Seculo

 

Oásis


21/10/2017 às 17:19
Alguém sabe dizer onde fica o Espírito Santo que o governador Paulo Hartung anda propagandeando por aí? Nesta semana o governador, em entrevista à Rádio Sim-Vitória, voltou a enaltecer sua política fiscal que, segundo ele, deveria servir de inspiração para os colegas governadores e até para o presidente Michel Temer.
 
A narrativa fabulosa trata o Espírito Santo como um oásis em meio ao deserto inóspito de Estados “quebrados” que se transformou o Brasil. Como já se tornou banal, ele volta a escarnecer a situação do vizinho Rio de Janeiro. Na entrevista, questionou: “Quanto tempo o Rio de Janeiro vai gastar para resolver aquela encrenca?”.
 
A entrevista à Rádio Sim adota uma narrativa um pouco diferente da que o governador costuma usar quando fala a veículos da grande imprensa nacional. No rádio, Hartung trocou o economês por um discurso mais popular, comparando, por exemplo, as contas do Estado com as de uma família para explicar o beabá da sua política de ajuste fiscal. Simplificando, quis transmitir que as despesas não podem superar as receitas. O tal do passo maior que a perna.
 
Independentemente da diferença da linguagem dirigida à elite da imprensa nacional ou a veículos com apelo mais popular, a narrativa segue basicamente o mesmo roteiro: exaltar a política fiscal como modelo de sucesso a ser seguido pelo restante do País; mostrar que mesmo com os cortes o governo tem conseguido fazer entregas sociais importantes; tratar a crise da PM como um problema superado; e apontar perspectivas mais otimistas para 2018, não por coincidência, ano eleitoral.
 
Na entrevista de mais de meia-hora à Rádio Sim, sabendo que falava ao povão, a mensagem chega a ser pedagógica, como se Hartung estivesse fazendo o resumo dos três anos de seu governo pela primeira vez.
 
Ele conta que herdou um “Estado quebrado” do antecessor Renato Casagrande (PSB) e precisou arrumar novamente a casa. Hartung recorda que desde a campanha alertava que o Brasil e o Espírito Santo estavam no caminho errado e que a roda do tempo provou que seu diagnóstico estava correto. 
 
Disse que, apesar das críticas à sua política de austeridade, sabia que estava fazendo a coisa certa. Nesse ponto da narrativa ele costuma trazer exemplos de Estados que estão em crise. O Rio de Janeiro tem sido seu exemplo predileto. Reconhece que não pôde conceder reposições salariais ao funcionalismo, como gostaria, mas que os servidores capixabas têm recebido em dia. A mensagem é direta: “enquanto os vizinhos fluminenses estão na pindaíba, vocês não podem reclamar de barriga cheia: estão recebendo em dia”. Moral da história: pedir reposição salarial é um disparate ante a situação de funcionários que estão sem salários. Na narrativa de Hartung, a obrigação do governo de honrar a folha do funcionalismo virou sucesso de gestão.
 
É preciso reconhecer que Hartung foi visionário. Desde seu primeiro dia de governo Hartung planejou trabalhar a crise como oportunidade. Impondo cortes lineares em todas as secretárias e paralisando investimentos, o ajuste fiscal passou a ser a maior conquista do seu governo. Na entrevista, ele enaltece que mesmo promovendo uma rigorosa política de austeridade ainda conseguiu fazer investimentos importantes na área social. Cita três programas em áreas essenciais que expõe na parte mais alta da sua vitrine de governo: o Escola Viva, segundo ele, um programa inovador na área de educação; o Ocupação Social, que promete promover a inclusão social dos jovens das periferias – principais autores e vítimas da violência; e o Rede Cuidar, que considera uma iniciativa revolucionária na área da saúde – que só tem implantado depois de três anos de governo o primeiro núcleo de cinco previstos. 
 
Hartung não se furta em falar da pior crise do seu governo por um motivo muito simples. Assim como a crise econômica virou uma oportunidade, o governador trata a crise da PM como um problema superado e pedagógico para o seu governo e para o País. Isso mesmo, a greve da PM que deixou o Espírito Santo 22 dois dias de cabeça para baixo, com um rastro de mais de 200 homicídios, virou, pasmem, um caso de sucesso na visão de Hartung. 
 
Ele afirma, sem ruborizar, que o enfrentamento da crise com “equilíbrio e diálogo” serviu como aprendizado para o resto do País. Ele chega a afirmar que o sucesso do Espírito Santo na gestão da crise foi determinante para que movimentos semelhantes não se alastrassem para outros Estados. Em outras palavras, quis dizer que sua habilidade em gerir a crise “salvou o Brasil”. 
 
De olho na reeleição, Hartung finaliza a longa entrevista tentando passar um recado mais otimista. Admite que pretende conceder algum reajuste ao funcionalismo e dá sinais que a economia começa a reagir à crise. Um discurso mais do que óbvio. Mesmo porque, seria difícil subir ao palanque para pedir mais um mandato, oferecendo aos eleitores mais quatro anos do Espírito Santo do ajuste fiscal. Porque esse outro Espírito Santo que o governador vende, os capixabas ainda não conhecem.

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