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Temporada de chuvas no Estado não afasta ameaça dos agrotóxicos para as abelhas


06/11/2017 às 17:22
A chegada das chuvas em solo capixaba não promete melhorar muito a condição das abelhas, sejam as exóticas (Apis) ou nativas (Meliponas, sem ferrão). Em todas as regiões do Estado, os agricultores, apicultores e meliponicultores observam, em campo, as consequências devastadoras do contato das abelhas com agrotóxicos.

Em Aracruz, o meliponicultor Tiago Barros, da Aldeia Pau Brasil, cria suas 21 colônias em uma área de mata dentro da Terra Indígena e percebeu uma grande redução no número de indivíduos de suas caixas de abelhas sem ferrão há cerca de um mês. Logo suspeitou do uso de agrotóxicos por algum vizinho.

Na primeira averiguação, hipótese confirmada: o Roundup, cujo princípio ativo é o Glifosato, havia sido utilizado na lavoura de café. “Com um manejo certo, acho que em um mês ou dois a gente recupera as colônias”, projeta.

Tiago não buscou comprovação científica para o caso, mas a Ciência já tem farta literatura afirmando o que o produtor observou em campo. A primeira grande mortandade das abelhas melíferas ocorreu em 2006 nos Estados Unidos e, desde então, a ciência vem pesquisando essa relação.

O engenheiro agrônomo Ricardo Braga, membro da Associação de Meliponicultores do Espírito Santo (AME-ES), informa que alguns estudos já constataram a morte de mais de 70% das larvas que tiveram contato com o glifosato.
 
“Onde tem agrotóxicos, elas morrem”, decreta Selene Hammer Tesch, agricultora orgânica em Santa Maria de Jetibá, que observa a letalidade do contatos das pequenas e poderosas polinizadoras com as lavouras convencionais, baseadas no uso de venenos químicos para “controlar as pragas”. “Tem morrido muita colmeia por aqui”, lamenta.

Milho não forma espiga

Na agricultura orgânica, a redução da produtividade, com a morte das abelhas, é um pouco menor, pois as lavouras contam com mais polinizadores, preservam mais espécies de insetos. Mas nas convencionais, e principalmente nas que utilizam variedades transgênicas, então, o fracasso é certo. No milho transgênico, por exemplo, a semente já vem com agrotóxico, então a abelha não consegue polinizar. E na falta de outros insetos, mortos pelos inseticidas ou afastados pela ausência de plantas (pragas) exterminadas pelos herbicidas, as espigas não se desenvolvem. “Não forma espiga”, conta Selene.

E como a agricultura orgânica ainda é uma minoria nos campos do Espírito Santo – em Santa Maria de Jetibá, município de maior produção orgânica do Estado, apenas 1,5% das propriedades são certificadas – e do Brasil, o impacto do uso excessivo de agrotóxicos promete causar problemas em escala industrial para o agronegócio.

Um alerta recente nesse sentido foi dado pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, em artigo publicado na edição de outubro da revista Globo Rural e comentado pelo colunista deste Século Diário, Geraldo Hasse.

No texto, o ex-ministro, que é agriculto e consultor da Fundação Getúlio Vargas e da ONU, afirma que “No Brasil, cerca de 250 espécies de animais (das quais 87% são abelhas) polinizam 75 culturas agrícolas”.

US$ 12 bilhões

Em seu artigo, Geraldo Hasse cita estudos do professor Adilson Paschoal, da Escola Superior de Agricultura de Piracicaba, indicando que “a contribuição anual da polinização ao incremento das culturas comerciais brasileiras é estimada em US$ 12 bilhões”, o que representa cerca de 12% do valor da produção agrícola nacional.

Fala também que a produção brasileira de mel, atualmente em 40 mil toneladas por ano – metade dela exportada – poderia ser superior a 200 mil toneladas por ano. E o principal gargalo está no uso excessivo de agrotóxicos.

“Ainda não se sabe como agricultores e apicultores vão sair dessa sinuca. Como os desmatamentos estão mais ou menos controlados, o maior obstáculo à expansão da apicultura é o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras comerciais”.

“Não há sustentabilidade”, critica Ricardo Braga, referindo-se à agricultura convencional, baseada em “cidas”. A cultura do veneno é tão forte no país, que até na cidade, as abelhas não estão tendo segurança pra se desenvolver.

As colônias urbanas, cada vez mais difundidas entre os meliponicultores, sofrem muito com o famoso “fumacê”. Esses inseticidas em spray, usados no controle de mosquitos, especialmente os transmissores de dengue, zika e chikungunya, são os inimigos número um das polinizadoras urbanas. “Algumas prefeituras, sensibilizadas, têm informado a rota do carro fumacê para os criadores poderem fechar as caixas de abelhas por dois dias, minimizando as mortes”, conta.

As abelhas percorrem distâncias consideráveis, que dificultam muito sua segurança contra agrotóxicos aplicados por pessoas que não sejam os seus cuidadores/produtores. Um quilômetro e meio a dois, no cálculo da pomerana Selene. “Por isso é tão difícil certificar um mel, só propriedades bem grandes, para garantir”, diz.

O aumento no uso de agrotóxicos reduz a população de abelhas, reduzindo a polinização e a produtividade das lavouras alimentícias e os serviços ambientais de milhares de outras plantas nas lavouras e nas florestas. Na mesa do cidadão, o impacto dessa febre por venenos agrícolas não deve tardar a chegar. “Esse ano e ano passado teve pouco mel nas feiras orgânicas. As próximas safras de alimentos devem diminuir também, se nada mudar”, alerta a agricultora. 

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