Seculo

 

O mórbido e o tétrico na poesia, numa visão crua da realidade


13/11/2017 às 13:25

PERSPECTIVA CRÍTICA 

É a partir dos anos 1950 que surge no Brasil o que será chamado de nova crítica, um trabalho de análise literária que será feito por pesquisadores acadêmicos e não mais por poetas e prosadores com visões apologéticas ou impressionistas, mas sim uma visão estética com embasamento teórico, e que terá sua revolução como crítica literária no Brasil com a figura de Afrânio Coutinho, com os cursos de literatura sendo difundidos na universidade brasileira também neste período de renovação e de revolução da crítica literária brasileira, esta que passou a ser uma prática de pesquisa universitária e não mais amadora.
 
Temos então, nesta série da nova crítica, em relação à obra poética de Augusto dos Anjos, a presença de José Escobar Faria, este que já elaborava a visão da poesia de Augusto dos Anjos como um novo tipo de poesia científica, com construções formais avançadas e inéditas na sua época, com uma riqueza vocabular não apenas no sentido geral, mas de uma linguagem especializada, reveladora de um léxico comum à ciência moderna, mas aplicada à prática da poesia.
 
Esta porta da ciência que tinha influências como Haeckel, Darwin e Spencer, e que também era uma poesia, ao mesmo tempo, mórbida e de uma filosofia que se esgarçava entre o monismo e o dualismo. Com Faria, portanto, inaugurando uma crítica literária dissertativa acerca da obra de Augusto dos Anjos, que até então só tivera o tributo impressionista de seus primeiros críticos.
 
Temos, em seguida, a figura do crítico Eudes Barros, que liga a poesia de Augusto dos Anjos a de Baudelaire, mas não como uma influência direta ou formal, mas de temas, uma vez que ambos os poetas inserem o mórbido e o tétrico na poesia, numa visão crua da realidade que sucede de forma radical toda a afetação de que se nutria, antes, o estro e o lirismo da corrente e do temperamento romântico.
 
Mas um dos críticos literários mais completos que abordará a obra poética de Augusto dos Anjos é a figura de Anatol Rosenfeld, que realiza uma análise interna da obra do poeta, isto é, oposta à apologética impressionista dos primeiros críticos, que viam a vida do poeta refletindo na obra, sem bem perceberem as questões formais e estéticas evidentes que viviam no próprio texto augustiniano.
 
Agora, com Rosenfeld, a crítica literária sobre a obra de Augusto dos Anjos tinha esta nova abordagem mais técnica do conteúdo da obra do poeta, centrando seus esforços por elucidar a temática que vinha de suas metáforas grotescas, de sua dissonância e de suas figuras exóticas, numa poesia que o crítico não olvidava, também, a influência que esta recebia de alguns poetas expressionistas alemães como eram Trakl, Georg Heym e Gottfried Benn, e também, ao fim, Rosenfeld nos revela a matriz filosófica de Augusto dos Anjos na figura de Arthur Schopenhauer.
 
POEMAS
 
VERSOS ÍNTIMOS: Este é um dos poemas mais famosos da obra de Augusto dos Anjos, e tem uma contundência e uma direção reta e precisa, num tiro curto que condensa tudo numa cápsula de poesia bruta, no que temos : “Vês! Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera./Somente a Ingratidão – esta pantera –/Foi tua companheira inseparável!” (...) “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/A mão que afaga é a mesma que apedreja./Se a alguém causa inda pena a tua chaga,/Apedreja essa mão vil que te afaga,/Escarra nessa boca que te beija!”. A relação de ida e volta entre afago e apedrejamento, tem a imagem da mão, esta é que sela o destino e qual é a relação que prevalece, o fósforo e o cigarro só complementam esta visão desolada da vida e do universo que compõem este poema violentíssimo e genial.
 
