Seculo

 

Organização do Festival Performe-Se se posiciona sobre queixas de artistas negros locais


05/10/2017 às 19:12
A organização do festival Performe-Se: Fronteiras borradas | Fronteiras erguidas, que aconteceu em Vitória entre o dia 27 de setembro e o último sábado (30) se posicionou sobre a queixa de artistas negros capixabas sobre a mínima representatividade de artistas negros capixabas na programação do evento. No dia da abertura do festival, em 27 de setembro, um grupo de artistas fez a performance Fronteiras Bordadas, uma forma de protesto contra a baixa representatividade de performers negros capixabas no festival.

De acordo com a organização do festival, o evento – realizado com recursos do Funcultura da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) – teve quatro dias com 18 performances presenciais, sendo 12 selecionadas por meio de edital público de caráter nacional e os outros seis de artistas convidados. O evento envolveu uma mostra de vídeo-performance com 10 projetos também selecionados por chamamento público e oportunizou espaços de debate e diálogo em cinco ações como mesas de debate e palestras. Houve ainda uma leitura aberta de portfólios com a participação de cinco artistas locais e a realização de oficinas para quatro turmas distintas.

A organização ressalta que qualquer processo de seleção artística e trabalho curatorial envolvem uma série de escolhas que, inevitavelmente, não contemplam a totalidade de uma dada produção cultural. “É sempre uma aposta porque apresenta um recorte específico, porém a organização do festival abordou de forma muito séria e comprometida o debate racial e garantiu o protagonismo de pessoas negras em seus diversos espaços: na organização, entre artistas participantes, nas temáticas abordadas, nos locais escolhidos para as apresentações e ainda nas ações educativas”, diz o comunicado dos organizadores.

A convocatória pública de trabalhos de performance e vídeo-performance não estabeleceu, entre os critérios de seleção, cotas étnico-raciais, para trabalhos locais e, tampouco, fazia qualquer distinção entre o tempo de carreira dos performers. Por isso, a organização pontua, a cobrança feita por alguns artistas de que a organização do Performe-Se foi omissa à questão étnica-racial e que preteriu jovens artistas negros residentes no Espírito Santo não procede. Segundo os organizadores, situação alegada não condiz com o contexto real da organização do festival.

Por meio de edital público, divulgado nacionalmente, foram analisadas 200 propostas na categoria performance presencial e 70 vídeo-performances. Entre os 12 contemplados em performance presencial, três são residentes no Espírito Santo e dois deles se autodeclaram negros, sendo que uma das proposições contou com outros nove artistas negros moradores de regiões periféricas da Grande Vitória. As performances referidas são: "Batalha All Style - Amaciando o piso" organizada pelo artista Chapolin, apresentada na Galeria de Arte e Pesquisa (GAP/Ufes) e "Experimento_AP001" uma parceira de Natan Dias e Giulia Bravo, realizada no Museu Capixaba do Negro (Mucane).

Os demais artistas selecionados são de diversos outros estados do País. Entre eles, outros três artistas negros foram contemplados, sendo eles Priscila Rezende (MG), Tiago Sant'Ana (BA) e Marcel Diogo (MG). Os dois primeiros apresentaram suas pesquisas em performances voltadas para as narrativas da população negra. No que diz respeito aos convidados no total, o festival recebeu dez artistas-pesquisadores (pós-doutores, doutores, doutorandos, mestres e especialistas). Também houve convite à artista negra e professora doutora Renata Felinto (CE) coordenadora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Cariri (URCA), que realizou a performance "Axexê da Negra ou o descanso de todas as pretas que mereciam serem amadas" no Centro de Artes (CAr) da Universidade Federal do Estado (Ufes) e a palestra "Performar a Vida" no Mucane.

A organização aponta que a programação também envolveu ações de cunho educativo e que foram realizadas três oficinas em espaços de serviços municipais de convivência, foram eles o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), no bairro de Resistência, Casa da Juventude, localizada no bairro de São Pedro e Núcleo Afro Odomodê, no Centro da Capital. A oficina no Odomodê foi finalizada com uma intervenção urbana desenvolvida pelo público do núcleo. De acordo com a classificação municipal, todos os bairros citados são considerados locais em estado de vulnerabilidade social. Ainda na perspectiva de formação de público, pelos processos de arte-educação foi oferecida uma oficina a alunos do ensino fundamental da Escola Municipal Experimental Ufes.

Segundo a organização, a reflexão ativada pelo Festival Performe-Se: Fronteiras Borradas | Fronteiras Erguidas teve como objetivo propor o diálogo poético e político gerado por meio das contradições sociais e consequente tomada de consciência das diferentes experiências do corpo na sociedade. Dessa forma, todas as atividades do evento abordaram de forma diversificada (aberta ao público) as questões que permeiam os debates de gênero, raça, sistema da arte, educação entre outros.

“Propor o debate sobre os territórios conceituais, sociais, políticos e subjetivos no campo da arte e ainda sugerir um espaço de reflexão prático-teórico sobre as fronteiras foram objetivos que, desde início da concepção do Festival, já se colocavam como um desafio para a comissão de seleção e equipe de organização. Como tratar no campo da arte das barreiras e da engrenagem que as erguem e as diluem? Como torcer as relações entre as fronteiras que determinam o sistema da arte e suas instituições (artista, público, museu, espaços independentes, academia etc.)? Como borrar as concepções do lugar da arte e do artista? Essas foram algumas questões que nortearam os discussões e a programação do Performe-Se.

A programação do Performe-Se 2017 representou o desejo de dar visibilidade a projetos locais e nacionais em performance que articulam por meio de atravessamentos distintos as inquietações levantadas pelo evento. Dessa forma, a organização do Festival encerra este primeiro encontro com a certeza de ter proporcionado experiências importantes para a arte da performance em Vitória”, finaliza a organização.

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