Seculo

 

Para oeste, brasileiros


25/08/2017 às 13:46
Economistas começam a dizer que a recessão econômica chegou ao fundo do poço e que, na realidade, já teve início a retomada do crescimento, só não se sabe quando vão se juntar todos os fatores que alimentam positivamente a dinâmica da economia. Não se deve esquecer que nem sempre os tais fatores se coadunam. Há momentos em que uns empurram pra frente e outros puxam para trás. Faz parte da dialética da História.
 
Entrementes, como se escrevia nos editoriais da imprensa decadente, há um setor da economia que passou incólume pela recessão e, segundo a voz geral dos comentaristas de plantão, ajudou a atenuar a crise em que o Brasil mergulhou a partir de 2013/14, como reflexo do tsunami financeiro global de setembro de 2008. É a agricultura, hoje chamada de “agronegócio”, expressão que prioriza o aspecto financeiro de uma atividade que tem dimensões ecológicas e socioculturais.
 
Seja como for, na safra 2016/2017, recém-concluída, o IBGE registrou um crescimento de 30% no volume de produção, quando comparado com o período 2015/2016. Extraordinário!
 
Quanto à receita que porventura chegou às mãos dos produtores, não há uma contabilidade visível, mas é certo que o crescimento dos valores não acompanhou o dos volumes físicos, pois a maioria dos preços caiu, como é normal durante as grandes safras.
 
Entidades de representação dos agricultores estão se queixando do endividamento rural, o que prenuncia desde um tratoraço como em 1995 até uma rolagem das dívidas, como ocorre periodicamente no país.
 
Quanto a esse vaivém das safras e dos ganhos dos agricultores, cabe registrar aqui o extraordinário papel das migrações que desde sempre sustentam lavouras e cidades do Brasil. É uma história que tem muito a ver com o Espírito Santo, cuja vocação portuária, iniciada com a exportação de café e de minério de ferro estendeu-se, incrementou-se com a extensão da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) ao coração do Brasil Central.  
 
Se brasileiro é todo aquele que chegou ao litoral atlântico da América do Sul depois de 1500 e ficou neste imenso território, pode-se dizer que há cinco séculos os habitantes deste país não fazem outra coisa senão avançar para ocupar as terras do oeste. Quinhentos anos depois a aventura continua, agora contando com instrumentos ultramodernos e máquinas muito especiais.
 
Recapitulando: a barreira da Serra do Mar levou 50 anos para ser vencida. A partir da vila de São Paulo, fundada em 1554 no planalto de Piratininga, tentou-se sistematicamente a conquista do oeste brasileiro por caminhos terrestres e fluviais. Na busca de ouro e pedras preciosas os bandeirantes percorreram vastos territórios, mas não os ocuparam realmente. Para apoiar o garimpo e a mineração, construíram-se vilas e cidades nos sertões inóspitos. E assim se passaram 300 anos.
 
A ocupação efetiva mediante a construção de casas, currais e lavouras aconteceu somente a partir de 1800, quando acabou a febre do ouro. O processo de colonização foi lento, executado pela pata do boi e as tropas de burros. Acelerou-se com as ferrovias no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. Mas só se intensificou mesmo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) graças à abertura de estradas e ao uso de caminhões e tratores.
 
Os colonizadores modernos contam hoje com máquinas orientadas por satélites artificiais, mas a conquista definitiva ainda está por se fazer. Pode parecer exagero dizer que a pedra fundamental da colonização do oeste brasileiro foi lançada em três momentos que marcam a construção de três cidades planejadas: Belo Horizonte em 1897, Goiânia em 1933 e Brasília, inaugurada em 1960, mas não estamos longe da verdade histórico-geográfica. A essas três capitais se poderiam acrescentar Campo Grande, transformada em capital do Mato Grosso do Sul em 1978; e Palmas, capital do Tocantins, desmembrado de Goiás em 1988.
 
Resumindo: enquanto a costa atlântica está apinhada de gente, no miolo do Brasil ainda se abrem novos caminhos, iniciam-se novas lavouras e inauguram-se novas cidades – tudo numa velocidade sem precedentes na história da humanidade.
 
Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implantação de lavouras, é documentada via satélite por organismos internacionais. Os protestos dos ambientalistas são produzidos e acompanhados via internet.
 
Os brasileiros, financiados por consumidores de outros países, são os protagonistas centrais de uma das últimas e decisivas aventuras humanas na conquista de espaço para sobreviver e produzir alimentos, especialmente a soja, leguminosa que está fazendo pela agricultura nacional o mesmo que fizeram, em outros ciclos históricos, o café e a cana-de-açúcar. E ainda tem chão para essas e outras culturas agrícolas.
 
Fora a Amazônia, considerado o último pulmão verde da Terra, o Cerrado é a maior reserva de terras agricultáveis do planeta. No norte e no centro do Brasil se encontram esses dois imensos ecossistemas que guardam as maiores reservas de água doce da Terra. Manejando o fogo, tratores, sementes transgênicas, computadores e satélites, joga-se no Cerrado o futuro de uma parcela considerável da humanidade.
 
Nessa aventura sobre a última grande fronteira virgem da Terra, os brasileiros se apossam não apenas do oeste geográfico, mas de todo um oeste mítico. Para o bem e para o mal, a conquista do oeste é uma metáfora poderosa em todo o continente americano. Nela cabe inteirinha a lenda do eldorado e sobra espaço para a construção de um país sem igual. 

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