VENCEDOR: O poema tem o coração indomável do poeta como tema, e este coração aqui tem uma resistência à prova de qualquer investida, no que temos : “Toma as espadas rútilas, guerreiro,” (...) “e doma/Meu coração – estranho carniceiro!/Não podes?! Chama então presto o primeiro/E o mais possante gladiador de Roma.” (...) “Meu coração triunfava nas arenas./Veio depois um domador de hienas/E outro mais, e, por fim, veio um atleta,/Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem .../E não pôde domá-lo enfim ninguém,/Que ninguém doma um coração de poeta!”. A coda arrasa o terreno em que se deu a luta, e o coração do poeta continua livre, sem quem lhe dome ou lhe possua, o poeta resiste contra toda arma e todo domador.
 
POEMA NEGRO: O poema tem uma reflexão sobre a finitude numa poesia macabra que luta com o poeta uma luta vã, no que temos : “Para iludir minha desgraça, estudo./Intimamente sei que não me iludo./Para onde vou (o mundo inteiro o nota)/Nos meus olhares fúnebres, carrego/A indiferença estúpida de um cego” (...) “A passagem dos séculos me assombra.”. E as perguntas fundamentais, fundadoras de toda filosofia logo assomam a mente do poeta neste poema perturbado e angustiado, no que temos : “Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:/- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?/E parece-me um sonho a realidade.” (...) “E muita vez, à meia-noite, rio/Sinistramente, vendo o verme frio/Que há de comer a minha carne toda!/É a Morte – esta carnívora assanhada –/Serpente má de língua envenenada/Que tudo que acha no caminho, come ...”. A Morte aparece em toda a sua plenitude e autoridade, com seu agente, o verme, como aquele que come o que resta de uma carcaça que apesar de toda poesia e filosofia, cessa seu questionamento estiolado e como um pedaço de carne que apodrece com a finitude implacável, no que temos :  “Reconheço assombrado o meu Destino!/Surpreendo-me, sozinho, numa cova./Então meu desvario se renova .../Como que, abrindo todos os jazigos,/A Morte, em trajes pretos e amarelos,/Levanta contra mim grandes cutelos/E as baionetas dos dragões antigos!”. E eis a constatação, a estupefação deste poema diante do inevitável, no que temos : “Quis ver o que era, e quando vi o que era,/Vi que era pó, vi que era esterquilínio!”. E o poeta então se transfere à Roma e ao périplo de Jesus, quando então o poeta descreve o que vê, no que segue : “Súbito outra visão negra me espanta!/Estou em Roma. É Sexta-feira Santa./A treva invade o obscuro orbe terrestre./No Vaticano, em grupos prosternados,/Com as longas fardas rubras, os soldados/Guardam o corpo do Divino Mestre.” (...) “De Jesus Cristo resta unicamente/Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente/Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!”. E o poeta agora já se vê como alguém disfuncional, com sua mente desagregada, um ser que flerta com a loucura, no que segue : “A desagregação da minha Ideia/Aumenta. Como as chagas da morfeia/O medo, o desalento e o desconforto/Paralisam-me os círculos motores./Na Eternidade, os ventos gemedores/Estão dizendo que Jesus é morto!/Não! Jesus não morreu! Vive na serra/Da Borborema, no ar de minha terra,/Na molécula e no átomo ... Resume/A espiritualidade da matéria/E ele é que embala o corpo da miséria”. O poeta tenta agora resumir a tragédia de uma vida finita e simplesmente molecular com uma espiritualidade crística que está também nesta vida material e crua da natureza, no que segue a angústia do poeta, no entanto : “Desperto. É tão vazia a minha vida!/No pensamento desconexo e falho/Trago as cartas confusas de um baralho” (...) “Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme./Eu, somente eu, com a minha dor enorme/Os olhos ensanguento na vigília!” (...) “Meu coração, como um cristal, se quebre;/O termômetro negue minha febre,/Torne-se gelo o sangue que me abrasa,” (...) “Ao terminar este sentido poema/Onde vazei a minha dor suprema/Tenho os olhos em lágrimas imersos .../Rola-me na cabeça o cérebro oco./Por ventura, meu Deus, estarei louco?!/Daqui por diante não farei mais versos.”. O poeta está tão desconexo que, ao fim do poema, proclama que desistirá de fazer versos, oh drama total!
 
