Seculo

 

Augusto dos Anjos: perspectiva crítica


06/11/2017 às 08:49

PERSPECTIVA CRÍTICA - PARTE II

Dos críticos apologistas temos exemplos como Antônio Torres, que produziu seu artigo sobre Augusto dos Anjos logo depois da morte deste poeta. Nela vemos levantadas algumas das influências do poeta como as de Haeckel e de Spencer, cientistas da época do poeta, e que lhe incutiram as ideias monistas e materialistas. Mas logo a crítica é uma apologia, não uma crítica estética ou reflexiva, e que vem com questões sobre a personalidade do poeta mais do que o significado de seus poemas enquanto tais.  Mais um exemplo da profusão da crítica impressionista sobre o poeta, a qual grassou na primeira geração de críticos de sua obra.

É bom frisar que Antônio Torres leu apenas a edição dos poemas do Eu, ou seja, a primeira edição de 1912, e não a segunda edição de 1920, a qual incluiu as Outras Poesias, esta edição que então recebe o prefácio de Órris Soares, com o livro que agora recebia o título Eu e Outras Poesias. Órris Soares tem este mérito de ter publicado os poemas inéditos de Augusto dos Anjos, pois o material que foi publicado como Outras Poesias certamente era para um segundo livro do poeta, cujo andamento tinha sido cessado com a sua morte.

E o prefácio de Órris Soares tem muita importância, pois seguiu nas diversas edições do livro do poeta e virou uma referência, mesmo que fosse mais um exemplo de apologia e não de crítica literária como tal. Este crítico, mesmo tendo o mérito do prefácio que se torna histórico e uma das referências principais sobre a obra de Augusto dos Anjos, é mais um crítico impressionista e apologista que se funda em aspectos exteriores à obra em si do poeta, na sua heroicização, numa visão romantizada e idealizada de uma suposta singularidade especial capaz de decifrar a natureza essencial da realidade, e mais uma vez nos deparamos com uma crítica que mistura vida e obra.

Na crítica de João Ribeiro, então, vemos um dos extremos a que se chega tal crítica impressionista, numa mistificação da doença do poeta, como definidora da obra, uma visão ingênua que se funda mais no contexto do que na obra em si. E temos também com João Ribeiro uma das críticas mais superficiais feitas sobre a obra de Augusto dos Anjos.  

E temos uma melhor crítica, finalmente, com Agripino Grieco, este que é o destaque positivo desta primeira geração de críticos da obra de Augusto dos Anjos. Um grupo ainda caracterizado pelo impressionismo, com este crítico já mais atento ao léxico da obra do poeta, mesmo que ainda com um caráter apologista em certos momentos.

José Oiticica, por sua vez, como amigo do poeta que foi, destaca sua crise financeira, esta como determinante de sua obra, o que mais uma vez representa uma visão rasa, que ilustra, mas que não ganha caráter teórico ou propriamente crítico. Aqui vemos, por fim, um conjunto de críticos apologistas e impressionistas que se ligam ao entorno do poeta e não à sua obra, uma crítica ainda rasa e ingênua.

 

POEMAS :

 

O LUPANAR : O poema abre com a trama do homem lascivo, que se expande em uma grande sede, no que temos : “Ah! Por que monstruosíssimo motivo/Prenderam para sempre, nesta rede,/Dentro do ângulo diedro da parede,/A alma do homem polígamo e lascivo?!/Este lugar, moços do mundo, vede :/É o grande bebedouro coletivo,/Onde os bandalhos, como um gado vivo,/Todas as noites, vêm matar a sede!”. E o poeta logo convida a todos para este grande banquete em que a promiscuidade é a lei e em que se mata a força geradora das coisas, o último óvulo do ventre, no que temos : “Em que é mister que o gênero humano entre,/Quando a promiscuidade aterradora/Matar a última força geradora/E comer o último óvulo do ventre!”. A poesia de Augusto dos Anjos aqui tem a força natural descritiva bem potente e com bom conhecimento científico, como vemos em grande parte de sua obra, que é riquíssima em referências biológicas.

