Seculo

 

Um Estado que mata suas mulheres


21/09/2017 às 23:41
Depois de oito dias de suspense a polícia apontou os responsáveis pelo crime brutal que tirou a vida de Milena Gottardi, 38 anos. Em coletiva na tarde desta quinta-feira (21), o secretário de Segurança André Garcia e os delegados que coordenaram investigação confirmaram que o ex-marido da médica, Hilário Frasson, e o pai dele, Esperidião Carlos Frasson, foram os mandantes do crime. Dionathas Alves Vieira, que já estava preso, segundo a polícia, foi o executor. Ele teria sido contratado por R$ 2 mil, a pedido de Hilário e Esperidião, por meio de dois intermediários, para matar Milena.
 
Crimes como o de Milena geram grande comoção social. Nem poderia ser diferente. É muito difícil aceitar a perda de uma mulher cheia de vida pela frente, mãe de duas filhas pequenas, uma profissional dedicada que ainda arrumava tempo para trabalhar voluntariamente com crianças com câncer. 
 
O caso causa ainda mais indignação quando se descobre que o crime foi premeditado pelo ex-marido e ex-sogro, e o que é pior, por um motivo torpe: dinheiro. Segundo a polícia, pai e filho tiraram a vida de Milena por causa da pensão alimentícia e da partilha dos bens do casal. Por tudo isso, não dá nem para imaginar a dor da família. E o que dizer das filhas? As duas meninas (dois e nove anos) choram a perda da mãe e, mais tarde, sofrerão ainda mais quando souberem que a mãe foi assassinada a mando do pai e do avô. 
 
Essa família, lamentavelmente, está marcada pela violência. Nunca mais será a mesma. O caso de Milena choca. Mas perder a vida para violência há anos se tornou algo banal no Espírito Santo. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a julho deste ano 826 pessoas foram assassinadas no Estado. Uma média de 35,4 mortes por 100 mil habitantes. Uma das maiores taxas de homicídio do Brasil. Índice superior ao nacional, que em 2016 registrou média 29/100 mil. 
 
Quando se recorta os casos de feminícidios, os números novamente assustam. Segundo dados da promotora de Justiça Cláudia Garcia, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nevid) do Ministério Público Estadual (MPES), 84 mulheres foram assassinadas de primeiro de janeiro a 25 de agosto último. Esse número projeta uma média 6,3 mortes por grupo de 100 mil mulheres. Isso significa que, em média, uma mulher é assassinada no Espírito Santo a cada três dias. Taxa superior à média nacional, que está em 5,6. 
 
O crime brutal de Milena faz a sociedade lembrar que a violência segue sendo um dos principais (ou o principal) problema do Espírito Santo. Essa realidade não tem sido mostrada nas entrevistas festivas de Paulo Hartung à imprensa nacional. O governador se preocupa apenas em exaltar os resultados fiscais do Estado e promover a sua política econômica como modelo a ser seguido pelo restante do País, mas não demonstra o mesmo empenho para enfrentar problemas crônicos como a violência, que exigem políticas públicas consistentes e, sobretudo, pesados investimentos.  
 
Hartung omite dos seus novos entusiastas que a violência continua sendo um câncer em plena metástase a corroer o Espírito Santo, deixando marcas indeléveis nas famílias capixabas, como a de Milena que, infelizmente, nunca mais será a mesma.

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