QUEIXAS NOTURNAS: O poema tem aqui também a angústia do poeta como numa pintura que nem Pedro Américo poderia plasmar, no que temos : “Quem foi que viu a minha Dor chorando?!/Saio. Minh`alma sai agoniada.” (...) “O quadro de aflições que me consomem/O próprio Pedro Américo não pinta .../Para pintá-lo, era preciso a tinta/Feita de todos os tormentos do homem!”. A universalidade trágica dos tormentos para o poeta, aqui, abarca o mundo inteiro, e nesta visão totalizante é que o poeta soçobra, e o mundo desolado quer sol, mas enfrenta a tristeza, no que segue : “Estou à espera de que o Sol desponte!” (...) “E a minha mágoa de hoje é tão intensa/Que eu penso que a Alegria é uma doença/E a Tristeza é minha única saúde.”. Eis a infinitude, que aqui não passa de ideia e desejo, fontes dos incautos que produz sofrimento, e que segue : “Quero, arrancado das prisões carnais,/Viver na luz dos astros imortais,/Abraçado com todas as estrelas!” (...) “E eu luto contra a universal grandeza/Na mais terrível desesperação/É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião/Da criatura contra a natureza!”. E então esta sede do infinito é nada mais que uma rebelião do poeta contra os limites da natureza, fonte de um sofrimento maior, a luta do poeta contra a sua finitude, no que segue : “E muitas vezes a agonia é tanta/Que, rolando dos últimos degraus,/O Hércules treme e vai tombar no caos/De onde seu corpo nunca mais levanta!” (...) “Ah! Por todos os séculos vindouros/Há de travar-se essa batalha vã” (...) “Vou enterrar agora a harpa boêmia/Na atra e assombrosa solidão feroz” (...) “Que dentro de minh`alma americana/Não mais palpite o coração – esta arca,/Este relógio trágico que marca/Todos os atos da tragédia humana!/Seja esta minha queixa derradeira/Cantada sobre o túmulo de Orfeu;/Seja este, enfim, o último canto meu” (...) “Melancolia! Estende-me a tu`asa!/És a árvore em que devo reclinar-me .../Se algum dia o Prazer vier procurar-me/Dize a este monstro que eu fugi de casa!”. Tal luta e batalha é o último canto do poeta, no que lhe resta, que é a melancolia.
 
BARCAROLA: A modalidade poética náutica ganha aqui o ar próprio do estro augustiniano, que logo dá suas caras de forma trágica, misturando a este canto do mar, as notas fundas do poeta do tétrico, que então nos dá no poema o relato, e neste ele dá voz à sereia, o poema então tem estes versos : “Cantam nautas, choram flautas/Pelo mar e pelo mar/Uma sereia a cantar/Vela o Destino dos nautas.” (...) “Lá onde as rochas se assentam/Fulguram como outros sóis/Os flamívomos faróis/Que os navegantes orientam.” (...) “Alegoria tristonha/Do que pelo Mundo vai!/Se um sonha e se ergue, outro cai;/Se um cai, outro se ergue e sonha./Mas desgraçado do pobre/Que em meio da Vida cai!/Esse não volta, esse vai/Para o túmulo que o cobre./Vagueia um poeta num barco./O Céu, de cima, a luzir/Como um diamante de Ofir/Imita a curva de um arco./A Lua – globo de louça –/Surgiu, em lúcido véu./Cantam! Os astros do Céu/Ouçam e a Lua Cheia ouça!/Ouça do alto a Lua Cheia/Que a sereia vai falar ...”. Mais uma vez os limites da finitude, e que aqui aparecem como queda, e a voz da sereia então nos dá o sentido desta linguagem do mar, que ao poeta não é história de nada, apenas mais um sonho de uma vida findável e limitada, no que temos : “Que é que ela diz?! Será uma/História de amor feliz?/Não! O que a sereia diz/Não é história nenhuma./É como um réquiem profundo/De tristíssimos bemóis .../Sua voz é igual à voz/Das dores todas do mundo./“Fecha-te nesse medonho/“Reduto de Maldição,/“Viajeiro de Extrema-Unção,/“Sonhador do último sonho!/“Numa redoma ilusória/“Cercou-te a glória falaz,/“Mas nunca mais, nunca mais/“Há de cercar-te essa glória!/“Nunca mais! Sê, porém, forte./“O poeta é como Jesus!/“Abraça-te à tua Cruz/“E morre, poeta da Morte!”/- E disse e porque isto disse” (...) “Mais um poeta que morreu,/Mais um coveiro do Verso!/Cantam nautas, choram flautas/Pelo mar e pelo mar/Uma sereia a cantar/Vela o Destino dos nautas!”. O poeta morre, a morte aqui encerra esta barcarola com a digital infalível de Augusto dos Anjos.
 
MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO: O poema começa prosaico, mas tem uma amplitude existencial que parte da figura do fósforo para então ir a Moisés e ao próprio Cristo, no que temos : “Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o/Depois. E o que depois fica e depois/Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois/Túmulos dentro de um carvão promíscuo./Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo/Que a individual psiquê humana tece e/O outro é o do sonho altruístico da espécie/Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!”. E o poeta se volta ao aspecto mental, mais ainda, do raciocínio, no que segue : “Raciocinar! Aziaga contingência!/Ser quadrúpede! Andar de quatro pés/É mais do que ser Cristo e ser Moisés/Porque é ser animal sem ter consciência!”. O limite ao menor aspecto da natureza, eis no que o poeta reduz os desejos vãos da finitude, no que segue : “E afogo mentalmente os olhos fundos/Na amorfia da cítula inicial,/De onde, por epigênese geral,/Todos os organismos são oriundos.” (...) “Certo, o arquitetural e íntegro aspecto/Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nele/Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele/Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!”. E então o que vem depois, um profundíssimo e abismal nada, no que segue o poema : “Depois, é o céu abscôndito do Nada,/É este ato extraordinário de morrer” (...) “Abro na treva os olhos quase cegos./Que mão sinistra e desgraçada encheu/Os olhos tristes que meu Pai me deu/De alfinetes, de agulhas e de pregos?!/Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!”. E o poema vai em acrobacias diante do absurdo da vida e da morte, que o poeta tenta descrever como uma canção inútil sobre nada, no que temos : “Então, do meu espírito, em segredo,/Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,/Na síntese acrobática de um salto,/O espectro angulosíssimo do Medo!/Em cismas filosóficas me perco/E vejo, como nunca outro homem viu,” (...) “Vida, mônada vil, cósmico zero,/Migalha de albumina semifluida,/Que fez a boca mística do druida/E a língua revoltada de Lutero;/Teus gineceus prolíficos envolvem/Cinza fetal! ... Basta um fósforo só/Para mostrar a incógnita de pó,/Em que todos os seres se resolvem!” (...) “Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,/Na abjeção embriológica da vida/O futuro de cinza que me aguarda!”. E então temos o sentido do fósforo no poema, este é o que acende o fogo que queima tudo, até nosso corpo, carne que morre, o fogo, mais ainda, o fósforo, neste poema, vem para nos lembrar de nossa finitude e consistência carnal e que vira cinzas, somos pó, mais que estrelas, neste poema do zero cósmico, da mônada vil com a qual Augusto dos Anjos nos resume a vida.
 
POEMAS:
 
VERSOS ÍNTIMOS
 
 
 
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
 
Enterro de tua última quimera.
 
Somente a Ingratidão – esta pantera –
 
Foi tua companheira inseparável!
 
 
 
Acostuma-te à lama que te espera!
 