 

IDEALISMO : O poema tem este caráter rarefeito da presença do amor na poesia de Augusto dos Anjos, no que temos : “Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!/O amor na Humanidade é uma mentira./É. E é por isto que na minha lira/De amores fúteis poucas vezes falo.” (...) “Pois é mister que, para o amor sagrado,/O mundo fique imaterializado” (...) “E haja só amizade verdadeira/Duma caveira para outra caveira,/Do meu sepulcro para o teu sepulcro ?!”. Logo a morte e suas referências, como a caveira e o sepulcro detonam qualquer possível veia romântica que porventura o poeta poderia revelar, doce ilusão.

 

ÚLTIMO CREDO : A morte é um tipo de última prova de fé, o cemitério, que tem aqui a via para o transcendente, um mistério que, no entanto, por ser exercício de fé e de espírito, busca convergência ou ainda a essência das coisas, no que temos : “Como ama o homem adúltero o adultério/E o ébrio a garrafa tóxica de rum,/Amo o coveiro – este ladrão comum/Que arrasta a gente para o cemitério!/É o transcendentalíssimo mistério!/É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,/É a morte, é esse danado número Um/Que matou Cristo e que matou Tibério!”. E Augusto dos Anjos então antevê a si mesmo como o homem universal do mundo vindouro, uma espécie de teor visionário que deixaria a sua carcaça de homem individual para trás, no que temos : “Creio, perante a evolução imensa,/Que o homem universal de amanhã vença/O homem particular que eu ontem fui!”.

 

SOLILÓQUIOS DE UM VISIONÁRIO : O mistério se junta aqui ao fenômeno da decomposição, que é bem descrito na metáfora da antropofagia, na fome dos vermes que moram nas terra e no cemitério, no que temos : “Para desvirginar o labirinto/Do velho e metafísico Mistério,/Comi meus olhos crus no cemitério,/Numa antropofagia de faminto!” (...) “Vestido de hidrogênio incandescente,/Vaguei um século, improficuamente,/Pelas monotonias siderais .../Subi talvez às máximas alturas,/Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,/É necessário que inda eu suba mais!”. A alma vai às alturas siderais, cai e deseja subir mais uma vez, e a imagem da decomposição, da fome e da morte, junta-se a um esgar de um espírito imortal, sidéreo e que vai às máximas alturas.

 

OS DOENTES : Temos aqui uma das mais ricas descrições da tísica feita por um poeta, este poema brilha e nos dá uma sucessão brutal do que é esta doença em forma de poesia, um poeta que faz seus versos definirem com precisão cirúrgica este tipo de inferno de tosse que é a tísica, no que temos : “Dormia embaixo, com a promíscua véstia/No embotamento crasso dos sentidos,/A comunhão dos homens reunidos/Pela camaradagem da moléstia./Feriam-me o nervo óptico e a retina/Aponevroses e tendões de Aquiles,/Restos repugnantíssimos de bílis,/Vômitos impregnados de ptialina./Da degenerescência étnica do Ária/Se escapava, entre estrépitos e estouros,/Reboando pelos séculos vindouros,/O ruído de uma tosse hereditária/Oh! desespero das pessoas tísicas,”. E o teor evolutivo também vira tema, e a boca vem com catarro e sangue, no que temos : “Descender dos macacos catarríneos,/Cair doente e passar a vida inteira/Com a boca junto de uma escarradeira,/Pintando o chão de coágulos sanguíneos!” (...) “Falar somente uma linguagem rouca,/Um português cansado e incompreensível,/Vomitar o pulmão na noite horrível/Em que se deita sangue pela boca!”. A morte, então, encerra o discurso poético, com uma coda fatal, cortante, o imposto que toda vida orgânica paga ao fim é a morte, a tal da impermanência das coisas, e a doença é um dos agentes especiais da indesejada morte, que o poeta bem vê ao fim de seu poema, no que temos : “E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba/A erguer, como um cronômetro gigante,/Marcando a transição emocionante/Do lar materno para a catacumba!” (...) “Porque a morte, resfriando-vos o rosto,/Consoante a minha concepção vesânica,/É a alfândega, onde toda a vida orgânica/Há de pagar um dia o último imposto!”.

