Seculo

 

Nova face poética de Álvares de Azevedo antecipa o moderno com toques de humor coloquial


01/10/2017 às 14:33
Um dos aspectos da poesia de Álvares de Azevedo, que muitas vezes se vê ocultada pela face poética mais emocional do estro romântico deste poeta e de todos de sua geração, é a comicidade que muitas vezes aparece em sua poesia. Tal é o coloquialismo que também tem seu lugar neste âmbito do humor na poesia de Álvares de Azevedo, com poemas muitas vezes irreverentes, num realismo que será umas das partes mais importantes e avançadas da obra do poeta, talvez apontando para além daquele contexto romântico no sentido estrito que reinava nos corações e no temperamento literário em geral de sua época.
 
Confrontava-se o poeta então com um tipo novo de poesia ainda ignorada nos salões e na boêmia, na aceitação pública que logo mais se entregaria às afetações e excessos da poesia parnasiana e passaria ao largo do surto místico da poesia simbolista. Mas este tom coloquial e irônico já tem um certo lugar entre os poetas, tais como eram o próprio Álvares de Azevedo, e que figurava ainda no estro de Bernardo Guimarães, José Bonifácio de Andrada e Silva, e Aureliano Lessa, por exemplo.
Isso era parte de uma sensibilidade renovada, num movimento amplo da poesia abrindo uma nova frente no campo sentimental e invariavelmente derramado da poesia de caráter romântico como era de entendimento geral naquela época e atualmente quando tematizamos estas gerações do século XIX. Pois, partindo do caráter mais sentimental da poesia romântica comumente entendida, temos esta nova face poética que antecipa o moderno com toques de humor coloquial, de um temperamento já bem presente na boêmia dos bon-vivants da noite de poesia, dos poetas bêbedos que vagavam e flanavam naquele século tão mítico dos poetas byronianos.
 
Pois, entre os poetas românticos, como era Álvares de Azevedo, temos esta luminosidade do humor coloquial meio que dando um tom de leveza desconhecido pelo gênio comum do apelo romântico, que era muitas vezes dramático e carregado, sentimental e por vezes trágico. Pois havia um clima geral de um coração dorido que tinha neste novo aspecto realista e irônico, no entanto, um escape ao estro sisudo do amor romântico, este que na poesia era derramado em versos geralmente grandiloquentes.
 
No que, levantada a forma usual das gerações românticas, sobretudo esta segunda de que fez parte o poeta Álvares de Azevedo, temos que foi se tornando o excesso sentimental de muitos desses poetas uma espécie de caricatura que muitos fazem destas gerações românticas que viveram no século XIX. Contudo, como dito, não era sempre assim, pois houve um salto no moderno que viria neste tipo mais leve e cotidiano de poesia que já era praticada por poetas como Álvares de Azevedo.
E dos três poetas citados junto com Álvares de Azevedo, o mais importante com certeza foi Bernardo Guimarães, com Aureliano Lessa sendo lembrado como um poeta de alguns poemas cômicos e fesceninos, não deixando, portanto, apenas ao poeta Álvares de Azevedo esses voos pelo humor, ironia e comicidade, características que faziam um ótimo contraponto ao drama sentimental que era o clichê desta segunda geração romântica.
 
POEMAS
 
TARDE DE VERÃO: O poema abre bucólico e praiano, numa tarde aprazível, no que temos : “Como cheirosa e doce a tarde expira!/De amor e luz inunda a praia bela :/E o sol já roxo e trêmulo desdobra/Um íris furta-cor na fronte dela./Deixai que eu morra só! enquanto o fogo/Da última febre dentro em mim vacila,/Não venham ilusões chamar-me à vida,/De saudades banhar a hora tranquila!”. O amor dorido logo se espanta e o poema entra na espiral decadente em que o poeta se debate em amor perdido e nostalgia, no que segue : “Se ela estivesse aqui! no vale agora” (...) “Uni-la ao peito meu – nos lábios dela/Respirar uma vez, cobrando alento;” (...) “Fulgura a minha amante entre meus sonhos,/Como a estrela do mar nas águas brilha;”. O plano sentimental se abre em fogo-fátuo, todas as sensações se veem aprisionadas neste estro romântico e obsidiado que na queda se vê com o desejo ardente em vão : “Vem! a areia do mar cobri de flores,/Perfumei de jasmins teu doce leito;/Podes suave, ó noiva do poeta,/Suspirosa dormir sobre meu peito!/Não tardes, minha vida! no crepúsculo/Ave da noite me acompanha a lira .../É um canto de amor ... Meu Deus! que sonhos!/Era ainda ilusão – era mentira!”. E a queda se consuma, o desejo é um ar rarefeito que cai na mentira e na ilusão ideal que se perde como um ar vazio, fundo em que a alma flutua sem ponto de chegada, o desamparo reina absoluto, a mentira é a coda do poema.
 
