Seculo

 

Ajuste fiscal, a 'isca' do negócio


16/10/2017 às 23:52
Não é segredo para ninguém que o terceiro mandato do governo Paulo Hartung (PMDB) tem como eixo central a política de ajuste fiscal. É nesse apelo que o governador vem concentrando sua estratégia de marketing. Antes mesmo de se sentar na cadeira de governador Hartung já prevenia a população para tempos difíceis. 
 
A gestão austera promoveu cortes lineares em todas as áreas, não poupando as essenciais, como saúde, segurança e educação. Investimentos foram suspensos, obras paralisadas e os servidores ficaram sem reposição salarial nos três primeiros anos do governo Hartung. Para fora, porém, graças a uma eficiente estratégia de comunicação, o governador tornou-se o “queridinho” do mercado. O gestor que encontrou a equação perfeita para domar e vencer a crise econômica. 
 
Se internamente Hartung colhe impopularidade, para fora ele ainda consegue capitalizar dividendos em cima da imagem de gestor-modelo. Nestes quase três anos de governo, o clipping de Hartung está empilhado de matérias positivas dos principais veículos de comunicação do País. A mais recente foi publicada no último sábado (14) no Estadão. Sob o título “Contas públicas viram ‘isca’ para atrair investidor”, o abre da matéria destaca: “Saída para o mar, estradas recapeadas, redução de impostos e contas no azul. No Brasil da crise fiscal, os cofres públicos menos problemáticos viraram iscas para atrair investidores aos Estados e municípios em melhor situação”.
 
Os atrativos ou “iscas” fazem referência aos Estados do Ceará e Espírito Santo. A reportagem destaca que os governadores adotaram uma estratégia pouco comum: passaram a fazer publicidade de seus Estados para atrair investidores de outros regiões do País. Nas peças publicitários, os governadores exaltam que seus Estados são sustentáveis e seguros para investir. 
 
Para traduzir em números o sucesso do Ceará e Espírito Santo, a reportagem recorre a um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) para mostrar que os dois Estados estão entre os que gastam menos com pessoal em relação à Receita Corrente Líquida: Ceará é o quinto (49,3%) e o Espírito Santo o oitavo (51,9%). 
 
Faltou a matéria esclarecer, porém, que quando o assunto é investimento a diferença entre os dois Estados é abissal. O governo do petista Camilo Santana, segundo dados da Firjan, investiu 11,1% da Receita Corrente Líquida, o que põe o Estado nordestino no topo da lista nacional. O “badalado” Espírito Santo de Hartung é só o vigésimo no ranking, com investimentos na ordem de módicos 4% - quase um terço do investimento cearense. Só investiram menos que o Espírito Santo, Paraná, Roraima, Distrito Federal, Minas Gerais, Goiás, Amapá e Rio Grande do Sul. 
 
Esforçando-se para defender o peixe capixaba, o secretário de Planejamento e Economia, Régis Mattos, destaca alguns atributos do Estado. “O empresário premia a responsabilidade fiscal. Se vier para cá, os funcionários vão poder usar a rede pública de educação com tranquilidade e os fornecedores vão receber em dia do Estado”.
 
Quanto ao pagamento em dia, pode até ser, mas a rede estadual de Educação deixa a desejar. O deputado-educador Sergio Majeski (PSDB), que nos últimos 30 meses visitou mais de 200 escolas estaduais em diversos municípios capixabas, com certeza não endossaria a propaganda de Mattos. 
 
O deputado tem denunciado o abandono das escolas públicas, que carecem de investimentos. Ele também tem criticado o fechamento de unidades escolares e salas de aula, além de condenar o uso marqueteiro do programa Escola Viva. Aliás, por falar em escolas em tempo integral, o governador cearense dá uma surra no colega capixaba. Hartung tem feito um grande estardalhaço com as 17 unidades do Escola Viva inauguradas. O Ceará tem 189 escolas em período integral, com mais de 65 mil alunos matriculados. 
 
Ao contrário de Hartung, que contratou mais de 11 mil professores em designação temporária, Camilo Santana está finalizando os preparativos para um grande concurso. Enquanto Hartung fecha escolas, o petista estabelece metas ousadas para 2018: quer inaugurar 100 novas escolas. O governo cearense também vem incrementando uma política de incentivo aos professores, com o pagamento de gratificações por desempenho. 
 
Se o parâmetro for a qualidade da educação, contrariando Régis Mattos, o investidor vai trocar a moqueca capixaba pela peixada cearense. 

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