Seculo

 

Paciência tem limite


08/11/2017 às 13:48
A reportagem de Século Diário se sensibilizou com o desespero da mãe de Thayná Andressa de Jesus Prado. Na entrevista, Clemilda dos Anjos se queixa da morosidade das investigações e faz um desabafo: “Só hoje [terça-feira], 22 dias depois, acharam o carro. É muita falta de consideração. Se fosse filho de rico isso aconteceria?”. 
 
A indignação da mãe de Thayná se justifica. O balanço de 22 dias de investigação, convenhamos, é pífio: a polícia encontrou apenas o veículo usado pelo principal suspeito, Ademir Lucio Ferreira Araújo, 52 anos, que abordou a menina nas proximidades do bairro Industrial, em Viana. 
 
O caso Thayná revela a fragilidade da política de segurança do governo do Estado. A espartana política de ajuste fiscal do governador Paulo Hartung (PMDB) não poupou nem as chamadas áreas essenciais: saúde, segurança e educação. As consequências desse arrocho explicam a greve da Polícia Militar, que ficou 22 dias fora das ruas em fevereiro deste ano, deixando o Espírito Santo de cabeça para baixo. 
 
Os policiais reivindicavam reajustes salariais e melhorias nas condições de trabalho. Em meio ao caos na segurança, a Polícia Civil pegou carona no movimento e também decidiu pôr sua pauta na mesa. As demandas eram bem semelhantes às dos colegas PMs: reajustes dos vencimentos e condições mais dignas de trabalho. Entre outras queixas, os policiais civis criticavam o sucateamento e fechamento de delegacias. Tornou-se pública também a falta de estrutura dos Departamentos Médicos Legais, que com o aumento do número de vítimas de homicídios (mais de 200) entrou em colapso. 
 
A paralisação da PM também desvelou uma crise na cúpula da Segurança Pública. O secretário de Segurança André Garcia não mostrou capacidade de gerir a crise, função que acabou sendo repassada ao secretário de Direitos Humanos, Júlio Pompeu, a quem Hartung confiou o comando das decisões.
 
No caso Thayná, Garcia foi novamente relegado. O governo do Estado nomeou novamente Pompeu como porta-voz do Palácio Anchieta, comprovando que não confia no titular da pasta em momentos de crise. A estratégia, como na greve da PM, é evitar mais desgastes para o governo. O secretário de Segurança, para os estrategistas do governo, tem jogado contra. Ele disse à mãe de Thayná, no vigésimo dia do desaparecimento da menina, que era preciso ter paciência e confiar no trabalho da polícia. 
 
Ora, o secretário poderia pedir tudo, menos paciência para uma mãe que está sem notícias da filha há mais de 500 horas. O próprio Pompeu admitiu que era difícil pedir tranquilidade para a mãe de Thayná naquele momento — em menção velada à frase infeliz do titular da Segurança. 
 
O pedido de paciência do secretário explica o desabafo de Clemilda, quando ela insinua que o empenho do poder público na solução de um crime é dosado de acordo com a condição social da vítima. “Se fosse filho de rico isso aconteceria?”, questiona Clemilda. 
 
O questionamento de Clemilda é respondido todos os dias no noticiário de polícia dos jornais. O Espírito Santo é um dos Estados mais violentos do País. De acordo com os dados do Anuário Nacional de Segurança Pública, divulgados no final de outubro, 1.180 pessoas foram assassinadas no Estado. De janeiro a setembro deste ano, 1.081 entraram para as estatísticas de homicídios. Se seguirmos nesse ritmo, a projeção é fechar este ano com 1.441 mortes, o que representa uma média de quatro pessoas assassinadas por dia. 
 
Dessas mais de mil mortes ocorridas só nos primeiros nove meses de anos, quantas ainda estão na memória do leitor? Se a vítima não for ninguém próximo, o leitor só irá se lembrar dos casos de grande repercussão. Como o brutal assassinato da médica Milena Gottardi, por exemplo. Embora só em 2016, ainda segundo o Anuário, 106 mulheres foram mortas, 34 desses assassinatos foram tipificados como feminicídio, mas, com certeza, o leitor pode varrer sua memória que dificilmente se lembrará dessas 34 vítimas.
 
Esse fato confirma a seletividade das investigações. Trabalhando com recursos tecnicamente precários para empreender investigações muitas vezes complexas, a polícia faz o que pode dentro das suas limitações. A prioridade passa a ser os crimes de grande repercussão social. Dentro dessa lógica, o caso Thayná é um ponto fora da curva. 
 
O desaparecimento de uma menina pobre da periferia de Viana ganhou repercussão depois que a mãe da menina decidiu fazer barulho. Conseguiu por esforços próprios — trabalho que caberia à polícia — as imagens da câmara de um comércio que registrou o momento em que Thayná é abordada pelo criminoso. As imagens repercutiram e chocaram muita gente nas redes sociais, tornando o caso conhecido. A partir daí, a mídia passou a cobrir o caso. A manifestação de rua da última segunda-feira (6) pôs definitivamente o caso Thayná na ordem do dia e fez o poder público começar a se mexer.
 
Se Clemilda fosse uma mãe conformada, acataria resignada o pedido de paciência do secretário André Garcia. Com o passar do tempo, o caso Thayná se diluiria entre tantos outros até ficar esquecido. Em meio ao infortúnio que se abate sobre Clemilda, sorte dela ser impaciente. 

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