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Risco à natureza gera efeito bolha em turismo de Santa Teresa


04/10/2017 às 13:56
Santa Teresa continua sendo a cidade dos colibris. Mas agora ela também é polo gastronômico da culinária italiana, é a primeira cidade brasileira fundada por imigrantes italianos, é a capital capixaba da uva e do vinho, é destaque na produção de hortifrutigranjeiro, é a terra do festival de jazz, etc. A fama de cada uma dessas atrações cresceu, e cada vez mais visitantes e migrantes são atraídos para a cidade – isto é, para o recanto de natureza exuberante nas montanhas, onde os turistas se abrigam quando “fogem” da cidade. 
Na última década, o Turismo deixou de ser uma atividade de férias para se tornar um fenômeno complexo, que envolve comportamento humano, uso de recursos, interação com outras pessoas e participação na economia e na responsabilidade socioambiental. 
 
Em Santa Teresa, o setor socioeconômico se alinha cada vez mais com seu potencial turístico, tanto agregando mudanças ao comércio tradicional quanto trazendo grandes investimentos privados exógenos. Esses são os casos, por exemplo, da feira livre realizada nas manhãs de sábado, que já oferece produtos orgânicos e atende também ao público de fora da cidade; e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senca), recentemente instalado na cidade. 
 
É visível que o desenvolvimento de Santa Teresa tem sido norteado pelo crescimento do turismo e seu potencial. Mas, ainda hoje, não podemos visualizar a direção desse desenvolvimento. Se todos potenciais turísticos do município serão mantidos, ou se alguns enfraquecerão em detrimento do beneficio de outros. 
 
Em outras palavras, o turismo no município “corre solto” e parece estar sem controle, o que pode ter um preço alto demais. O turismo descontrolado pode custar os recursos naturais, a identidade, a qualidade de vida, e o próprio turismo. Não é à toa que a estratégia das regiões turísticas mais cobiçadas do mundo concentra-se em panejar o crescimento sem comprometer o patrimônio natural, evitando, de toda forma, o comercialismo agressivo, pois esse pode facilmente acabar com o charme, a beleza e a cultura local. 
 
Infelizmente, o histórico recente de atividades impactantes que afetam o turismo no município não permite conclusões positivas em relação ao aspecto qualitativo do turismo, apesar do aumento quantitativo de modificações realizadas.
 
Acontece que o desenvolvimento da cidade anda para trás ao mesmo tempo em que anda para frente. Por exemplo: o município perdeu seu destacamento de policiamento ambiental, o que é obviamente prejudicial ao meio ambiente, e tem contribuído para a realização de desmatamentos ilegais e crescimento desordenado, desamparando o controle do crescente setor imobiliário na zona rural; diversos trechos da cidade receberam asfaltamento por cima do pavimento de pedras sem a inclusão de sistemas de coleta pluvial, acarretando alagamentos que se estendem às calcadas de pedestres, prejudicando a mobilidade urbana; carece de controle rígido de resíduos de agrotóxicos, que contaminam cursos d’ água ao longo de propriedades particulares. 
 
Simultaneamente, o município escapou de receber uma penitenciária federal, bem como ampliar seu lixão (localizado próximo aos remanescentes florestais) para receber grandes quantidades de detritos de todo Estado; conseguiu R$ 962,1 mil para ações de redução erosiva do solo e recuperação ambiental de 20 hectares na Bacia do Rio Santa Maria do Doce; evitou que um casarão do centro histórico fosse demolido e promovesse o aumento do tráfego de caminhões grandes pelo centro da cidade; busca meios de implementar Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
 
A prática contínua de ações deméritas ao meio ambiente e ausência de perspectivas de melhorias concretas que assegurem as paisagens cênicas e os recursos naturais do município colocam o turismo de Santa Teresa em uma bolha especulativa. Essa bolha está crescendo, e caso o meio ambiente, beleza cênica e história regional não sejam assegurados, ela irá estourar junto ao seu charme e potencial de atração.
 
Por fim, a solução desse problema não deve ser encarada como um fator dependente, onde o turismo requer sustentabilidade. A condicionante do turismo nos moldes modernos precisa focar em agregar sustentabilidade para a população, ajudando na preservação de recursos naturais para futuras gerações. E essas condições são politicamente defensíveis, por se tratarem de necessidades econômicas.
 

Piero Ruschi é biólogo, doutor em zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ, e atuante nas áreas de Biodiversidade Genética, Evolução, Conservação da Natureza e Responsabilidade Socioambiental
 

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