivada de preconceitos.
 
A partir dessa constatação, o Sebrae provavelmente se organizará para levar ferramentas aos pequenos produtores rurais que vivem mais ou menos isolados, sem poder desfrutar de um direito de todos.
 
O isolamento é um dos fatores de fuga dos jovens rurícolas que abandonam as propriedades paternas na busca da integração aos meios urbanos.
A pesquisa do Sebrae sugere que os brasileiros devem abrir os olhos para o que vem rolando no mundo rural. Especialista em números sobre a população brasileira, o IBGE acaba de lançar a publicação "Classificação e Caracterização dos Espaços Rurais e Urbanos do Brasil - Uma Primeira Aproximação", na qual ensaia uma revisão do contingente populacional rural. 
 
De acordo com essa nova interpretação estatística, em 2010 caiu para 76% da população brasileira o índice de residentes em zona "urbana"; segundo a classificação anterior, e vigente até agora, os habitantes das cidades somariam 84,4% da população total.  
 
Aparentemente, é apenas uma mudança estatística; na realidade, a evolução dos números desvenda transformações que vêm ocorrendo na demografia brasileira.
 
A mobilidade dos brasileiros é um fenômeno histórico que se traduz na formação das favelas cariocas, no inchaço das capitais, na migração de agricultores para o Brasil Central e em outras ocorrências só detectadas com atraso por técnicos e autoridades. Basta ver o quanto o IBGE e o Sebrae, dois órgãos públicos relevantes, demoram para detectar o que ocorre no país.
 
Ao lançar a publicação acima, o IBGE abriu uma discussão sobre os critérios de distinção entre rural e urbano, para que seja possível aprimorar o próximo Censo Demográfico de 2020.
 
Atualmente, cada município define através da própria legislação municipal o que considera zona urbana e zona rural. A classificação determina a forma de incidência de tributos. Na área urbana é cobrado o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), recolhido aos cofres municipais, enquanto que na área rural a arrecadação é federal (ITR). 
 
Ocorre que a questão não se resume à nomenclatura rural ou urbana. Todo mundo sabe que há uma série de situações intermediárias que não se encaixam nessa dualidade de critérios.
 
Os ricos condomínios fechados, construídos em zonas rurais mas bem equipados por instrumentos e serviços modernos, são apenas uma das inovações mais ou menos recentes no universo da ruralidade.
 
Dentro de zonas urbanas, por outro lado, há bairros, vilas ou favelas onde as pessoas vivem em situação mais precária do que em áreas remotas do meio rural.
 
São apenas dois exemplos num mundo em mutação constante.
 
Em sua nova proposta, o IBGE deu um primeiro passo ao adotar três critérios básicos para elaborar a nova classificação: a densidade demográfica, a localização em relação aos principais centros urbanos e o tamanho da população. Após análise dos critérios, os municípios foram caracterizados como "urbanos", "rurais" ou "intermediários". 
 
Agora é preciso saber o que pensam disso os mandatários municipais, estaduais e federais, aos quais cabe dividir o bolo tributário
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Nossas cidades estão sendo destruídas antes de ficarem prontas”
 
Karlos Rieschbieter, ministro da Fazenda do governo Figueiredo (1979-1985), comentando, em 1983, a voracidade das migrações campo-cidade

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