Seculo

 

Agora eu ‘se’ consagro


26/10/2017 às 13:18
O jornalista Milton Leite, um dos melhores locutores de futebol do País, tem um bom repertório de bordões na ponta da língua para destacar, positiva ou negativamente, alguns lances do jogo. Por exemplo, quando um jogador pensa em fazer uma jogada espetacular, mas, que, no final, resulta num tremendo “garrancho”, o locutor costuma soltar o bordão: “Agora eu ‘se’ consagro”.
 
A expressão deve ter passado pela cabeça do deputado estadual Euclério Sampaio (PDT) ao propor o Projeto de Lei 383/2017, na última segunda-feira (23), que proíbe exposições artísticas e culturais com “teor pornográfico”. Ao ver o PL ser aprovado maciçamente pelos colegas de plenário — apenas o deputado Sergio Majeski (PSDB) votou contra —, Euclério deve ter pensado: “Agora eu ‘se’ consagro”. 
 
Enfatizando a importância de defender a família, o deputado emendou: “Não existiria sociedade se não existisse família. Isso é voltar à barbárie. Essas exposições são a porta para o incentivo ao estupro”, disse em tom de indignação o pedetista.
 
Como não poderia ser diferente, o projeto está causando grande polêmica. A parcela mais conservadora da sociedade, obviamente, aplaudiu a proposição do deputado. De outro lado, segmentos mais progressistas repudiaram a iniciativa, considerando-a retrógada, sobretudo os artistas.
 
Não é o caso aqui de reescrever os argumentos repetidos à exaustão desde que a polêmica em torno das exposições Queermuseu, em Porto Alegre, e a mais recente, no Museu de Arte de Moderna de São Paulo, veio à tona. Nos dois casos ficou evidente o despropósito de tentar enquadrar a arte como conteúdo pornográfico, dando azo a iniciativas que coíbem um dos ativos mais valiosos da democracia: a liberdade de expressão. 
 
No caso específico do PL de Euclério fica patente, além de todas as incongruências contidas nessas propostas retrógadas, o oportunismo extremo do deputado. O projeto, provavelmente feito às pressas, é um conjunto mal-ajambrado de cinco artigos que deve ser vetado pelo governador Paulo Hartung (PMDB), se ele tiver juízo, por causa da inconstitucionalidade. 
 
Inconstitucionalidade à parte, a defesa de Euclério ao projeto reforça o oportunismo e a debilidade da proposta. Isso ficou evidente na entrevista do deputado à rádio BandNews FM (24/10/2017). O jornalista Antônio Carlos Leite bem que tentou confrontar a proposta, mas o deputado, sem argumentos para defender o PL, preferiu ser rude com o âncora. Em um trecho da entrevista, para não responder à pergunta, o pedetista chegou a desqualificar o conhecimento do jornalista sobre o assunto. “Você não conhece o projeto? Não leu as emendas?”. 
 
As perguntas de Leite, objetivas e bem embasadas, deixavam o deputado cada vez mais irritado. O jornalista questionou se a decisão de autorizar o filho a visitar uma exposição não deveria partir dos pais. Euclério alegou que às vezes os pais querem corrigir, “mas não corrigem porque não podem dar umas palmadas nos filhos porque é proibido”. Leite intervém. “Mas deputado, isso é agressão”. Euclério: “Não é agressão é correção”. Leite: “A palmada é proibida porque é violência”. Euclério: “Ah, Violência! É por isso que o mundo está deste jeito”. A afirmação não deixa dúvida que o deputado defende o método da violência para educar os filhos. Por dedução, pelas declarações de Euclério, bater nos filhos pode deixar o mundo melhor.
 
As declarações desastradas mostravam que o deputado estava cada vez mais perdido. Ele tentou ponderar que seu projeto ficou mais consistente com as emendas das deputadas Janete de Sá (PMN) e Luzia Toledo. Disse que as emendas ajudavam a definir, como inquiria o jornalista, como classificar o que é ou não pornográfico. Euclério ressaltou que o projeto não vetava obras de artistas renomados e da cultura indígena. 
 
A justificativa vaga suscitou a pergunta inevitável do jornalista. Leite queria saber como identificar um “artista renomado”. A resposta mostrou, mais uma vez, a debilidade do projeto: “Se você não sabe, meu amigo...”. E recomendou em seguida: “Você deveria ler o projeto antes de me entrevistar”. 
 
A defesa do projeto revela um deputado despreparado e desesperado para conquistar votos de olho na reeleição. É o oportunismo levado ao extremo com o intuito de se dar bem nas urnas. Como diria Milton Leite: “Meeeeu Deus!”

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