SAUDADES: O poema vem com o frescor da mocidade, o poeta e seus vinte anos, mas é uma luta inglória que se delineia, o poeta terá vida breve, o temperamento romântico aqui é um flerte fatal, a morte está rente, acompanha o estro como uma grande sombra que se insinua como a coda suprema, o poema cheio de viço que se emudece e tem no sonho de ventura apenas uma doce ilusão da forma, o refúgio é a poesia, e o passado sempre parece aqui mais luminoso, mas agora se tem um abismo de dor, como o verso diz, no que o poema segue : “Foi por ti que num sonho de ventura/A flor da mocidade consumi,/E às primaveras digo adeus tão cedo/E na idade do amor envelheci!/Vinte anos! derramei-os gota a gota/Num abismo de dor e esquecimento .../De fogosas visões nutri meu peito .../Vinte anos! ... não vivi um só momento!/Contudo no passado uma esperança/Tanto amor e ventura prometia,/E uma virgem tão doce, tão divina/Nos sonhos junto a mim adormecia! .../Quando eu lia com ela – e no romance/Suspirava melhor ardente nota,/E Jocelyn sonhava com Laurence/Ou Werther se morria por Carlota,/Eu sentia a tremer, e a transluzir-lhe/Nos olhos negros a alma inocentinha,/E uma furtiva lágrima rolando/Da face dela umedecer a minha!”. Um amor suicida como o de Werther, este tipo amante delicado que sucumbe com paixonite e tons tétricos e sinistros de poeta que chora e morre, a juventude febril envelhece com o coração ressequido, sobra a poesia como uma espécie de canto do cisne, Álvares de Azevedo já antevendo a sua curta biografia e breve poesia juvenil, no que o poema segue : “Foi esse o amor primeiro – requeimou-me/As artérias febris de juventude,” (...) “A ti ergueram meus doridos versos,/Reflexos sem calor de um sol intenso :” (...) “Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,/Tantas noites de febre e d`esperança!/Mas hoje o coração desbota, esfria,/E do peito no túmulo descansa!/Pálida sombra dos amores santos,/Passa, quando eu morrer, no meu jazigo :/Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,/E lá na morte eu sonharei contigo!”. A morte aqui enfim encerra o estro como o terreno do sonho, o canto de amor está ao lado da finitude, da brevidade que foi a vida física do poeta romântico, tanta ventura fica como sinônimo de ilusão no poema aqui retratado.
 