O Homem, que, nesta terra miserável,
 
Mora entre feras, sente inevitável
 
Necessidade de também ser fera.
 
 
 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
 
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
 
 
 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
 
Apedreja essa mão vil que te afaga,
 
Escarra nessa boca que te beija!
 
 
VENCEDOR
 
 
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
 
E à rutilância das espadas, toma
 
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
 
Meu coração – estranho carniceiro!
 
 
 
Não podes?! Chama então presto o primeiro
 
E o mais possante gladiador de Roma.
 
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
 
Nenhum pôde domar o prisioneiro.
 
 
 
Meu coração triunfava nas arenas.
 
Veio depois um domador de hienas
 
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
 
 
 
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem ...
 
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
 
Que ninguém doma um coração de poeta!
 
 
POEMA NEGRO
 
 
Para iludir minha desgraça, estudo.
 
Intimamente sei que não me iludo.
 
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
 
Nos meus olhares fúnebres, carrego
 
A indiferença estúpida de um cego
 
E o ar indolente de um chinês idiota!
 
 
 
A passagem dos séculos me assombra.
 
Para onde irá correndo minha sombra
 
Nesse cavalo de eletricidade?!
 
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
 
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
 
E parece-me um sonho a realidade.
 
 
 
Em vão com o grito do meu peito impreco!
 
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
 
Eu torço os braços numa angústia douda
 
E muita vez, à meia-noite, rio
 
Sinistramente, vendo o verme frio
 
Que há de comer a minha carne toda!
 
 
 
É a Morte – esta carnívora assanhada –
 
Serpente má de língua envenenada
 
Que tudo que acha no caminho, come ...
 
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
 
Sai para assassinar o mundo inteiro,
 
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!
 
 
 
Nesta sombria análise das cousas,
 
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
 
E as suas partes podres examino ...
 
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
 
Na podridão daquele embrulho hediondo
 
Reconheço assombrado o meu Destino!
 
 
 
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
 
Então meu desvario se renova ...
 
Como que, abrindo todos os jazigos,
 
A Morte, em trajes pretos e amarelos,
 
Levanta contra mim grandes cutelos
 
E as baionetas dos dragões antigos!
 
 
 
E quando vi que aquilo vinha vindo
 
Eu fui caindo como um sol caindo
 
De declínio em declínio; e de declínio
 
Em declínio, com a gula de uma fera,
 
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
 
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!
 
 
 
Chegou a tua vez, oh! Natureza!
 
Eu desafio agora essa grandeza,
 
Perante a qual meus olhos se extasiam ...
 
Eu desafio, desta cova escura,
 
No histerismo danado da tortura
 
Todos os monstros que os teus peitos criam!
 
 
 
Tu não és minha mãe, velha nefasta!
 
Com o teu chicote frio de madrasta
 
Tu me açoitasse vinte e duas vezes ...
 
Por tua causa apodreci nas cruzes,
 
Em que pregas os filhos que produzes
 
Durante os desgraçados nove meses!
 
 
 
Semeadora terrível de defuntos,
 
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
 
A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
 
Acorda, e após gritar a última injúria,
 
Chocalha os dentes com medonha fúria
 
Como se fosse o atrito de dois ferros!
 
 
 
Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
 
Tu mataste o meu tempo de criança
 
E de segunda-feira até domingo,
 
Amarrado no horror de tua rede,
 
Deste-me fogo quando eu tinha sede ...
 
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!
 
 
 
Súbito outra visão negra me espanta!
 
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
 
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
 
No Vaticano, em grupos prosternados,
 
Com as longas fardas rubras, os soldados
 
Guardam o corpo do Divino Mestre.
 
 
 
Como as estalactites da caverna,
 
Cai no silêncio da Cidade Eterna
 
A água da chuva em largos fios grossos ...
 
De Jesus Cristo resta unicamente
 
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
 
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
 
 
 
Não há ninguém na estrada da Ripetta.
 
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
 
As luzes funerais arquejam fracas ...
 
