Seculo

 

A estátua de Drummond


02/11/2017 às 00:07
O poeta Carlos Drummond de Andrade levou um chute na cara, digo, sua estátua levou um chute na cara. Passo pelo calçadão de Copacabana quase todos os dias para fazer a minha caminhada de oito quilômetros, e nesses dias não fui, ainda não vi o resultado de mais um ataque contra o Drummond, digo, a estátua, ou melhor, o Drummond. Tem um tal do fetiche pelos seus óculos, suas hastes são tentadoras ao vândalo, o burro fundamental da nossa espécie, que também pode ser brilhante com Drummond, mas que vive uma decadência cultural enorme que tem como resultado um cara de madrugada chutar a cara do Drummond.
 
Sua obra vastíssima é uma das mais abrangente da poesia brasileira, sem falar das crônicas, também valorosas. Drummond é o poeta do boitempo, de alguma poesia e do claro enigma, conhece, vândalo? Vou te apresentar o poeta da pedra no caminho e da quadrilha, ele é legal, não precisa chutá-lo, a poesia não é um monstro incompreensível, e não é por você não entender poesia que tem que chutá-la. Repito, meu caro vândalo, Drummond é gente boa, mas você não o conhece, e ficou com raivinha de uma estátua estar ali plena no seu banquinho contemplando a madrugada, fenômeno da noite que você, vândalo, também não entende, pois você não entende nada.
 
Drummond, meu caro vândalo, recebe agora e sempre um grande reconhecimento, um cara que foi funcionário público, pois poesia não dá dinheiro, com exceção do Nobel que foi Pablo Neruda, é bem difícil um poeta viver de poesia, poetas vivem de jornal ou de aulas, ou outra atividade inusitada. Quer dizer, Drummond, meu caro vândalo, pode lhe explicar a noite e a madrugada, e você pode melhorar as suas prioridades, pois não é porque você não entende que não existe. Drummond existe, está aí, mas você não sabia. Meu caro vândalo, vou te explicar uma coisa : bater em estátuas é burrice, elas não sentem dor, são inanimadas, e bater numa estátua de uma pessoa que você não sabe quem é, por favor, foi mais burro ainda.
 
Agora vivemos o paradoxo de uma obra que virou cânone, ensinado nas escolas, um Drummond que a maioria ama, pois já vi uma moça tirando selfie e beijando a estátua do Drummond, sim, esta estátua já recebeu vários carinhos, vamos ser justos. Mas, não sei, tem gente que tem problemas com hastes de óculos e estátuas, um ódio primal, filho da burrice, um ódio gratuito contra a cultura, que em sua manifestação, sem falar apenas do vandalismo, vai pela rota conhecida do anti-intelectualismo e do recalque contra a imaginação dos escritores e artistas.
 
Vivemos cercados por um ódio contra a cultura que, no caso do vandalismo, é uma burrice tonta e voluntária. E temos também, falando da burrice voluntária, o caso da anti-literatura dos que gostam de dizer que são fodões da vivência, certamente regada a álcool, isto depois de ficar enfurnado num escritório, e achando um pintor, um youtuber, um ator, uma atriz, um cineasta, um poeta, todos vagabundos, que não trabalham, isto é, não lambem as botas de um sistema que sempre foi anti-intelectualista e que sempre fechou as portas para artistas e sobretudo poetas, que o diga os inéditos, estes que mandam livros para editoras que não respondem, o que é um hábito já de muitos anos, o fenômeno espetacular do editor mudo, do editor esnobe que só trabalha com indicação, do editor blasé que não gosta de inéditos.
Pois sim, Drummond levou um chute na cara, ou melhor, a poesia e todos os poetas brasileiros levaram um chute na cara. Somos sistematicamente subestimados, poetas sempre foram a poeira do cocô do cavalo do bandido, já passou da hora da sociedade acordar e respeitar todo o processo histórico inexorável da produção literária, o mundo hostil contra o que é literário tem que ter um fim, não gostamos de levar chute na cara, ninguém gosta, não gostamos de editoras que não leem nossos inéditos, nem que seja para dizer que foram recusados.
 
Não gostamos de levar chute na cara, Drummond quer seus óculos de volta, roubar seus óculos é exatamente a miopia existencial de um cegueta que não tem lente e nem sabe quem foi Drummond, ele não sabe, ele não sabe de nada, e de outro lado a decadência e o ódio à cultura nos leva a um mundo aparentemente funcional que censura a criatividade, que sabota, limita, mente, ignora, finge que não vê, e nos dá mais um chute na cara.
 
Drummond e sua estátua estão expostas ao fracasso cultural e intelectual de uma sociedade e de um mundo que deveria respeitar estes poetas, poetas não escrevem para levar chute na cara, nem bomba e nem tiro, um cientista não trabalha pelo progresso humano para ser assassinado na esquina, como foi meu irmão, uma pessoa brilhante que partiu e que sei que um dia vou rever.
 
A cultura tem que estar na frente, ela é o veículo nobre do conhecimento, urbano ou acadêmico. O respeito às manifestações artísticas são a chave de mudança de uma parte da sociedade que vê a arte como coisa pouca, de gente que não trabalha, acha que poetas fazem sabonete de hotel, souvenir, e não trabalho sério, parte de um processo histórico cada vez mais necessário e que deve ser encarado como tal, numa sociedade que não fecha as portas para seus artistas, poetas, pensadores e cientistas, uma sociedade do conhecimento que supere a decadência cultural, do ódio anti-intelectual, do modelo pragmático que nunca entendeu metáfora ou alegoria, que nunca entendeu nada que não seja funcional, isto na concepção deles.
 
A decadência cultural é aquela que não entende arte e poesia, e resolve chutá-la, ou varrer os escombros de um monstro para debaixo do tapete, pois isto também, para variar, eles não entendem. E quem não entende, passa a odiar, e aí chuta. A decadência cultural tem este resultado, uma estátua que já foi vandalizada onze vezes. Meu caro vândalo, eu sei que você não vai entender isto que estou lhe dizendo, pois você não vai ler esta crônica, vai estar chutando a cultura que você não lê, não conhece, e que vai morrer sem entender. E uma das coisas mais tristes do mundo é um homem ou mulher viver e morrer sem ter entendido nada, triste.
 
Mas, o poeta levar chute na cara, os artistas, intelectuais e cientistas, todos nós, diante da decadência cultural, levamos chute e tiro por sermos assim, livres, pois quem é preso é o vândalo, prisioneiro de sua estultícia, o bandido que tem um ódio contra uma estátua que ele nem faz ideia do que se trata, a única ideia brilhante dele foi chutar a estátua, mas nem assim foi original, roubou as hastes que foram roubadas por outros com o mesmo tino para a criatividade da ignorância. Os vândalos de Drummond são mais inanimados do que uma estátua.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 

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