HINOS DO PROFETA: UM CANTO DO SÉCULO: O poema vem com sonhos de ventura, a ilusão do poeta Álvares de Azevedo, o sumo de que a poesia romântica gosta de se iludir e viver nesta ficção suprema dos sentidos, e que só é luzidia na poesia, que é meio que o caminho seguro em que a ilusão da vida pode ser liberada com uma certa beleza e forma estética, no que temos : “Debalde nos meus sonhos de ventura/Tento alentar minha esperança morta/E volto-me ao porvir;/A minha alma só canta a sepultura,” (...) “As minhas veias inda ardentes correm,/E na febre da vida agonizando/Eu me sinto morrer!/Tenho febre – meu cérebro transborda .../Eu morrerei mancebo, inda sonhando/Da esperança o fulgor!/Oh! cantemos ainda! a última corda/Inda palpita ... morrerei cantando/O meu hino de amor!/Meu sonho foi a glória dos valentes,/De um nome de guerreiro a eternidade/Nos hinos seculares :/Foi nas praças, de sangue ainda quentes,/Desdobrar o pendão da liberdade/Nas frontes populares!/Meu amor foi a verde laranjeira,/Cheia de sombra, à noite abrindo as flores/Melhor que ao meio-dia;”. As notas citadas são um misto de sonho guerreiro e canto sublime anunciando a morte, o poeta agoniza, mas no turbilhão destas sensações-limite, faz poesia, no que segue : “Meu amor foi o sol que madrugava,/O canto matinal dos passarinhos/E a rosa predileta .../Fui um louco, meu Deus! quando tentava/Descorado e febril manchar nos vinhos/Meus louros de poeta!/Meu amor foi o sonho dos poetas/- O belo – o gênio – de um porvir liberto/A sagrada utopia.”. O amor supremo é a grande utopia, a poesia é o meio deste sonho perfeito que se esvai na vida e se consuma como poema, no que temos : “Eu vaguei pela vida sem conforto,/Esperei minha amante noite e dia/E o ideal não veio .../Farto de vida, breve serei morto .../Nem poderei ao menos na agonia/Descansar-lhe no seio!” (...) “Meu Deus! ninguém me amou!/Vivi na solidão – odeio o mundo,”. O amor aqui vira uma imprecação, o poeta se debate num tipo de agonia de vazio, todo seu sentimento foi desperdiçado, só se aproveita aqui a sua poesia, que é o meio mais uma vez em que a ilusão é uma perfeição que é cheia e repleta de viço diante de um mundo humano oco, sem corações e prazeres, no que temos : “Que liras estaladas no bordel!/E que poetas que perdeu o mundo/Em Bocage e Marlowe!/Morrer! ali na sombra – na taverna” (...) “Ó meus amigos, deve ser terrível/Sobre as tábuas imundas, inda ebrioso,/Na solidão morrer!/Sentir as sombras dessa noite horrível/Surgirem dentre o leito pavoroso .../Sem um Deus para crer!/Sentir que a alma, desbotado lírio,/Dum mundo ignoto vagará chorando/Na treva mais escura ...”. A boêmia e o confronto com a presença divina se dão aqui num súbito, e a terrível morte, e a vida ébria, e o lírio que retrata a alma desbotada, o poeta está sucumbindo, este aqui está em ruínas, e o poema conclama, num esforço brutal, como um grito de agonia, no que segue : “Perdoa-lhes, meu Deus! o sol da vida/Nas artérias inflama o sangue em lava/E o cérebro varia ...” (...) “São tristes deste século os destinos!” (...) “Fora belo talvez, em pé, de novo/Como Byron surgir” (...) “Fora belo talvez sentir no crânio/A alma de Goethe, e resumir na fibra/Milton, Homero e Dante/_ Sonhar-se num delírio momentâneo,/A alma da criação e o som que vibra/A terra palpitante!/Mas ah! o viajor nos cemitérios/Nessas nuas caveiras não escuta/Vossas almas errantes ...”. Os poetas supremos são evocados, em vão, a morte sonha e delira com o coração do poeta que sabe que os destinos deste seu século são vácuos numa poesia que faz luta inglória contra o inferno do sentimento e do excesso que reina no mundo, com a boêmia sendo apenas um último rincão da ilusória e falsa plenitude, e o poeta que está entre o sublime da poesia e o abjeto da vida carnal e mortal, no que segue : “Eu, pobre sonhador – eu, terra inculta/Onde não fecundou-se uma semente,/Convosco dormirei :” (...) “Ó morte! a que mistério me destinas?” (...) “Meu Deus! antes, meu Deus! que uma outra vida,/Com teu braço eternal meu ser esmaga/E minha alma aniquila :/A estrela de verão no céu perdida/Também às vezes seu alento apaga/Numa noite tranquila! ...”. A alma aqui se encerra na noite mais profunda, o poema sucumbe com o poeta e seus sentidos em desordem e habitante do mundo da dor.
 
POEMAS:
 
TARDE DE VERÃO
 
Como cheirosa e doce a tarde expira!
De amor e luz inunda a praia bela :
E o sol já roxo e trêmulo desdobra
Um íris furta-cor na fronte dela.
 
Deixai que eu morra só! enquanto o fogo
Da última febre dentro em mim vacila,
Não venham ilusões chamar-me à vida,
De saudades banhar a hora tranquila!
 
Meu Deus! que eu morra em paz! Não me coroem
De flores infecundas a agonia!
Oh! não doure o sonhar do moribundo
Lisonjeiro pincel da fantasia!
 
Exaurido de dor e d `esperança
Posso aqui respirar mais livremente,
Sentir ao vento dilatar-se a vida,
Como a flor da lagoa transparente!
 
Se ela estivesse aqui! no vale agora
Cai doce a brisa morna desmaiando :
Nos murmúrios do mar fora tão doce
Da tarde no palor viver amando!
 
Uni-la ao peito meu – nos lábios dela
Respirar uma vez, cobrando alento;
À divina visão de seus amores
Acordar o meu peito inda um momento!
 
Fulgura a minha amante entre meus sonhos,
Como a estrela do mar nas águas brilha;
Bebe à noite o favônio em seus cabelos
Aroma mais suave que a baunilha.
 