 

VOZES DE UM TÚMULO : A morte do poeta está aqui bem consciente, ele a descreve, com intuito narrativo, num jogo de moléstias e com a presença tétrica do cemitério, no que temos : “Morri! E a Terra – a mãe comum – o brilho/Destes meus olhos apagou! ... Assim/Tântalo, aos reais convivas, num festim,/Serviu as carnes do seu próprio filho!/Por que para este cemitério vim?!/Por quê?! Antes da vida o angusto trilho/Palmilhasse, do que este que palmilho/E que me assombra, porque não tem fim!” (...) “Hoje que apenas sou matéria e entulho/Tenho consciência de que nada sou!”. Por mais alta que seja a sua poesia, o poeta diante da morte sabe que não é nada.

 

GEMIDOS DE ARTE : O poema vem num clima geral de desilusão, o que deixa o poeta acabrunhado, limitado, dentro de um redemoinho que lhe estrangula com a angústia que vira uma tortura insuportável, os versos fluem numa dorida descrição de sua pena de mágoas : “Esta desilusão que me acabrunha/É mais traidora do que o foi Pilatos! ...” (...) “Em giro e em redemoinho em mim caminham/Ríspidas mágoas estranguladoras,”. E o poeta deseja que um raio de Jeová lhe fulminasse, destruindo até o seu raciocínio, no que temos : “Ah! Por que desgraçada contingência/À híspida aresta sáxea áspera e abrupta/Da rocha brava, numa ininterrupta/Adesão, não prendi minha existência?!/Por que Jeová, maior do que Laplace,/Não fez cair o túmulo de Plínio/Por sobre todo o meu raciocínio/Para que eu nunca mais raciocinasse?!”. E o poema segue em seu desejo de estar em outro lugar, queria o poeta então : “Quisera antes, mordendo glabros talos,/Nabucodonosor ser no Pau d`Arco,/Beber a acre e estagnada água do charco,/Dormir na manjedoura com os cavalos!/Mas a carne é que é humana! A alma é divina.”. E o divino e transcendente lhe é um desejo caríssimo, é seu anelo maior neste poema, no que temos : “Soberano desejo! Soberana/Ambição de construir para o homem uma/Região, onde não cuspa língua alguma/O óleo rançoso da saliva humana!/Uma região sem nódoas e sem lixos,/Subtraída à hediondez de ínfimo casco,”. Enfim, desejo de estar em outro lugar, este desejo comum do sofrimento e da angústia, no que segue : “Outras constelações e outros espaços/Em que, no agudo grau da última crise,/O braço do ladrão se paralise/E a mão da meretriz caia aos pedaços!”.

 

DEPOIS DA ORGIA : O poema é promíscuo, e que vem como a descrição da orgia, no que temos :“O prazer que na orgia a hetaíra goza/Produz no meu sensorium de bacante/O efeito de uma túnica brilhante” (...) “Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,/O sistema nervoso de um gigante/Para sofrer na minha carne estuante/A dor da força cósmica furiosa./Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia/Que ao comércio dos homens me traz presa,/Livre deste cadeado de peçonha,/Semelhante a um cachorro de atalaia/Às decomposições da Natureza/Ficar latindo minha dor medonha!”. E a presença da morte da imagem da decomposição é o cenário em que a Natureza age, e o poeta late como um cão a sua dor que ele define como medonha.

 

VENCIDO : O poeta descreve aqui o vencido, que começa lendo tudo, desde o mito mais primitivo, no que temos : “No auge de atordoadora e ávida sanha/Leu tudo, desde o mais prístino mito,” (...) “Acometido de uma febre estranha/Sem o escândalo fônico de um grito,/Mergulhou a cabeça no Infinito,/Arrancou os cabelos na montanha!/Desceu depois à gleba mais bastarda,”. Diante do infinito no qual mergulha, o vencido então esbarra na doença, na sua maldição em que nasceu, em que o poema se encerra, assim : “E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria/O vencido pensava que cuspia/Na célula infeliz de onde nasceu.”.