O vento entoa cânticos de morte.
 
Roma estremece! Além, num rumor forte,
 
Recomeça o barulho das matracas.
 
 
 
A desagregação da minha Ideia
 
Aumenta. Como as chagas da morfeia
 
O medo, o desalento e o desconforto
 
Paralisam-me os círculos motores.
 
Na Eternidade, os ventos gemedores
 
Estão dizendo que Jesus é morto!
 
 
 
Não! Jesus não morreu! Vive na serra
 
Da Borborema, no ar de minha terra,
 
Na molécula e no átomo ... Resume
 
A espiritualidade da matéria
 
E ele é que embala o corpo da miséria
 
E faz da cloaca uma urna de perfume.
 
 
 
Na agonia de tantos pesadelos
 
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
 
Desperto. É tão vazia a minha vida!
 
No pensamento desconexo e falho
 
Trago as cartas confusas de um baralho
 
E um pedaço de cera derretida!
 
 
 
Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
 
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
 
Os olhos ensanguento na vigília!
 
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
 
O aspecto sepulcral da austera sala
 
E a impassibilidade da mobília.
 
 
 
Meu coração, como um cristal, se quebre;
 
O termômetro negue minha febre,
 
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
 
E eu me converta na cegonha triste
 
Que das ruínas duma casa assiste
 
Ao desmoronamento de outra casa!
 
 
 
Ao terminar este sentido poema
 
Onde vazei a minha dor suprema
 
Tenho os olhos em lágrimas imersos ...
 
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
 
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
 
Daqui por diante não farei mais versos.
 
 
QUEIXAS NOTURNAS
 
 
Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
 
Saio. Minh`alma sai agoniada.
 
Andam monstros sombrios pela estrada
 
E pela estrada, entre estes monstros, ando!
 
 
 
Não trago sobre a túnica fingida
 
As insígnias medonhas do infeliz
 
Como os falsos mendigos de Paris
 
Na atra rua de Santa Margarida.
 
 
 
O quadro de aflições que me consomem
 
O próprio Pedro Américo não pinta ...
 
Para pintá-lo, era preciso a tinta
 
Feita de todos os tormentos do homem!
 
 
 
Como um ladrão sentado numa ponte
 
Espera alguém, armado de arcabuz,
 
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
 
Estou à espera de que o Sol desponte!
 
 
 
Bati nas pedras dum tormento rude
 
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
 
Que eu penso que a Alegria é uma doença
 
E a Tristeza é minha única saúde.
 
 
 
As minhas roupas, quero até rompê-las!
 
Quero, arrancado das prisões carnais,
 
Viver na luz dos astros imortais,
 
Abraçado com todas as estrelas!
 
 
 
A Noite vai crescendo apavorante
 
E dentro do meu peito, no combate,
 
A Eternidade esmagadora bate
 
Numa dilatação exorbitante!
 
 
 
E eu luto contra a universal grandeza
 
Na mais terrível desesperação
 
É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião
 
Da criatura contra a natureza!
 
 
 
Para essas lutas uma vida é pouca
 
Inda mesmo que os músculos se esforcem;
 
Os pobres braços do mortal se torcem
 
E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.
 
 
 
E muitas vezes a agonia é tanta
 
Que, rolando dos últimos degraus,
 
O Hércules treme e vai tombar no caos
 
De onde seu corpo nunca mais levanta!
 
 
 
É natural que esse Hércules se estorça,
 
E tombe para sempre nessas lutas,
 
Estrangulado pelas rodas brutas
 
Do mecanismo que tiver mais força.
 
 
 
Ah! Por todos os séculos vindouros
 
Há de travar-se essa batalha vã
 
Do dia de hoje contra o de amanhã,
 
Igual à luta dos cristãos e mouros!
 
 
 
Sobre histórias de amor o interrogar-me
 
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
 
Não sou capaz de amar mulher alguma
 
Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
 
 
 
O amor tem favos e tem caldos quentes
 
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
 
O coração do Poeta é um hospital
 
Onde morreram todos os doentes.
 