Se ela estivesse aqui! jamais tão doce
O crepúsculo o céu embelecera,
E a tarde de verão fora mais bela
Brilhando sobre a sua primavera!
 
Da lânguida pupila de seus olhos
Num olhar a desdém entorna amores,
Como à brisa vernal na relva mole
O pessegueiro em flor derrama flores.
 
Árvore florescente desta vida,
Que amor, beleza, e mocidade encantam,
Derrama no meu seio as tuas flores
Onde as aves do céu à noite cantam!
 
Vem! a areia do mar cobri de flores,
Perfumei de jasmins teu doce leito;
Podes suave, ó noiva do poeta,
Suspirosa dormir sobre meu peito!
 
Não tardes, minha vida! no crepúsculo
Ave da noite me acompanha a lira ...
É um canto de amor ... Meu Deus! que sonhos!
Era ainda ilusão – era mentira!
 
SAUDADES
 
Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi,
E às primaveras digo adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!
 
Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento ...
De fogosas visões nutri meu peito ...
Vinte anos! ... não vivi um só momento!
 
Contudo no passado uma esperança
Tanto amor e ventura prometia,
E uma virgem tão doce, tão divina
Nos sonhos junto a mim adormecia! ...
 
Quando eu lia com ela – e no romance
Suspirava melhor ardente nota,
E Jocelyn sonhava com Laurence
Ou Werther se morria por Carlota,
 
Eu sentia a tremer, e a transluzir-lhe
Nos olhos negros a alma inocentinha,
E uma furtiva lágrima rolando
Da face dela umedecer a minha!
 
E quantas vezes o luar tardio
Não viu nossos amores inocentes?
Não embalou-se da morena virgem
No suspirar, nos cânticos ardentes?
 
E quantas vezes não dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas ...
E que o céu ia abrir-se, e entre os anjos
Eu ia me acordar em noites puras!
 
Foi esse o amor primeiro – requeimou-me
As artérias febris de juventude,
Acordou-me dos sonhos da existência
Na harmonia primeira do alaúde!
 
Meu Deus! e quantas eu amei! ... Contudo
Das noites voluptuosas da existência
Só restam-me saudades dessas horas
Que iluminou tua alma d ´inocência!
 
Foram três noites só ... três noites belas
De lua e de verão, no val saudoso ...
Que eu pensava existir ... sentindo o peito
Sobre teu coração morrer de gozo!
 
E por três noites padeci três anos,
Na vida cheia de saudade infinda ...
Três anos de sofrer – e espero ainda!
 
A ti ergueram meus doridos versos,
Reflexos sem calor de um sol intenso :
Votei-os à imagem dos amores
P`ra velá-la nos sonhos como incenso!
 
Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d`esperança!
Mas hoje o coração desbota, esfria,
E do peito no túmulo descansa!
 
Pálida sombra dos amores santos,
Passa, quando eu morrer, no meu jazigo :
Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,
E lá na morte eu sonharei contigo!
 
HINOS DO PROFETA
 
UM CANTO DO SÉCULO
 
Debalde nos meus sonhos de ventura
Tento alentar minha esperança morta
E volto-me ao porvir;
A minha alma só canta a sepultura,
E nem última ilusão beija e conforta
Meu suarento dormir ...
 
Debalde! que exauriu-me o desalento :
A flor que aos lábios meus um anjo dera
Mirrou na solidão ...
Do meu inverno pelo céu nevoento
Não se levantará nem primavera
Nem raio de verão!
 
Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer ...
As minhas veias inda ardentes correm,
E na febre da vida agonizando
Eu me sinto morrer!
 
Tenho febre – meu cérebro transborda ...
Eu morrerei mancebo, inda sonhando
Da esperança o fulgor!
Oh! cantemos ainda! a última corda
Inda palpita ... morrerei cantando
O meu hino de amor!
 
Meu sonho foi a glória dos valentes,
De um nome de guerreiro a eternidade
Nos hinos seculares :
Foi nas praças, de sangue ainda quentes,
Desdobrar o pendão da liberdade
Nas frontes populares!
 
Meu amor foi a verde laranjeira,
Cheia de sombra, à noite abrindo as flores
Melhor que ao meio-dia;
A várzea longa – a lua forasteira
Que pálida como eu, sonhando amores,
De névoa se cobria.
 
Meu amor foi o sol que madrugava,
O canto matinal dos passarinhos
E a rosa predileta ...
Fui um louco, meu Deus! quando tentava
Descorado e febril manchar nos vinhos
Meus louros de poeta!
 
