Seculo

 

Dois anos de impunidade


06/11/2017 às 12:39
Nesse domingo (5), o crime da Samarco-Vale-BHP Billiton completou dois anos. Jornais de todo o País registraram a data para fazer um balanço da maior tragédia ambiental do Brasil. O deslocamento de mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama destruiu comunidades inteiras ao longo do trajeto de 663 km do rio Doce entre Minas Gerais e Espírito Santo. No Estado, onde se localiza a foz do rio, os impactos se estenderam para todo o litoral norte capixaba.
 
Dois anos depois, resta evidente que o crime das mineradoras segue impune. Além das 19 vidas que a lama sorveu, os impactos ambientais e sociais são incalculáveis e ainda estão muito longe de serem, ao menos, mitigados. 
 
Reportagem de Século Diário publicada nesse domingo (5) destacou justamente o padecimento das comunidades impactadas pela tragédia. Não bastasse todo o sofrimento imposto pela ação irresponsável da Sarmarco-Vale-BHP, as vítimas precisam provar à mineradora que são vítimas.
 
A empresa criou, em 2016, a Fundação Renova com o compromisso de reparar e indenizar os atingidos, inclusive de fazer o cadastro. Mas a reportagem de Século Diário e de outros jornais mostraram que as vítimas têm enfrentado um verdadeiro périplo para fazer o cadastro. “Não quero cesta básica, quero minha dignidade, quero minha identidade de pescadora de volta!”, reivindica a pescadora Creuza Campelo da Silva, nascida e criada na comunidade de Campo Grande, em São Mateus, norte do Estado.
 
O desabafo da pescadora reflete a indignação das comunidades afetadas pela lama ante o descaso da mineradora e do poder público. Dois anos depois da tragédia, ninguém está preso, ninguém foi criminalmente responsabilizado. Das mais de 60 multas aplicadas por órgãos federais e estaduais de MG e do ES, apenas duas foram pagas. A empresa aposta na condescendência do poder público para se manter impune. 
 
O governador Paulo Hartung (PMDB) é um dos agentes públicos que tem defendido com veemência o retorno das atividades da mineradora. Nos últimos meses, ele tem feito articulações intensas com o governo federal, pleiteando a liberação das operações da Samarco. Recentemente Hartung se reuniu com o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, ampliando seu lobby em Brasília a favor da empresa. 
 
O mesmo afinco e dedicação, porém, o governador não tem mostrado para pressionar a Samarco a assumir os danos ambientais e sociais causados às comunidades capixabas vítimas da lama. Muito ao contrário, o governador está interessado apenas em liberar as amarras que impedem a Samarco de retomar suas operações.
 
Com a narrativa deste terceiro mandato apoiada numa política espartana de ajuste fiscal — escondendo os reveses sociais desse arrocho —, Hartung vem repetindo à imprensa nacional que os resultados fiscais do Espírito Santo só não são melhores em razão na inatividade da Samarco. Com esse raciocínio, o governador impõe a volta da mineradora como condição sine qua non para a economia do Estado decolar de vez. 
 
“A Samarco é uma empresa de impacto econômico nacional. Estamos defendendo a volta do funcionamento da empresa, mas com absoluta segurança”. Essa é uma das frases-feitas que Hartung tem repetido para defender o retorno das atividades da mineradora. Os relatos de descaso das vítimas registrados na reportagem de Século Diário e de tantas outras publicadas por outros veículos nos últimos dias mostram que o trecho da frase de Hartung (“mas com absoluta segurança”) é um grande engodo. O governador, não é segredo para ninguém, sempre pôs os interesses econômicos à frente dos da população. O episódio do descaso às vítimas da Samarco deixa claro para quem Hartung governa.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Mais um 'lote'

Depois de conseguir o controle do PSDB e retomar o do DEM, Hartung se volta para um antigo aliado: o PDT

OPINIÃO
Piero Ruschi
Perseguição à honra de Ruschi
Infelizmente, de nada valeram meus 14 anos de contribuição mediante a minha postura de defender o Museu Mello Leitão, criado por meu pai
Renata Oliveira
Cidadãos ilustres
Assembleia deve tomar cuidado com suas medalhas, pois os homenageados de hoje podem ser os apedrejados de amanhã
Gustavo Bastos
Bancas de jornal
A banca de jornal, hoje, é um mundo que tem tudo
JR Mignone
Rádio bandeira
A trajetória deste segmento de rádio em capitais é grande
Geraldo Hasse
Os golpes se sucedem
Em plena era do GPS, a reforma trabalhista sugere multiplicar os ''chapas''
Caetano Roque
Agora é tarde
Não adianta a bancada fazer discurso a favor do trabalhador se ela votou quase à unanimidade a favor do impeachment
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

Quem me ensinou a nadar
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Fuga do Paraíso
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Mais um 'lote'

Operação da Polícia Federal pune empresa que lançava esgoto in natura no Rio Doce

MPES quer reinclusão do fundador da Imetame em ação de improbidade

PDT realiza convenção estadual em dezembro de olho em 2018

Empresários já pressionam Câmara de Vitória por 'ajustes'