 
 
Hoje é amargo tudo quanto eu gosto;
 
A bênção matutina que recebo ...
 
E é tudo : o pão que como, a água que bebo,
 
O velho tamarindo a que me encosto!
 
 
 
Vou enterrar agora a harpa boêmia
 
Na atra e assombrosa solidão feroz
 
Onde não cheguem o eco duma voz
 
E o grito desvairado da blasfêmia!
 
 
 
Que dentro de minh`alma americana
 
Não mais palpite o coração – esta arca,
 
Este relógio trágico que marca
 
Todos os atos da tragédia humana!
 
 
 
Seja esta minha queixa derradeira
 
Cantada sobre o túmulo de Orfeu;
 
Seja este, enfim, o último canto meu
 
Por esta grande noite brasileira!
 
 
 
Melancolia! Estende-me a tu`asa!
 
És a árvore em que devo reclinar-me ...
 
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
 
Dize a este monstro que eu fugi de casa!
 
 
BARCAROLA
 
 
Cantam nautas, choram flautas
 
Pelo mar e pelo mar
 
Uma sereia a cantar
 
Vela o Destino dos nautas.
 
 
 
Espelham-se os esplendores
 
Do céu, em reflexos, nas
 
Águas, fingindo cristais
 
Das mais deslumbrantes cores.
 
 
 
Em fulvos filões dourados
 
Cai a luz dos astros por
 
Sobre o marítimo horror
 
Como globos estrelados.
 
 
 
Lá onde as rochas se assentam
 
Fulguram como outros sóis
 
Os flamívomos faróis
 
Que os navegantes orientam.
 
 
 
Vai uma onda, vem outra onda
 
E nesse eterno vaivém
 
Coitadas! não acham quem,
 
Quem as esconda, as esconda ...
 
 
 
Alegoria tristonha
 
Do que pelo Mundo vai!
 
Se um sonha e se ergue, outro cai;
 
Se um cai, outro se ergue e sonha.
 
 
 
Mas desgraçado do pobre
 
Que em meio da Vida cai!
 
Esse não volta, esse vai
 
Para o túmulo que o cobre.
 
 
 
Vagueia um poeta num barco.
 
O Céu, de cima, a luzir
 
Como um diamante de Ofir
 
Imita a curva de um arco.
 
 
 
A Lua – globo de louça –
 
Surgiu, em lúcido véu.
 
Cantam! Os astros do Céu
 
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
 
 
 
Ouça do alto a Lua Cheia
 
Que a sereia vai falar ...
 
Haja silêncio no mar
 
Para se ouvir a sereia.
 
 
 
Que é que ela diz?! Será uma
 
História de amor feliz?
 
Não! O que a sereia diz
 
Não é história nenhuma.
 
 
 
É como um réquiem profundo
 
De tristíssimos bemóis ...
 
Sua voz é igual à voz
 
Das dores todas do mundo.
 
 
 
“Fecha-te nesse medonho
 
“Reduto de Maldição,
 
“Viajeiro de Extrema-Unção,
 
“Sonhador do último sonho!
 
 
 
“Numa redoma ilusória
 
“Cercou-te a glória falaz,
 
“Mas nunca mais, nunca mais
 
“Há de cercar-te essa glória!
 
 
 
“Nunca mais! Sê, porém, forte.
 
“O poeta é como Jesus!
 
“Abraça-te à tua Cruz
 
“E morre, poeta da Morte!”
 
 
 
- E disse e porque isto disse
 
O luar no Céu se apagou ...
 
Súbito o barco tombou
 
Sem que o poeta o pressentisse!
 
 
 
Vista de luto o Universo
 
E Deus se enlute no Céu!
 
Mais um poeta que morreu,
 
Mais um coveiro do Verso!
 
 
 
Cantam nautas, choram flautas
 
Pelo mar e pelo mar
 
Uma sereia a cantar
 
Vela o Destino dos nautas!
 
