Seculo

 

Em manifesto, coletivo defende ocupação de ‘tudo o que está abandonado’ em Vitória


08/09/2017 às 11:35
O manifesto de lançamento do Coletivo Resistência Urbana denuncia a geografia da desigualdade social, condena a especulação e defende a ocupação de “tudo o que está abandonado” em Vitória. O texto está nas redes sociais e critica com dureza e lucidez a dinâmica urbana da capital capixaba, que condena famílias pobres a viver de forma precária nas “franjas” da cidade, porções urbanas privadas das prerrogativas infraestruturais das regiões nobres. 
“Ao olhar para as cidades observamos a barbárie: os pobres na periferia, geralmente longe de seus locais de trabalho ou, quando nos centros da cidade, nos morros. Em todas essas regiões observamos uma cidade pobre para os pobres, os serviços públicos precarizados a ponto de não haver qualquer presença do poder público que não seja a repressão policial. Escola e postos de saúde de qualidade, atividades culturais, transporte público eficiente chegam apenas no desejo do povo, nunca em seus bairros”, diz um trecho do manifesto.
 
A reunião de formação do coletivo aconteceu em julho, às vésperas da reintegração de posse do prédio do antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), no Centro de Vitória, e marcou o ressurgimento da luta pela moradia no Espírito Santo. O grupo é formado por integrantes de entidades sociais como o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e as Brigadas Populares do Espírito Santo.
 
O trecho descreve a geografia de qualquer cidade brasileira de médio e grande porte. O espaço urbano reflete, talvez com mais clareza que contas bancárias, as desigualdades. “A separação entre ricos e pobres, o abismo de renda entre aqueles que vivem no Estado do Espírito Santo, não se expressa apenas nas contas bancárias. Toma também corpo físico, se apresenta no espaço e deixa explícito na geografia das cidades para quem ela serve e a quem ela exclui”, diz o texto.
 
A especulação imobiliária emerge como um dos principais alvos do coletivo. De um lado como refletem as ocupações, muitas famílias vivem sem moradia própria. Do outro, sobram imóveis vazios em Vitória à espera de valorização imobiliária. O resultado são aluguéis a preços impraticáveis para famílias pobres. “E, desse jeito, torna-se cada vez mais difícil conciliar uma vida minimamente digna e o pagamento dos aluguéis”.
 
Daí a necessidade de disputar a cidade. “Queremos ocupar tudo que está abandonado, tudo que está especulando, toda propriedade que não serve a sua função social!”.  
 
Não à toa que a maior parte das cerca de 60 famílias que hoje ocupam o Edifício Sagres e o Edifício Santa Cecília, ambos no Centro de Vitória, são oriundas da região da Grande São Pedro, uma das mais socialmente vulneráveis da capital capixaba. A maioria é composta por trabalhadores desempregados sem moradia própria que não conseguem pagar aluguel. 
 
A ocupação foi a última saída. “E o que fazer quando não conseguimos mais pagar o aluguel e comprar comida ou pagar a passagem do ônibus com nossos salários e o poder público a isso nada nos responde? OCUPAR! Ocupamos os térreos vazios que há décadas estão parados só para especular, ocupamos os prédios abandonados nos centros urbanos (que só no centro de Vitória são mais de 100!), ocupamos tudo que nos é de direito e nos foi negado!”, diz o texto.

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