 

NOITE DE UM VISIONÁRIO : O poeta descreve aqui uma saga da luta entre o conhecimento e a união monística com o todo contra a sua dissolução numa carne liquefeita, ou ainda a parte corrupta de seu ser orgânico, que é tão potente, que a ideia de alma aqui se torna inútil e até ridícula, no que temos, num panteísmo que é em vão, o poeta e suas alusões desesperadas, no que segue : “Número cento e três. Rua Direita./Eu tinha a sensação de quem se esfola/E inopinadamente o corpo atola/Numa poça de carne liquefeita!” (...) “É a potencialidade que me eleva/Ao grande Deus, e absorve em cada viagem/Minh`alma – este sombrio personagem/Do drama panteístico da treva!/Depois de dezesseis anos de estudo/Generalizações grandes e ousadas/Traziam minhas forças concentradas/Na compreensão monística de tudo./Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme/Me aspergia, banhava minhas tíbias,”. A ação natural aqui é como um ente destrutivo, que lhe esfola a alma, lhe retira as partes, lhe quebra e lhe leva ao hospício, no que temos : “Arimânico gênio destrutivo/Desconjuntava minha autônoma alma” (...) “E eu saí a tremer com a língua grossa/E a volição no cúmulo do exício,/Como quem é levado para o hospício/Aos trambolhões, num canto de carroça!”. E vem então a sucessão dos vermes, os agentes principais da decomposição, soldados da finitude e comedores da morte, no que temos : “Bulia nos obscuros labirintos/Da fértil terra gorda, úmida e fresca,/A ínfima fauna abscôndita e grotesca/Da família bastarda dos helmintos.”. E o poema ganha em grandiosidade na descrição alarmante dos seres corruptíveis, e aqui com seus agentes da morte, que é nada mais que a sucessão dos seres repugnantes, os vermes, e o poema então dá a sua carga dramática quando nos diz diante da finitude orgânica que o motor teleológico da vida para, e a matéria finita então se dissolve, num poema verminoso e mortal, no que temos : “E no estrume fresquíssimo da gleba/Formigavam, com a símplice sarcode,/O vibrião, o ancilóstomo, o colpode/E outros irmãos legítimos da ameba!/E todas essas formas que Deus lança/No Cosmos, me pediam, com o ar horrível,/Um pedaço de língua disponível/Para a filogenética vingança!/A cidade exalava um podre bafio:/Os anúncios das casas de comércio,/Mais tristes que as elegias de Propércio,/Pareciam talvez meu epitáfio./O motor teleológico da Vida/Parara! Agora, em diástoles de guerra,/Vinha do coração quente da terra/Um rumor de matéria dissolvida.”. O poema então aqui condensa tal ação destruidora da natureza como um destino universal, e no qual o poeta é puxado como que para um abismo : “Dedos denunciadores escreviam/Na lúgubre extensão da rua preta/Todo o destino negro do planeta,/Onde minhas moléculas sofriam./Um necrófilo mau forçava as lousas/E eu – coetâneo do horrendo cataclismo –/Era puxado para aquele abismo/No redemoinho universal das cousas!”.

 

POEMAS :

 

O LUPANAR

 

Ah! Por que monstruosíssimo motivo

Prenderam para sempre, nesta rede,

Dentro do ângulo diedro da parede,

A alma do homem polígamo e lascivo?!

 

Este lugar, moços do mundo, vede :

É o grande bebedouro coletivo,

Onde os bandalhos, como um gado vivo,

Todas as noites, vêm matar a sede!

 

É o afrodisíaco leito do hetairismo,

A antecâmara lúbrica do abismo,

Em que é mister que o gênero humano entre,

 

Quando a promiscuidade aterradora

Matar a última força geradora

E comer o último óvulo do ventre!

