Seculo

 

Elogio dos sonhos


05/09/2017 às 13:26
A entrevista de Joaquim Barbosa ao jornal Valor Econômico, na última sexta-feira (1), segue repercutindo nos meios políticos. Motivo: existe uma expectativa em torno de uma eventual candidatura do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) à Presidência da República nas eleições de 2018. 
 
Barbosa, é verdade, nunca admitiu que tem planos de candidatar-se a presidente, mais ou menos na linha: “A política é muita suja. Não é para mim”. Mas se ele por acaso mudar de ideia, vai chacoalhar para valer o cenário eleitoral. Por isso, a apreensão dos postulantes ao Palácio do Planalto aos movimentos do jurista não é exagerada. 
 
É só recordar o resultado da pesquisa DataFolha de junho último, que apontou Barbosa em quarto, com 11% das intenções de voto — um índice espetacular para quem nunca abriu a boca para dizer que é candidato. O ex-ministro aparece na frente do governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), e está apenas a quatro pontos do segundo e terceiro colocados: Marina Silva (Rede) e Jair Bolsonaro (PSC), emparelhados com 15%. A liderança é de Lula com 30% das intenções de voto.
 
Os números explicam a repercussão da entrevista e a expressão de felicidade no semblante do governador Paulo Hartung (PMDB), que não para de rir desde sexta-feira passada. Não é para menos. A certa altura da longa entrevista, o ex-ministro é instado a falar sobre suas intenções eleitorais na disputa a presidente da República. Barbosa tergiversa, mas diz que se entrasse na disputa, convidaria Hartung para uma parceria. 
 
Realmente, o governador tem motivos de sobra para comemorar a declaração de Joaquim Barbosa. Não faz um mês, Hartung estava no olho do furacão junto com outros políticos investigados pela Lava Jato. Ele foi o primeiro governador, entre uma lista que passa de dez, a ser remido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Desde o dia 7, quando o STJ confirmou o arquivamento da denúncia, o governador voltou a ser pauta da grande mídia nacional.
 
Nessa segunda-feira (4), o Valor repercutiu as declarações de Hartung na edição dominical de A Tribuna. Ao jornal capixaba Hartung admitiu ser plenamente viável uma parceria com Joaquim Barbosa. "Nunca recebi tanta mensagem de WhatsApp em relação a uma declaração. Foi uma coisa extremamente tocante", disse Hartung. Em seguida desconversou, dizendo que o momento não era para uso de palanque, e sim de agregar. 
 
Ora. É lógico que Hartung quis tratar o elogio de Barbosa como outros tantos que ele tem recebido de formadores de opinião, principalmente dos que se dizem “apaixonados” pelo modelo de gestão capixaba adotado pelo governador. Mas o afago de Joaquim Barbosa, sabe Hartung, tem um peso completamente diferente dos formuladores do mercado econômico, que costumam enaltecer a gestão do governador na mídia. 
 
O ministro do Mensalão, que se curvava sobre a cadeira do Supremo, em meio a caretas, para suportar a dor implacável que sofria nas costas, passou a ser considerado, depois do julgamento, uma das poucas reservas morais deste País. É esse retrospecto ilibado que o coloca entre os nomes preferidos do eleitorado na pesquisa. Caso muito semelhante ao do juiz da Lava Jato Sergio Moro, que também é visto como uma espécie de herói nacional por muitos brasileiros.
 
Para quem estava há menos de um mês com a sombra da Lava Jato sobre a cabeça, acusado de receber “caixa 2” da Odebrecht, ser elogiado por uma personalidade com a reputação de Barbosa era um sonho considerado inalcançável para Hartung. Ele mesmo deve ter sido pego de surpreso com o elogio. Afinal, o cadáver enterrado pelo STJ no início de agosto nem esfriou. 
 
É muito pouco tempo para Joaquim Barbosa carimbar o selo de “honesto” em Paulo Hartung. As delações podem ter novos desdobramentos e o nome do governador, que já escapou uma vez, pode voltar a aparecer. Na entrevista, o ex-ministro admite que esteve apenas três vezes com o governador, mas os encontros, embora fugazes, foram suficientes para Barbosa incluir o governador capixaba na seleta lista de homens públicos que mais admira neste País. Ele se referiu a Getúlio Vargas e José Bonifácio, e o terceiro, pasmem, Paulo Hartung. 
 
Convenhamos, soa estranho um elogio dessa magnitude a alguém com quem Barbosa admite ter trocado dois dedos de prosa em três ocasiões. O ex-ministro, por mais culto que seja, também não deve ser um estudioso da política capixaba. Talvez nem tenha se atentado que o governador esteve na mira da Lava Jato até outro dia; ou que teve a gestão contestada ao assistir o Estado ficar mergulhado numa crise de segurança sem precedentes, que deixou um rastro de mais de 200 assassinatos em um único mês. Não deve conhecer, tampouco, as violações aos direitos humanos ocorridas no sistema prisional no segundo governo de Hartung, que lhe renderam a alcunha de “senhor das masmorras”, após o Espírito Santo e o Brasil serem expostos perante a comunidade internacional na Organização das Nações Unidas (ONU). 
 
Joaquim Barbosa parece ser mais um deslumbrado que se informa pelos grandes jornais do País e comete a ingenuidade de digerir o noticiário sem pôr os dois pés atrás. Enquanto essa conversa de parceria se restringir ao campo platônico pode não causar dano algum ao ex-ministro. Quem sai ganhando, e não é pouco, é Hartung, que pode agora usar o jurista como álibi moral para sepultar de vez o incômodo “Baianinho”. Do lado do ex-ministro, a parceria não parece tão vantajosa. Mas se o flerte avançar e virar algo mais sério, é prudente que Joaquim Barbosa conheça melhor seu parceiro antes de selar o “casamento”.

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