Seculo

 

ES: um inferno promissor economicamente moldado


20/09/2017 às 15:09
Sempre que ouvimos “meio ambiente” pensamos na vida selvagem, nas tartarugas, baleias, onças-pintadas, gaviões-reais, beija-flores e orquídeas – pensamos nos seres que habitam os ambientes mais preservados das unidades de conservação ambiental. Todavia, o conceito de meio ambiente se estende também a nós, seres humanos, sendo parte dele os recursos naturais não renováveis e renováveis que direta ou indiretamente sustentam a vida da população. 
 
Recentemente, a influência da degradação ambiental sobre a qualidade de vida dos capixabas vem sendo percebida de forma sofrida em diversas localidades: respirando ar com minério na Grande Vitória, bebendo água salobra em São Mateus, dobrando o rigor alimentar para evitar a ingestão de frutos do mar contaminados pela lama tóxica do Rio Doce... o desrespeito pela natureza transcendeu a floresta e a vida dos bichos. Ele hoje incomoda diretamente o cidadão.
 
Trata-se do efeito de transbordo, pelo qual degradações ambientais contínuas tornam-se cada vez mais salientes em função do meio ambiente saturado. Tudo isso se traduz em sofrimento do cidadão. Sabemos que o brasileiro é tolerante, mas será que o povo irá simplesmente conviver com o sofrimento como se fosse rato ou barata? Será que esse nível de adaptação ao meio (degradado) faz parte da expectativa futura do cidadão ou do planejamento econômico de nosso Estado?
 
Conservar o meio ambiente, indubitavelmente, é dever do cidadão. Muitas vezes, nosso contato com ele é tão exíguo, que nossas ações se limitam a importantes detalhes, como economizar água ou separar o lixo seco do lixo úmido. Outras vezes, precisamos tomar medidas mais diretas, como ligar o esgoto doméstico à rede sanitário ao invés de poluir um rio diretamente.
 
Todavia, frequentemente, o empenho do cidadão em cuidar do meio ambiente não serve para nada. Por exemplo, a maioria das cidades ainda mistura lixo seco e úmido no triturador dos caminhões de recolhimento; muitas indústrias e fazendas fazem uso contínuo de altos níveis de água durante períodos de estiagem; a aplicação de agrotóxicos em propriedades rurais não leva em conta o destino da água de lixiviação da chuva, que segue contaminando rios, etc.
 
Assim como nos exemplos acima, diversas outras situações de degradação ambiental ocorrem sob a responsabilidade do Estado: ocorrem apesar do empenho de órgãos especializados em combater a degradação ambiental; ocorrem com amparo de órgãos que deveriam combater a degradação ambiental; ocorrem em projetos que desconsideram a geração de passivos ambientais; e ocorrem mesmo dentro de programas categoricamente considerados “sustentáveis”. 
 
Na opinião do mundialmente reconhecido economista de desenvolvimento, Robert Solow, a razão central da falha nos esforços sociais em garantir a preservação dos recursos ambientais é a incompatibilidade de aspectos do planejamento econômico com o respeito ao meio ambiente.
 
Especialmente em países emergentes, como o Brasil, objetiva-se a pressa, isto é, “trabalhar a máquina” a todo vapor. Aplicar toda mão de obra disponível junto ao máximo de recursos possível, utilizando a tecnologia única e exclusivamente para maximizar essa fórmula. Nesse cenário: a conservação de recursos naturais representa a diminuição da produção e consumo; a degradação ambiental causada por falhas no controle de responsabilidade do Estado permite acelerar a economia às custas do impacto ambiental; e o Espírito Santo mantém-se como o “fominha” da celulose e do minério de ferro. 
 
A solução econômica para garantir à população uma verdadeira sustentabilidade é a adoção de medidas que levem em conta a qualidade de vida futura da população, ou seja, medidas que garantam a integridade do meio ambiente e seus recursos naturais. Conforme explicado por Solow, esse resultado pode ser alcançado através de abordagens económicas mais precisas e sensíveis, isto é, medidas que busquem o equilíbrio entre o que se deve fazer mais e o que se deve fazer menos.
 
Atualmente, os discursos empresariais e políticos se mostram carregados de conotações sustentáveis, mas a verdadeira sustentabilidade dos recursos naturais dos quais a população depende não está incluída no planejamento econômico. No ES essa ausência pode ser verificada pela lacuna de investimentos tecnológicos sobre a conservação de recursos naturais, desde passagens seguras para animais em rodovias a cuidados com a água e o ar. 
 
Segundo a concepção econômica de sustentabilidade de Solow, “o céu é uma ocasião em que um pedaço de teoria bastante econômica se propõe a sugerir um programa de pesquisa empírica tendo também implicações para a formulação de políticas públicas”.
 
Lamentavelmente, sob essa concepção, o Espírito Santo figura hoje como um embrião “saudável” de mais um inferno promissor em um Brasil em “desordem e regresso”. 


Piero Ruschi é Biólogo, doutor em zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ, atuante nas áreas de Biodiversidade Genética, Evolução, Conservação da Natureza e Responsabilidade Socioambiental
 

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