 

IDEALISMO

 

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!

O amor na Humanidade é uma mentira.

É. E é por isto que na minha lira

De amores fúteis poucas vezes falo.

 

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!

Quando, se o amor que a Humanidade inspira

É o amor do sibarita e da hetaira,

De Messalina e de Sardanapalo?!

 

Pois é mister que, para o amor sagrado,

O mundo fique imaterializado

- Alavanca desviada do seu fulcro –

 

E haja só amizade verdadeira

Duma caveira para outra caveira,

Do meu sepulcro para o teu sepulcro ?!

 

ÚLTIMO CREDO

 

Como ama o homem adúltero o adultério

E o ébrio a garrafa tóxica de rum,

Amo o coveiro – este ladrão comum

Que arrasta a gente para o cemitério!

 

É o transcendentalíssimo mistério!

É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,

É a morte, é esse danado número Um

Que matou Cristo e que matou Tibério!

 

Creio, como o filósofo mais crente,

Na generalidade decrescente

Com que a substância cósmica evolui ...

 

Creio, perante a evolução imensa,

Que o homem universal de amanhã vença

O homem particular que eu ontem fui!

 

SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO

 

Para desvirginar o labirinto

Do velho e metafísico Mistério,

Comi meus olhos crus no cemitério,

Numa antropofagia de faminto!

 

A digestão desse manjar funéreo

Tornado sangue transformou-me o instinto

De humanas impressões visuais que eu sinto,

Nas divinas visões do íncola etéreo!

 

Vestido de hidrogênio incandescente,

Vaguei um século, improficuamente,

Pelas monotonias siderais ...

 

Subi talvez às máximas alturas,

Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,

É necessário que inda eu suba mais!

 

OS DOENTES

 

(obs : aqui temos apenas um trecho do poema que achei interessante)

 

III

Dormia embaixo, com a promíscua véstia

No embotamento crasso dos sentidos,

A comunhão dos homens reunidos

Pela camaradagem da moléstia.

 

Feriam-me o nervo óptico e a retina

Aponevroses e tendões de Aquiles,

Restos repugnantíssimos de bílis,

Vômitos impregnados de ptialina.

 

Da degenerescência étnica do Ária

Se escapava, entre estrépitos e estouros,

Reboando pelos séculos vindouros,

O ruído de uma tosse hereditária.

 

Oh! desespero das pessoas tísicas,

Adivinhando o frio que há nas lousas,

Maior felicidade é a destas cousas

Submetidas apenas às leis físicas!

 

Estas, por mais que os cardos grandes rocem

Seus corpos brutos, dores não recebem;

Estas dos bacalhaus o óleo não bebem,

Estas não cospem sangue, estas não tossem!

 

Descender dos macacos catarríneos,

Cair doente e passar a vida inteira

Com a boca junto de uma escarradeira,

Pintando o chão de coágulos sanguíneos!

 

Sentir, adstritos ao quimiotropismo

Erótico, os micróbios assanhados

Passearem, como inúmeros soldados,

Nas cancerosidades do organismo!

 

Falar somente uma linguagem rouca,

Um português cansado e incompreensível,

Vomitar o pulmão na noite horrível

Em que se deita sangue pela boca!

 

Expulsar, aos bocados, a existência

Numa bacia autômata de barro,

Alucinado, vendo em cada escarro

O retrato da própria consciência!

 

Querer dizer a angústia de que é pábulo,

E com a respiração já muito fraca

Sentir como que a ponta de uma faca,

Cortando as raízes do último vocábulo!

 

Não haver terapêutica que arranque

Tanta opressão como se, com efeito,

Lhe houvessem sacudido sobre o peito

A máquina pneumática de Bianchi!

 

E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba

A erguer, como um cronômetro gigante,

Marcando a transição emocionante

Do lar materno para a catacumba!

