Seculo

 

Futuro do INMA em debate


06/09/2017 às 10:31
Nesta semana deu-se início o processo de seleção do primeiro diretor do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), instituição criada à custa da extinção do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão.
 
A disputa pelo cargo incluiu a apresentação pública da visão pessoal e planejamento futuro para o INMA de cada um dos seis candidatos ao cobiçado cargo. O planejamento dos candidatos variou enormemente sob diversos aspectos institucionais decisivos à linha de funcionamento do Instituto. Dentre as propostas apresentadas, chamou a atenção o alto contraste entre a visão dos candidatos capixabas Cláudio Nicoletti Fraga e Sérgio Lucena Mendes, os quais apresentam histórico com o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão.
 
Na visão de Cláudio Nicoletti Fraga, atual chefe da Divisão de Ciência do INMA, a modernização institucional é prioritária para efetivar os demais objetivos institucionais de pesquisa e educação ambiental. Fraga questionou as prioridades do planejamento estratégico vigente (norteador do plano diretor, ainda a ser elaborado). 
 
Para ele, existem diversas opções seguras de expansão das instalações que tornam desnecessária a remoção das coleções e laboratórios da área urbana do município: construção de novos prédios dentro do terreno do próprio museu substituindo as edificações antigas; uso de terrenos vizinhos ao Instituto; ou uso do prédio que sediava o antigo Hospital Municipal. Medidas que também garantem manter o espaço atual do Instituto para visitação e educação ambiental.
 
No que diz respeito ao orçamento ministerial disponível para os recursos humanos, Fraga ressaltou a necessidade de renegociar com o Ministério a quantidade de cargos concedidos – um problema gerado pela displicência no prosseguimento da criação do Instituto sem resolução de problemas capitais, neste caso, a ausência de estrutura orçamentária.
 
Fraga também destacou a importância de desenvolver parcerias com município e o Estado, ou seja, ter o Instituto participando de tudo que se refere à Mata Atlântica no ES. Essa medida, segundo o candidato, permitiria que emendas parlamentares da bancada capixaba auxiliassem na captação de recurso, o que também deverá ser feito pelo aumento de parcerias com iniciativas privadas.
 
O chefe da Divisão de Ciência do INMA citou também a importância em ter um planejamento condizente com a missão institucional do INMA, que é muito maior que aquela do extinto museu. Ele ressaltou a necessidade de promover o crescimento científico da instituição por meio de colaborações exógenas e investimentos em bolsistas internos, considerados a força braçal da ciência do INMA, bem como a importância de se manter o boletim científico. Por fim, Fraga chamou a atenção à necessidade do INMA em “dar sua cara a tapa” e contribuir com estudos da Bacia do Rio Doce.
 
Em contraste à posição de Fraga, os presentes ao debate puderam conhecer a visão do candidato de Sergio Lucena Mendes, coordenador do Movimento de Defesa da Criação do INMA (MoveINMA).
 
Segundo Mendes, o novo Instituto deverá alcançar um tamanho médio e possuir uma equipe leve, focando no desempenho de suas atividades em parcerias com grandes instituições, sem objetivar a implementação de tecnologias laboratoriais de custo elevado.
 
Outros pontos marcantes da opinião de Mendes, que divergiram à de Fraga, foram suas ideias para destinação do boletim científico criado por Augusto Ruschi, e a localização das instalações de pesquisa do Instituto. Para ele, o melhor a se fazer com o Boletim do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão seria rebaixá-lo a um difusor de ciência e trabalhos técnicos. Quanto às instalações de pesquisa, o candidato acredita que os laboratórios e coleções devam ser removidos da localidade original e situados em prédios novos a serem construídos na região de Aparecidinha, que fica na zona rural de Santa Teresa.
 
Mendes concluiu frisando que o novo diretor precisará “correr atrás” de recursos privados para a instituição, indicando os recursos da indústria florestal capixaba, sobretudo a de celulose, como uma fonte potencial adequada ao novo Instituto: “Precisamos, de alguma forma, nos aproximar do setor florestal para conseguir recursos”.
 
A comparação entre as propostas dos candidatos revela perspectivas de dois institutos: um mais nacional, voltado para a ciência e expansão, que se apóia na própria estrutura física e científica deixada pelo patrono da Ecologia do Brasil para ampliar suas metas frente ao plano científico e tecnológico do Ministério que abriga; e outro que abre mão da sua história, até mesmo de seu periódico científico destinado a promover o avanço da ciência, sendo mais interiorano, mas que apesar do menor porte faz questão de remover da área urbana do município suas instalações de pesquisa, e que conta com a verba do setor industrial que mais devastou a Mata Atlântica capixaba.
 
Em tempo: mais informações sobre o desrespeitoso processo de desmanche do MBML podem ser encontradas nos textos anteriores desta coluna e reportagens de Século Diário. Detalhamentos sobre a devastação da Mata Atlântica capixaba pela indústria florestal podem ser encontrados nos artigos de Augusto Ruschi, publicados no boletim do MBML sob a série proteção natureza.
 

Piero Ruschi é Biólogo, doutor em zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ, atuante nas áreas de Biodiversidade Genética, Evolução, Conservação da Natureza e Responsabilidade Socioambiental

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