 
 
MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO
 
 
 
Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o
 
Depois. E o que depois fica e depois
 
Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois
 
Túmulos dentro de um carvão promíscuo.
 
 
 
Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo
 
Que a individual psiquê humana tece e
 
O outro é o do sonho altruístico da espécie
 
Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!
 
 
 
E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres:
 
- “Cinza, síntese má da podridão,
 
“Miniatura alegórica do chão,
 
“Onde os ventres maternos ficam podres;
 
 
 
“Na tua clandestina e erma alma vasta,
 
“Onde nenhuma lâmpada se acende,
 
“Meu raciocínio sôfrego surpreende
 
“Todas as formas da matéria gasta!”
 
 
 
Raciocinar! Aziaga contingência!
 
Ser quadrúpede! Andar de quatro pés
 
É mais do que ser Cristo e ser Moisés
 
Porque é ser animal sem ter consciência!
 
 
 
Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto,
 
Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, sinto
 
O amargor específico do absinto
 
E o cheiro animalíssimo do parto!
 
 
 
E afogo mentalmente os olhos fundos
 
Na amorfia da cítula inicial,
 
De onde, por epigênese geral,
 
Todos os organismos são oriundos.
 
 
 
Presto, irrupto, através ovoide e hialino
 
Vidro, aparece, amorfo e lúrido, ante
 
Minha massa encefálica minguante
 
Todo o gênero humano intra-uterino!
 
 
 
É o caos da avita víscera avarenta
 
- Mucosa nojentíssima de pus,
 
A nutrir diariamente os fetos nus
 
Pelas vilosidades da placenta! –
 
 
 
Certo, o arquitetural e íntegro aspecto
 
Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nele
 
Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele
 
Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!
 
 
 
É a flor dos genealógicos abismos
 
- Zooplasma pequeníssimo e plebeu,
 
De onde o desprotegido homem nasceu
 
Para a fatalidade dos tropismos. –
 
 
 
Depois, é o céu abscôndito do Nada,
 
É este ato extraordinário de morrer
 
Que há de, na última hebdômada, atender
 
Ao pedido da célula cansada!
 
 
 
Um dia restará, na terra instável,
 
De minha antropocêntrica matéria
 
Numa côncava xícara funérea
 
Uma colher de cinza miserável!
 
 
 
Abro na treva os olhos quase cegos.
 
Que mão sinistra e desgraçada encheu
 
Os olhos tristes que meu Pai me deu
 
De alfinetes, de agulhas e de pregos?!
 
 
 
Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!
 
Dentro um dínamo déspota, sozinho,
 
Sob a morfologia de um moinho,
 
Move todos os meus nervos vibráteis.
 
 
 
Então, do meu espírito, em segredo,
 
Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,
 
Na síntese acrobática de um salto,
 
O espectro angulosíssimo do Medo!
 
 
 
Em cismas filosóficas me perco
 
E vejo, como nunca outro homem viu,
 
Na anfigonia de moléculas de esterco.
 
 
 
Vida, mônada vil, cósmico zero,
 
Migalha de albumina semifluida,
 
Que fez a boca mística do druida
 
E a língua revoltada de Lutero;
 
 
 
Teus gineceus prolíficos envolvem
 
Cinza fetal! ... Basta um fósforo só
 
Para mostrar a incógnita de pó,
 
Em que todos os seres se resolvem!
 
 
 
Ah! Maldito o conúbio incestuoso
 
Dessas afinidades eletivas,
 
De onde quimicamente tu derivas,
 
Na aclamação simbiótica do gozo!
 
 
 
O enterro de minha última neurona
 
Desfila ... E eis-me outro fósforo e riscar.
 
E esse acidente químico vulgar
 
Extraordinariamente me impressiona!
 
 
 
Mas minha crise artrítica não tarda.
 
Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,
 
Na abjeção embriológica da vida
 
O futuro de cinza que me aguarda!
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 

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