 

Mas vos não lamenteis, magras mulheres,

Nos ardores danados da febre hética,

Consagrando vossa última fonética

A uma recitação de misereres.

 

Antes levardes ainda uma quimera

Para a garganta omnívora das lajes

Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes

Contra a dissolução que vos espera!

 

Porque a morte, resfriando-vos o rosto,

Consoante a minha concepção vesânica,

É a alfândega, onde toda a vida orgânica

Há de pagar um dia o último imposto!

 

VOZES DE UM TÚMULO

 

Morri! E a Terra – a mãe comum – o brilho

Destes meus olhos apagou! ... Assim

Tântalo, aos reais convivas, num festim,

Serviu as carnes do seu próprio filho!

 

Por que para este cemitério vim?!

Por quê?! Antes da vida o angusto trilho

Palmilhasse, do que este que palmilho

E que me assombra, porque não tem fim!

 

No ardor do sonho que o fronema exalta

Construí de orgulho ênea pirâmide alta ...

Hoje, porém, que se desmoronou

 

A pirâmide real do meu orgulho,

Hoje que apenas sou matéria e entulho

Tenho consciência de que nada sou!

 

GEMIDOS DE ARTE

 

I

Esta desilusão que me acabrunha

É mais traidora do que o foi Pilatos! ...

Por causa disto, eu vivo pelos matos,

Magro, roendo a substância córnea da unha.

 

Tenho estremecimentos indecisos

E sinto, haurindo o tépido ar sereno,

O mesmo assombro que sentiu Parfeno

Quando arrancou os olhos de Dionisos!

 

Em giro e em redemoinho em mim caminham

Ríspidas mágoas estranguladoras,

Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras

Brônzeas, também giram e redemoinham.

 

Os pães – filhos legítimos dos trigos –

Nutrem a geração do Ódio e da Guerra ...

Os cachorros anônimos da terra

São talvez os meus únicos amigos!

 

Ah! Por que desgraçada contingência

À híspida aresta sáxea áspera e abrupta

Da rocha brava, numa ininterrupta

Adesão, não prendi minha existência?!

 

Por que Jeová, maior do que Laplace,

Não fez cair o túmulo de Plínio

Por sobre todo o meu raciocínio

Para que eu nunca mais raciocinasse?!

 

Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles

Carinhos, com que guarda meus sapatos,

Por que me deu consciência dos meus atos

Para eu me arrepender de todos eles?!

 

Quisera antes, mordendo glabros talos,

Nabucodonosor ser no Pau d`Arco,

Beber a acre e estagnada água do charco,

Dormir na manjedoura com os cavalos!

 

Mas a carne é que é humana! A alma é divina.

Dorme num leito de feridas, goza

O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,

Beija a peçonha, e não se contamina!

 

Ser homem! escapar de ser aborto!

Sair de um ventre inchado que se anoja,

Comprar vestidos pretos numa loja

E andar de luto pelo pai que é morto!

 

E por trezentos e sessenta dias

Trabalhar e comer! Martírios juntos!

Alimentar-se dos irmãos defuntos,

Chupar os ossos das alimarias!

 

Barulho de mandíbulas e abdomens!

E vem-me com um desprezo por tudo isto

Uma vontade absurda de ser Cristo

Para sacrificar-me pelos homens!

 

Soberano desejo! Soberana

Ambição de construir para o homem uma

Região, onde não cuspa língua alguma

O óleo rançoso da saliva humana!

 

Uma região sem nódoas e sem lixos,

Subtraída à hediondez de ínfimo casco,

Onde a forca feroz coma o carrasco

E o olho do estuprador se encha de bichos!

 

Outras constelações e outros espaços

Em que, no agudo grau da última crise,

O braço do ladrão se paralise

E a mão da meretriz caia aos pedaços!

 

DEPOIS DA ORGIA

 

O prazer que na orgia a hetaíra goza

Produz no meu sensorium de bacante

O efeito de uma túnica brilhante

Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

 

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,

O sistema nervoso de um gigante

Para sofrer na minha carne estuante

A dor da força cósmica furiosa.