Meu amor foi o sonho dos poetas
- O belo – o gênio – de um porvir liberto
A sagrada utopia.
E à noite pranteei como os profetas,
Dei lágrimas de sangue no deserto
Dos povos à agonia!
 
Meu amor! ... foi a mãe que me alentava,
Que viveu e esperou por minha vida
E pranteia por mim ...
E a sombra solitária que eu sonhava
Lânguida como vibração perdida
De roto bandolim ...
 
E agora o único amor ... o amor eterno
Que no fundo do peito aqui murmura
E acende os sonhos meus,
Que lança algum luar no meu inverno,
Que minha vida no penar apura,
É o amor de meu Deus!
 
É só no eflúvio desse amor imenso
Que a alma derrama as emoções cativas
Em suspiros sem dor :
E no vapor do consagrado incenso
Que as sombras da esperança redivivas
Nos beijam o palor!
 
Eu vaguei pela vida sem conforto,
Esperei minha amante noite e dia
E o ideal não veio ...
Farto de vida, breve serei morto ...
Nem poderei ao menos na agonia
Descansar-lhe no seio!
 
Passei como Don Juan entre as donzelas,
Suspirei as canções mais doloridas
E ninguém me escutou ...
Oh! nunca à virgem flor das faces belas
Sorvi o mel, nas longas despedidas ...
Meu Deus! ninguém me amou!
 
Vivi na solidão – odeio o mundo,
E no orgulho embucei meu rosto pálido
Como um astro nublado ...
Ri-me da vida – lupanar imundo
Onde se volve o libertino esquálido
Na treva ... profanado!
 
Quantos hei visto desbotarem frios,
Manchados de embriaguez da orgia em meio
Nas infâmias do vício!
E quantos morrerão inda sombrios
Sem remorso dos negros devaneios ...
Sentindo o precipício!
 
Quanta alma pura, e virgem menestrel
Que adormeceu no tremedal sem fundo,
No lodo se manchou!
Que liras estaladas no bordel!
E que poetas que perdeu o mundo
Em Bocage e Marlowe!
 
Morrer! ali na sombra – na taverna
A alma que em si continha um canto aéreo
No peito solitário!
Sublime como a nota obscura, eterna,
Que o bronze vibra em noites de mistério
No escuro campanário!
 
Ó meus amigos, deve ser terrível
Sobre as tábuas imundas, inda ebrioso,
Na solidão morrer!
Sentir as sombras dessa noite horrível
Surgirem dentre o leito pavoroso ...
Sem um Deus para crer!
 
Sentir que a alma, desbotado lírio,
Dum mundo ignoto vagará chorando
Na treva mais escura ...
E o cadáver sem lágrima, sem círio,
Na calçada da rua, desbotando,
Não terá sepultura!
 
Perdoa-lhes, meu Deus! o sol da vida
Nas artérias inflama o sangue em lava
E o cérebro varia ...
O século na vaga enfurecida
Mergulha a geração que se acordava ...
E nuta de agonia!
 
São tristes deste século os destinos!
Seiva mortal as flores que despontam
Infecta em seu abrir –
E o cadafalso e a voz dos Girondinos
Não falam mais na glória e não apontam
A aurora do porvir!
 
Fora belo talvez, em pé, de novo
Como Byron surgir – ou na tormenta
O homem de Waterloo :
Com sua ideia iluminar um povo,
Como o trovão da nuvem que rebenta
E o raio derramou!
 
Fora belo talvez sentir no crânio
A alma de Goethe, e resumir na fibra
Milton, Homero e Dante
_ Sonhar-se num delírio momentâneo,
A alma da criação e o som que vibra
A terra palpitante!
 
Mas ah! o viajor nos cemitérios
Nessas nuas caveiras não escuta
Vossas almas errantes ...
Do estandarte medonho nos impérios
A morte, leviana prostituta,
Não distingue os amantes!
 
Eu, pobre sonhador – eu, terra inculta
Onde não fecundou-se uma semente,
Convosco dormirei :
E dentre nós a multidão estulta
Não vos distinguirá a fronte ardente
Do crânio que animei ...
 
Ó morte! a que mistério me destinas?
Esse átomo de luz que inda me alenta,
Quando o corpo morrer,
Voltará amanhã aziagas sinas
Na terra numa face macilenta
Esperar e sofrer?
 
Meu Deus! antes, meu Deus! que uma outra vida,
Com teu braço eternal meu ser esmaga
E minha alma aniquila :
A estrela de verão no céu perdida
Também às vezes seu alento apaga
Numa noite tranquila! ...
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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