Seculo

 

O sermão de Bagé


04/09/2017 às 15:51
“Todo rigor fanático alguma safadeza esconde”, escreveu dias atrás -- sobre a Operação Lava Jato -- o escritor Carlos Moraes, que vive há décadas em São Paulo depois de ter puxado cadeia em Bagé no tempo em que o Brasil era governado pelo general Medici (1969-1974).
 
Naquele tempo, Moraes era padre e pegou cinco anos de cana por falar em justiça social em templos católicos de uma cidade sede de cinco quartéis. Segundo sua interpretação dos evangelhos cristãos, ajudar os pobres e desvalidos era obrigação de todos, sobretudo dos religiosos e dos funcionários públicos. “Se falta lã para alguns, a culpa não é das ovelhas”, dizia ele com sua verve iluminada.  
 
Para quem viveu toda adolescência num seminário, não foi um grande sacrifício passar um quinquênio na cadeia municipal, compartilhando o chimarrão, o jogo de futebol e as conversas fiadas com praticantes de crimes comuns como abigeato, briga de faca e calote de pensão alimentícia.
 
Quando recuperou a liberdade, já na década de 1970, o padre largou a batina e se homiziou na cidade de São Paulo, onde fez uma boa carreira como jornalista. Foi repórter da revista Realidade e editor das revistas Psicologia Atual e Icaro, leitura de bordo da Varig. Nas horas de descanso, polia textos reunidos em livros singulares.
 
Há pouco mais de dez anos, resumiu sua experiência prisional num livro excelente – “Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora” (Record, 2004), que vale tanto pelo conteúdo sincero quanto pelo estilo brincalhão e pontilhado de tiradas originais (ver os lembretes abaixo).
 
Se com tamanho talento não ficou famoso nem rico como tantas nulidades por aí, talvez se deva desconfiar de que tenha sido preservado pela providência divina.
 
Casado, pai de dois filhos e avô de dois netos, Moraes continua sendo chamado de padre pelos amigos. Alguns o tratam como reverendo, no que vai um misto de admiração e ironia.
 
Como se pode concluir após a leitura do seu livro mais importante – há outros, inclusive um sobre o Corinthians --, Deus lhe deu o dom do perdão e da misericórdia, virtudes que continua a exercer onde quer que se encontre entre São Paulo e Santiago do Chile, onde vivem seus descendentes.
 
LEMBRETES DE OCASIÃO
 
(extraídos do livro “Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora”, de Carlos Moraes)
“Coisa melancólica é pobre ressentido”
“A crença e a convicção mataram muito mais do que o pecado e a dúvida”
“Não existe no mundo dor mais comprida e fina do que a das ilusões perdidas”
“Chimarrão não é como cerveja ou cafezinho. Há nele qualquer coisa de silêncio e eucaristia”
“Melhor que as religiões não passem de meras frestas para o Grande Mistério”
“Todo infeliz é perigoso, à esquerda ou à direita, e parece que as ditaduras são feitas para que frustrados de toda ordem possam cobrar as suas contas, usar Deus e a pátria para de algum sentido confeitar a bosta amarga que trazem por dentro”

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