 

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia

Que ao comércio dos homens me traz presa,

Livre deste cadeado de peçonha,

 

Semelhante a um cachorro de atalaia

Às decomposições da Natureza

Ficar latindo minha dor medonha!

 

VENCIDO

 

No auge de atordoadora e ávida sanha

Leu tudo, desde o mais prístino mito,

Por exemplo : o do boi Ápis do Egito

Ao velho Niebelungen da Alemanha.

 

Acometido de uma febre estranha

Sem o escândalo fônico de um grito,

Mergulhou a cabeça no Infinito,

Arrancou os cabelos na montanha!

 

Desceu depois à gleba mais bastarda,

Pondo a áurea insígnia heráldica da farda

À vontade do vômito plebeu ...

 

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria

O vencido pensava que cuspia

Na célula infeliz de onde nasceu.

 

NOITE DE UM VISIONÁRIO

 

Número cento e três. Rua Direita.

Eu tinha a sensação de quem se esfola

E inopinadamente o corpo atola

Numa poça de carne liquefeita!

 

- “Que esta alucinação tátil não cresça!”

- Dizia; e erguia, oh! céu, alto, por ver-vos

Com a rebeldia acérrima dos nervos

Minha atormentadíssima cabeça.

 

É a potencialidade que me eleva

Ao grande Deus, e absorve em cada viagem

Minh`alma – este sombrio personagem

Do drama panteístico da treva!

 

Depois de dezesseis anos de estudo

Generalizações grandes e ousadas

Traziam minhas forças concentradas

Na compreensão monística de tudo.

 

Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme

Me aspergia, banhava minhas tíbias,

E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias,

Cortando o melanismo da epiderme.

 

Arimânico gênio destrutivo

Desconjuntava minha autônoma alma

Esbandalhando essa unidade calma,

Que forma a coerência do ser vivo.

 

E eu saí a tremer com a língua grossa

E a volição no cúmulo do exício,

Como quem é levado para o hospício

Aos trambolhões, num canto de carroça!

 

Perante o inexorável céu aceso

Agregações abióticas espúrias,

Como uma cara, recebendo injúrias,

Recebiam os cuspos do desprezo.

 

A essa hora, nas telúricas reservas,

O reino mineral americano

Dormia, sob os pés do orgulho humano,

E a cimalha minúscula das ervas.

 

E não haver quem, íntegra, lhe entregue,

Com os ligamentos glóticos precisos,

A liberdade de vingar em risos

A angústia milenária que o persegue!

 

Bulia nos obscuros labirintos

Da fértil terra gorda, úmida e fresca,

A ínfima fauna abscôndita e grotesca

Da família bastarda dos helmintos.

 

As vegetalidades subalternas

Que os serenos noturnos orvalhavam,

Pela alta frieza intrínseca, lembravam

Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.

 

E no estrume fresquíssimo da gleba

Formigavam, com a símplice sarcode,

O vibrião, o ancilóstomo, o colpode

E outros irmãos legítimos da ameba!

 

E todas essas formas que Deus lança

No Cosmos, me pediam, com o ar horrível,

Um pedaço de língua disponível

Para a filogenética vingança!

 

A cidade exalava um podre bafio:

Os anúncios das casas de comércio,

Mais tristes que as elegias de Propércio,

Pareciam talvez meu epitáfio.

 

O motor teleológico da Vida

Parara! Agora, em diástoles de guerra,

Vinha do coração quente da terra

Um rumor de matéria dissolvida.

 

A química feroz do cemitério

Transformava porções de átomos juntos

No óleo malsão que escorre dos defuntos,

Com a abundância de um geyser deletério.

 

Dedos denunciadores escreviam

Na lúgubre extensão da rua preta

Todo o destino negro do planeta,

Onde minhas moléculas sofriam.

 

Um necrófilo mau forçava as lousas

E eu – coetâneo do horrendo cataclismo –

Era puxado para aquele abismo

No redemoinho universal das cousas!


 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 

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